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O surgimento da linguagem

Como teria surgido a linguagem no mundo dos homens? Como teria o ser humano desenvolvido a capacidade de se comunicar, de trocar idéias, de expressar seu pensamento? Há muito que estudiosos de diversas áreas das Ciências Humanas tentam responder a essas perguntas. E a noção geral que se tem é a de que a fala teria emergido em decorrência da atividade social.

Sabe-se que, para sobreviver, os organismos vivos precisam desempenhar algumas atividades de modo a garantir, essencialmente, condições de nutrição, reprodução e de proteção do perigo. Sabe-se também que essas condições só podem ser obtidas a partir do conhecimento, mínimo que seja, do meio ambiente em que se vive. Nas espécies animais, as atividades estão sempre associadas a processos de cooperação.

Tome-se, por exemplo, a comunidade das abelhas: em uma colmeia verifica-se uma verdadeira hierarquia de funções que visa a preservar a coletividade. Há as mensageiras, as camponesas, as operárias, as babás, os zangões, a rainha, enfim, há toda uma divisão de tarefas e uma organização de atividades voltadas para a obtenção dos meios de subsistência, que não pode prescindir de algum de tipo de comunicação.

Na espécie humana, as formas de atividade e de organização desenvolveram-se de maneira tão diversa e complexa justamente porque deram origem à linguagem. A diferença entre a linguagem dos homens e a dos outros animais parece estar na capacidade que os primeiros têm de negociar sobre as atividades que desempenham. Nas demais espécies, o conhecimento dos indivíduos a respeito do meio ambiente e do outro inclui a capacidade de reagir ao sinal que emitem. Porém, não há aquilo que entre os homens se convencionou chamar de “conversação”.

E como surgiu a conversação? Acredita-se que o homem, por ter criado e desenvolvido instrumentos que ampliaram sua capacidade de ação, passou a sentir a necessidade de discutir com seus semelhantes a respeito da divisão das tarefas no interior de uma comunidade. Ou seja, era preciso estabelecer qual atividade deveria caber a este ou aquele indivíduo, de posse deste ou daquele instrumento. Não é difícil imaginar que essa distribuição de funções gerasse controversas no seio da coletividade e que, para se chegar a um acordo, fosse preciso negociar.

Portanto, como diz Bronckart[1], “as produções sonoras originais teriam sido motivadas por essa necessidade de acordo; no início, temporal e deiticamente associadas às intervenções sobre os objetos, teriam se constituído, para os congêneres, em pretensões concretas à designação dessas mesmas intervenções. Pretensões contestáveis e inevitavelmente contestadas pelos congêneres, que teriam associado outros sons a essas intervenções. A linguagem propriamente dita teria então emergido, sob o efeito de uma negociação prática (ou inconsciente) das pretensões à validade designativa das produções sonoras dos membros de um grupo envolvidos em uma mesma atividade”.

Dito de outro modo, havia no início a necessidade de referir-se aos próprios instrumentos que o homem havia criado. Em seguida, era preciso criar formas para transmitir as intenções relativas à organização das atividades.  Pode-se dizer, portanto, que os seres humanos criaram a linguagem para tentar se entender. Será que conseguiram?


[1] BRONCKART, Jean Paul. Atividade de linguagem, texto e discursos: por um interacionismo sócio-dicursivo.  Trad. Anna Rachel Machado e Péricles Cunha.  São Paulo, EDUC, 1999, p.33.

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