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Leitor reflexivo

O conceito de leitura tem se modificado nos últimos tempos. Como diz Lúcia Pimentel Góes[1], até bem recentemente, “não se admitia um leitor ativo, movido por seus sentidos”. Porém, a partir das últimas décadas do século passado e no início deste século XXI, a maior parte das pesquisas, cujo objetivo tenha sido estudar os mecanismos de construção dos significados por meio do texto, aponta para a necessidade de se compreender o leitor como alguém ativo, isto é, como co-participante do processo de atribuição de sentidos.

Entende-se hoje que o texto não é um objeto acabado, pronto. Seja pertencente a qual gênero for, toda produção textual relaciona-se com a situação, isto é, com o contexto sociointeracional, sociocultural, histórico e econômico do qual emerge. A legibilidade de um texto depende, portanto, da interação entre leitor, texto e autor. A partir de um mesmo texto, podem ocorrer variadas leituras, com significados diferentes.

Pode-se dizer que há basicamente duas formas de leitura: a parafrástica e a polissêmica. Por meio da primeira, busca-se o reconhecimento (a reprodução) do sentido dado pelo autor. Na segunda, o que se tem é um processo de atribuição de múltiplos sentidos ao texto. Se, por um lado, são os objetivos propostos que determinam qual das duas será a mais adequada em cada caso, por outro, a estratégia de leitura também deve levar em conta o tipo de discurso sobre o qual o leitor se debruça.

Eni Pulcinelli Orlandi[2] distingue três tipos de discurso: a) o discurso autoritário, no qual a polissemia é contida, o referente está apagado e o locutor se coloca como agente exclusivo, apagando também sua relação com o interlocutor; b) o discurso polêmico, em que a polissemia é controlada, o referente é disputado pelos interlocutores, e estes se mantêm em presença, numa relação tensa de disputa pelos sentidos, e c) o discurso lúdico, em que a polissemia está aberta, o referente está presente como tal, sem que os interlocutores se exponham aos efeitos dessa presença inteiramente, não regulando sua relação com os sentidos.

O leitor competente reconhece a incompletude do texto e, por conseguinte, leva em consideração os tipos de discursos e as condições de produção de linguagem na sua tarefa de atribuir significados a uma determinada produção textual. Isso implica considerar as relações intertextuais, marcadas ou não na superfície do texto, e o não-dito como elemento subsidiário ao dito, ou, em outras palavras, os pressupostos e os subentendidos. Além disso, é fundamental identificar as formações discursivas e as formações ideológicas constitutivas do processo de significação.

Portanto, só pode ser considerado leitor pró-ativo e reflexivo aquele que produz; que constrói a leitura, entendendo que a linguagem é lugar de confronto ideológico.


[1] GÓES, Lúcia Pimentel. Olhar de descoberta: proposta analítica de livros que concentram várias linguagens. São Paulo, Paulinas, 2003, p. 15

[2] ORLANDI, Eni Pucinelli. Análise de discurso: princípios e procedimentos. Campinas, Pontes, 2002.

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