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Amoralismo do conto maravilhoso

Segundo Wladimir Propp[1], pode-se discriminar o conto maravilhoso como o gênero que começa por um dano ou um prejuízo causado a alguém, ou pelo desejo de possuir algo, que se desenvolve da seguinte maneira:

“[...] partida do herói, encontro com o doador que lhe dá um recurso mágico ou um auxiliar mágico munido do qual poderá encontrar o objeto procurado. Seguem-se: o duelo com o adversário (cuja forma mais importante é o combate com o dragão), o retorno e a perseguição. Freqüentemente essa composição torna-se mais complexa. Quando o herói se aproxima de casa, seus irmãos lançam-no em um precipício. Mas ele consegue retornar, passa por uma provação cumprindo tarefas difíceis, torna-se rei e se casa, em seu reino ou no do sogro.”

Ao pesquisar as raízes históricas desse gênero literário, o autor parte de quatro premissas básicas. A primeira diz respeito ao fato de que nenhum conto maravilhoso pode ser estudado sozinho. Em segundo lugar, qualquer que seja o motivo do conto maravilhoso em estudo, este deve ser relacionado com o conjunto do conto. Isto porque o conto maravilhoso é compreendido como uma totalidade em que todos os assuntos estão ligados e condicionados entre si. A terceira premissa decorre da constatação de que a origem do conto não está ligada aos meios econômicos de produção praticados no início do século XIX, quando se começou a registrá-lo. Por essa razão, deve-se confrontar o conto com a realidade histórica do passado e ali procurar suas raízes.

A expressão passado histórico é compreendida, neste caso, como referente não à técnica de produção, mas sim ao regime social que corresponde a ela. Isto porque, conforme diz o autor: “o conto conservou vestígios de organizações sociais hoje desaparecidas, precisamos [pois] estudar tais resquícios e esse estudo esclarecerá as fontes de muitos motivos do conto”.[2]

O autor leva ainda em consideração a hipótese de existir uma relação entre o conto, a religião e toda a esfera dos cultos. A partir dessa hipótese, Propp defende a necessidade de confrontar o conto com os ritos e os costumes, a fim de determinar a qual rito remonta tal motivo e quais relações rito e motivo mantêm entre si. Essa tarefa caracteriza-se como a quarta premissa a ser levada em consideração no estudo das raízes históricas do conto maravilhoso.

Diante do exposto, pode-se afirmar com segurança que o gênero literário aqui tratado nada tem de didatismo ou moralismo, como muitos creem. Essa visão, em nosso entender, está associada a um tipo de leitura que relaciona os motivos do conto à base econômica de produção criada a partir da Revolução da Industrial, e que de certo modo ainda influencia a sociedade atual, esquecendo-se de que o verdadeiro conto maravilhoso, como o demonstra Propp, é muito mais antigo do que o capitalismo e do que o próprio feudalismo. Seus motivos, portanto, não podem ser compreendidos à luz dos valores morais da atualidade.


[1] PROPP, Vladimir.  As raízes históricas do conto maravilhoso 2.ed., São Paulo, Martins Fontes, 2002, p. 4.

[2] Id. Ibidem. , p. 9.

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