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Louis Garrel. A imagem do novo homem

No Ano da França no Brasil, vale falar daquele que é o mais badalado ator do cinema francês na atualidade. Louis Garrel, pelo típico físico, pelas personagens que interpreta e pelas declarações que faz, incorpora em si a imagem e o estilo do homem contemporâneo

Ele é o bonito com algo de feio. O masculino com um quê de feminino. O educado e gentil, mas distante e enigmático. O elegante e refinado que ostenta traços de desleixo e desalinho. Foi com esse jogo de ambiguidades que Louis Garrel, de apenas 25 anos, conquistou cinéfilos de vários cantos do mundo e tornou-se o ator do momento em seu país.

Filho do cineasta Philippe Garrel, Louis estreou nas telas ainda criança, em 1989, no filme Les Baisers de Secours, dirigido pelo pai. Não parou mais. Em 2003, recebeu elogios da crítica e do público pela atuação em Os Sonhadores, de Bernardo Bertolucci, no qual interpretava um jovem incestuoso que, juntamente com a irmã, instiga e desafia a sexualidade de um hóspede americano, em pleno Maio de 68 em Paris. Cenas de nudez e sexo chamaram atenção da mídia.

A seguir, em 2004, veio Minha Mãe, de Christophe Honoré, em que Garrel aparece na pele do adolescente Pierre, atraído pela própria mãe. O enredo desconcertante oferecia o pretexto exato para que corpo do ator fosse explorado, em tomadas de forte apelo erótico. Não faltava nada para a imprensa fazer de Louis símbolo sexual.

A partir de então, quase sempre dirigido pelo próprio pai ou por Honoré, Garrel passa a interpretar tipos sedutores, mas que também se deixam seduzir. Foi assim em Amantes Constantes (2005), no qual Louis vive François, jovem envolvido em intensa paixão, novamente vivenciada a partir dos movimentos de Maio de 68. Foi assim no filme Em Paris (2006), em que encarna o aparentemente descompromissado Jonathan. Já em Canções de Amor (2007), A Fronteira da Alvorada e A Bela Junie (ambos de 2008), é o amor que se vinga e prega peças surpreendentes na personagem.

As características das tramas renderam, nos círculos especializados, comparações dos papéis interpretados por Louis Garrel com Antoine Doinel, personagem criado por François Truffaut que, depois da estreia ainda criança, torna-se adulto na sequência de longas do diretor. Sempre interpretado por Jean-Pierre Léaud, Doinel cresce em constante busca de novas paixões. A comparação com a já legendária criatura não incomoda Garrel. Ao contrário. “Se puder dar às pessoas a gana de viver a vida como uma aventura que Doinel me deu, ficarei feliz”, diz ele em entrevista à Folha de S. Paulo (5/12/08).

O ator também não se importa com o modo sensual como vem sendo exposto nos filmes em que atua. Na mesma entrevista à Folha, declara: “Tenho uma relação particular com o cinema: gosto de ser erotizado por um filme. Não tenho amarras artísticas. Fico feliz em vir participar dessa erotização. É estimulante ser excitado por um filme, pelos objetos de desejo de atrizes e atores”.

Nouvelle vague revisitada

Mas não está apenas na sensualidade a causa do sucesso de Louis Garrel. Ao trabalhar na maior parte das vezes com Philippe Garrel e Christophe Honoré, o jovem ator teve a oportunidade de participar de filmes que agradam parcela significativa de público por fazerem referências a obras de cineastas da nouvelle vague (nova onda) francesa, tais como Jean-Luc Godard, Jean Renoir, Eric Rohmer, o já citado François Truffaut, entre outros.

A nouvelle vague foi um movimento de jovens diretores que se rebelaram contra as regras do cinema comercial. Entre as principais características dessa nova forma de filmar estavam o amoralismo, presente especialmente nos diálogos, e a montagem narrativa, que foge da linearidade. Os princípios do grupo ficaram conhecidos pelos textos escritos pelos próprios realizadores e publicados na revista Cahiers du Cinéma.

A retomada da linguagem cinematográfica dos anos 1960 encontrou em Louis Garrel o interprete ideal. O ator, por sua vez, soube incorporar em si a imagem do novo homem que surge neste terceiro milênio, para o qual os antigos preceitos machistas estão definitivamente soterrados. Não é à-toa que seu estilo de vestir vem inspirando estilistas de vários países, inclusive do Brasil.

Antenado, culto e talentoso, Garrel canta, mantém uma companhia de teatro, a D´ores e Déjà, e estreou na direção de curtas-metragens com o filme Mes Copains (meus companheiros). Na vida pessoal, também não se pode dizer que Louis tenha tido menos sucesso. Namora Valeria Bruni Tedeschi, a charmosa atriz, roteirista e diretora do filme Atrizes (2007), do qual ele participa. Apenas por curiosidade, vale lembrar que Valéria é irmã de Carla Bruni, atual primeira dama da França.

Texto originalmente publicado na revista eletrônica Zás, edição o1, out./nov.2009, pp. 56-60:
http://issuu.com/revistazas/docs/revistazasedicaoum_outubro2009_baixa