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O abc das línguas castelhana e portuguesa: Antonio de Nebrija e Fernão de Oliveira

Partindo da versão historiográfica de que Fernão de Oliveira, ao escrever e publicar em 1536 A gramática da linguagem portuguesa, tenha se inspirado na Gramatica castellana, de Antonio Nebrija, de 1492, este estudo evidencia pontos de semelhança entre as duas obras e identifica aspectos originais no trabalho do autor português.
No momento em que os povos lusófonos adaptam-se ao Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa – firmado entre Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste e Brasil – atualizam-se os motivos, as discussões, as questões históricas e as implicações técnicas, políticas e pedagógicas que estiveram em pauta no momento de criação das primeiras gramáticas das línguas portuguesa e castelhana.
Buscou-se, assim, fornecer elementos para que o leitor atento e reflexivo possa traçar um paralelo entre o estágio de evolução desses idiomas à época do Renascimento e na contemporaneidade.

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Vamos falar português

por NIZAN GUANAES

A língua portuguesa me protege de qualquer sentimento colonizado de inferioridade

GRAÇA MACHEL é viúva de Samora Machel (presidente de Moçambique, falecido num estranho desastre de avião), mãe de Malenga e Josina Machel, meus amigos, e mulher de Nelson Mandela. Graça comanda uma das mais importantes e consequentes fundações do mundo, a Fundação para o Desenvolvimento da Comunidade, focada no desenvolvimento da criança e da mulher.
Na condição de presidente da Associação de Empreendedores Amigos da Unesco, fui visitá-la em sua casa em Johanesburgo. Graça gritou em alto e bom português: entrem, entrem. Entramos, Donata Meirel- les, minha mulher, e eu. E eis que, para absoluta surpresa, lá estava ele, Nelson Mandela, tomando sozinho o sol da tarde e lendo o seu jornal de esportes.
Mandela foi submetido a uma lastimável sessão de fotos, mas felizmente Graça Machel chegou para socorrê-lo. Enchendo a sala com sua energia e dizendo com toda a graça que vem com seu nome: vamos falar português.
No meu último artigo para a Folha, dizia que a arquitetura e o design são fundamentais para firmar o Brasil de 2014 e de 2016 como algo além de um mercado emergente, como uma cultura emergente.
Sou do país de Machado de Assis, de Manuel Bandeira, falo a língua de Fernando Pessoa, de José Saramago, de Mia Couto, e ela, a língua portuguesa, me protege de qualquer sentimento colonizado de inferioridade. A poesia brasileira me redimiu de jamais me sentir menor. Durante anos permitimos nos fazerem acreditar que falávamos uma espécie de código secreto, inferior e pobre. Tanto que nossa maneira de desqualificar as pessoas era dizer: ele só fala português.
É verdade que tudo na vida tem seu tempo sob o sol. Durante anos, o Brasil penou com seus números. Mas hoje, que os números da economia são bons, temos tempo, foco e motivação para cuidar das palavras. Agora que o Brasil encontrou seu desenho político, podemos, devemos, precisamos dar atenção ao que não era imediato e hoje ficou premente: nossa cultura, nossa forma de ser, nossa língua.
Como disse Graça Machel: vamos falar português. Temos zilhões de libaneses, de italianos, de japoneses, de coreanos, de alemães e de pessoas de outras nacionalidades que vieram morar no Brasil. Eles foram alunos do português, mas podem agora ser professores. E podem, se devidamente mobilizados, espalhar nossa língua pelo mundo.
Não somos os únicos embaixadores. Emergem como o Brasil as nações portuguesas da África. Angola e Moçambique devem crescer entre 6% e 7% neste ano, como o Brasil. E está provado: a força da língua está ligada à força da economia.
Vale, Petrobras, Embraer, Seara e outras novas e velhas multinacionais brasileiras exibem cada vez mais globalmente nossas marcas e, com elas, nosso design, nosso branding, nossa língua. O português já é, sem nenhum esforço organizado, a nona língua mais falada no mundo.
Imagine o que podemos, de forma articulada, fazer com ele. Os EUA, o principal mercado do mundo, tem uma forte comunidade hispânica. Quem fala espanhol pode facilmente falar português. Os argentinos e outros vizinhos já o fazem, por necessidade. O francês e o italiano são nossos primos. Amore, l’amour, amor são semelhantes. Temos uma plataforma genética e linguística que nos permite sonhar que esse sonho não é um sonho.
Esse sonho não é uma viagem na maionese. É uma ação econômica, industrial, diplomática, política, desportiva, militar. É impossível pensar a Inglaterra sem o inglês e a França sem o francês. Ou a Espanha sem o espanhol.
A verdade é que a única fronteira que sobrou foi a língua. Nós somos brasileiros, não é de nossa natureza colonizar ninguém. Mas, em vez de subjugá-los com nossa língua, podemos iluminá-los. E quem sabe o mundo compreenda o inteiro significado da palavra tolerância, uma palavra tão nossa.
O lindo significado da palavra saudade, palavra que só a língua portuguesa tem. E que me remete a Graça Machel, a Mia Couto, a Jorge Amado, a Caetano Veloso, a Gilberto Gil, a Roberto Carlos. Pessoas que, com talento, graça e absoluta maestria da língua portuguesa, fazem o mundo sentir saudade de nós.

NIZAN GUANAES, publicitário e presidente do Grupo ABC, escreve às terças, a cada 15 dias, nesta coluna.

Folha de S. Paulo, Mercado, terça-feira, 27 de julho de 2010, p. B12.

SALVAR / IMPRIMIR: Vamos falar português – Nizan Guanaes