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O narratário

Se em uma narrativa há sempre a figura do narrador, deve-se pressupor que há também um narratário. Narratário é aquele para quem se conta um fato. Pode-se imaginar, inicialmente, que um narrador não se preocupa com quem vai ler a história que ele conta. Mas não é isso o que ocorre.

Na verdade, o texto narrativo, real ou fictício, é uma simulação de um processo comunicativo completo, em que alguém relata acontecimentos para outro alguém. Há, desse modo, um emissor e um receptor da mensagem. Portanto, o narrador não pode deixar de levar em consideração o tipo de leitor para quem está escrevendo. Isto porque deve adaptar a linguagem à capacidade de leitura do narratário.

Digamos que a nossa intenção seja contar uma história para crianças de até 10 anos. Se utilizarmos um vocabulário que ainda não faça parte do repertório desse público, muito provavelmente não conseguiremos atingir nosso objetivo. Parece óbvio. Porém, o que não é tão evidente assim é fato de o narratário poder estar ou não explicitado no texto.

Suponhamos que iremos iniciar uma história da seguinte maneira:

Texto 1

Meu amigo, você não tem idéia do que aconteceu outro dia no centro da cidade! Um bando de andorinhas tomou de assalto a praça principal e ocupou galhos de árvores, fios de eletricidade, beirais de telhados e janelas. As pessoas até se espantaram, tão rapidamente se deu a invasão.

Nota-se no texto acima que o narrador tem em mente um narratário masculino, que faz parte de suas relações de amizade. Mesmo que o trecho fosse fragmento de uma narrativa maior, um romance, talvez, lido por um público diversificado, o narratário instalado no texto seria o tal do amigo do narrador, que poderíamos ou não saber de quem se tratava.

Era comum, nos tempos dos folhetins publicados pelos jornais do final do século XIX, autores hoje consagrados referirem-se explicitamente em seus textos a leitores do sexo feminino, por que sabiam de antemão que eram as mulheres que mais apreciavam esse gênero jornalístico.

Conclui-se portando que o narrador pode optar por deixar o narratário implícito ou explícito no seu texto. O narratário será implícito se a ele o narrador não se referir de nenhum modo. Caso contrário, estará explícito, ou seja, se o narrador estabelecer com o leitor algum tipo de comunicação direta. E isso em diversos graus, de acordo com a possibilidade ou não de identificação que se possa ter a respeito de quem seja o narratário.

No seu famoso livro Dom Casmurro, Machado de Assis, ao explicar o título da obra, diz o seguinte:

Texto 2

Não consultes dicionários. Casmurro não está aqui no sentido que eles lhe dão, mas no que lhe pôs o vulgo de homem calado e metido consigo.

Repare-se que o emprego da segunda pessoa (Não consultes) indica que o narrador está “conversando” diretamente com o leitor, sem que este seja alguém determinado. Mas há casos de narrativas em que a história é contada para um leitor específico, reconhecido no texto. Numa carta, por exemplo, é quase sempre isso o que se verifica.

Texto 3

Tio João,

O senhor devia estar aqui em Mogi das Cruzes, a Entrada dos Palmitos deste ano foi uma das mais bonitas que eu já vi. Os carros de boi iam à frente, todos enfeitados com flores e fitas vermelhas. Em seguida, vinha o cortejo: Congadas, Moçambiques e Marujadas. Logo depois, viam-se grupos musicais, charretes, carroças e cavalgadas. Os festeiros, a pé, carregavam suas bandeiras também vermelhas, estampadas com a imagem da pomba branca, símbolo do Espírito Santo. Atrás de tudo, caminhava o povo, gente de todas as idades, cantando os hinos do Divino.

O senhor perdeu uma festa linda, tio João. Para o ano que vem, não aceito desculpas, hein! Um beijo da sua sobrinha.

Mariana.

Pois é, Mariana, a narradora, contou para seu tio João, o narratário explícito, como foi um dos eventos da Festa do Divino, mas nós como narratários implícitos também ficamos sabendo o que aconteceu. Quem estava lá, viu que foi assim, quem não estava, perdeu, azar o seu. Mas no ano que vem tem mais!

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A figura do narrador

Toda narrativa pressupõe um narrador. O narrador é quem conta a história. Entretanto, não se pode dizer que aquele que narra é o ser humano de carne e osso que escreve o texto. Isto porque a pessoa que escreve pode inventar um narrador ou, até mesmo, não inventar narrador nenhum, isto é, não identificar para o leitor quem é que está contando a história. Vejamos os trechos abaixo:

Texto 1

Maria e eu conversávamos muito a respeito dos problemas sociais do país. Como professor de Sociologia, via-me na obrigação de alertá-la sobre as questões de cidadania. Hoje, ela trabalha numa entidade que luta pelos direitos das crianças carentes.

Texto 2

Paulo e Maria conversavam muito a respeito dos problemas sociais do país. Como professor de Sociologia, ele via-se na obrigação de alertá-la sobre as questões de cidadania. Hoje, ela trabalha numa entidade que luta pelos direitos das crianças carentes.

No primeiro caso, existe no texto um “eu” que conta a história. Esse “eu” é o narrador, facilmente identificado como o professor de Sociologia. Mas quem, de fato, escreveu esse texto? Pode ter sido o próprio professor, mas pode muito bem ter sido outra pessoa que resolveu inventar esse personagem que narra. De todo modo, diz-se que, no texto 1, o narrador está explícito. Real ou inventado, ele pode ser reconhecido.

Já no texto 2, não se sabe quem conta a história. Não há um “eu” que se responsabiliza pelo que está sendo dito. Fala-se, nesse caso, que o narrador é implícito ou impessoal. Ele conta os fatos “de fora”, sem participar do mundo narrado.

Tomemos agora um terceiro exemplo:

Texto 3

Paulo e Maria conversavam muito a respeito dos problemas do país. Como professor de Sociologia, ele via-se na obrigação de alertá-la sobre as questões de cidadania. Hoje, ela trabalha numa entidade que luta pelos direitos das crianças carentes. Eu acho que Paulo acabou influenciando a escolha profissional de Maria.

Pergunta-se: quem diz “eu acho” no texto 3? Trata-se do narrador, que pode ou não querer se identificar. Embora ele esteja explícito no texto por meio do pronome “eu”, não é personagem da história, mas simplesmente uma testemunha, que julga e faz comentários.

Há romances em que o narrador encontra-se ora “fora” ora “dentro” da história, como personagem ou como testemunha. São técnicas que devem ser utilizadas com cuidado. Caso contrário, corre-se o risco de bagunçar a cabeça do leitor.

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