Arquivo da tag: Último voo do flamingo

Materialidade linguística

A língua é matéria?

Quando digo a meus alunos que o idioma é matéria, não raro a maioria me olha incrédula.  A estranheza talvez se dê pelo fato de pensarmos na linguagem mais imediatamente em sua modalidade oral. Uma vez que a língua é composta de sons, e o som, por sua vez, é considerado energia, torna-se esquisito mesmo imaginar a língua como algo material.

Mas é comum entre os estudiosos de Letras o uso da expressão materialidade linguística para fazer referência às possibilidades expressivas que um determinado idioma oferece a quem por meio dele fala e escreve. Certamente, essa é uma maneira metafórica de dizer que aquele que se apropria da língua encontra nela infinitas opções para forjar um estilo e, dessa forma, fazer de seus textos uma experiência agradável aos ouvintes e leitores com quem pretende interagir.

Em outras palavras, a língua é como se fosse o mármore do escultor, as tintas do pintor, o barro do ceramista. Cada um desses tipos diferentes de artistas compartilham da mesma matéria-prima, mas com ela fazem obras diferentes. O filme aí em baixo mostra alguns mestres coreanos trabalhando a arte da cerâmica. Embora se utilizem do mesmo material, a argila, criam linguagens totalmente diferentes.

O mesmo ocorre entre os escritores, que têm no idioma a materia-prima para suas obras. E como é maleável a língua! Verdadeiramente plástica! Um grande escritor molda-a o quanto queira, na medida do seu talento. É o que faz Guimarães Rosa, em Grande Sertão Veredas. Inspirado no falar mineiro apresenta um português todo inventado.

De primeiro, eu fazia e mexia, e pensar não pensava. Não possuía os prazos. Vivi puxando difícil de difícil, peixe vivo no moquém: quem mói no asp’ro não fantasêia. Mas, agora, feita a folga que me vem, e sem pequenos dessossegos, estou de range rede. E me inventei nesse gosto de especular ideia. O diabo existe e não existe. Dou o dito. Abrenúncio. Essas melancolias. O senho vê: existe cachoeira; e pois? Mas cachoeira é barranco de chão, e água caindo por ele, retombando; o senho consome essa água, ou desfaz o barranco, sobra cahoeira alguma? Viver é negócio muito perigoso [...] (Nova Fronteira, 2001, p. 26).

Em outra variante do português, a que nos chega de Moçambique, o mais que talentoso Mia Couto brinda-nos com deliciosas construções. Entre tantas outras encontradas no conjunto de sua obra, as seguintes foram retiradas de Último voo do flamingo (Cia das Letras, 2005).

Nu e cru, eis o fato: apareceu um pênis decepado em plena Estrada Nacional, à entrada da vila de Tizangara. Era um sexo avulso e avultado. Os habitantes relampejaram em face do achado (p.15).

Quando o silêncio clareia é que se escutam os escuros presságios (p.16).

O lugar não era distante e eu viajara mais lembranças que quilômetros. Desta vez, eu vinha quase sem mim, parecia um desqualquerficado (p.48).

Fiquei mudo e miúdo, à espera. Se temos voz é para vazar sentimento. Contudo, sentimento demasiado nos rouba a voz (pp. 111-2).

O tamarindo mais sua sombra: aquilo era feito para abraçar saudades. Minha infância fazia ninho nessa árvore (p.159).

Consciente das belezas sonoras que a linguagem verbal permite construir, Caetano Veloso faz expressiva ode à Língua Portuguesa. Na canção Língua, não só brinca com a sonoridade do idioma como também realça a generosidade do português brasileiro, que se deixa permear por vários vocábulos de outras culturas. A letra da música está logo abaixo do vídeo.

Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões
Gosto de ser e de estar
E quero me dedicar a criar confusões de prosódia
E uma profusão de paródias
Que encurtem dores
E furtem cores como camaleões
Gosto do Pessoa na pessoa
Da rosa no Rosa
E sei que a poesia está para a prosa
Assim como o amor está para a amizade
E quem há de negar que esta lhe é superior?
E deixe os Portugais morrerem à míngua
“Minha pátria é minha língua”
Fala Mangueira! Fala!

Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode esta língua?

Vamos atentar para a sintaxe dos paulistas
E o falso inglês relax dos surfistas
Sejamos imperialistas! Cadê? Sejamos imperialistas!
Vamos na velô da dicção choo-choo de Carmem Miranda
E que o Chico Buarque de Holanda nos resgate
E – xeque-mate – explique-nos Luanda
Ouçamos com atenção os deles e os delas da TV Globo
Sejamos o lobo do lobo do homem
Lobo do lobo do lobo do homem
Adoro nomes
Nomes em ã
De coisas como rã e ímã
Ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã
Nomes de nomes
Como Scarlet Moon de Chevalier, Glauco Mattoso e Arrigo Barnabé
e Maria da Fé

Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode esta língua?

Se você tem uma idéia incrível é melhor fazer uma canção
Está provado que só é possível filosofar em alemão
Blitz quer dizer corisco
Hollywood quer dizer Azevedo
E o Recôncavo, e o Recôncavo, e o Recôncavo meu medo
A língua é minha pátria
E eu não tenho pátria, tenho mátria
E quero frátria
Poesia concreta, prosa caótica
Ótica futura
Samba-rap, chic-left com banana
– Será que ela está no Pão de Açúcar?
– Tá craude brô
– Você e tu
– Lhe amo
– Qué queu te faço, nego?
– Bote ligeiro!
– Arigatô, arigatô

Nós canto-falamos como quem inveja negros
Que sofrem horrores no Gueto do Harlem
Livros, discos, vídeos à mancheia
E deixa que digam, que pensem, que falem