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Aventuras de João Sem Medo

FERREIRA, José Gomes.  Aventuras de João Sem Medo: panfleto mágico em forma de aventura. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1991, 210p.

Em Aventuras de João-Sem-Medo: panfleto mágico em forma de romance, publicadas inicialmente em episódios na revista infantil O Senhor Doutor, no ano de 1933, José Gomes Ferreira conta a estória de um rapaz que vivia na pequena aldeia de Chora-Que-Logo-Bebes, vizinha à Floresta Branca, “onde os homens, perdidos dos enigmas da infância, haviam instalado uma espécie de Parque de Reserva de Entes Fantásticos” [1]. Ninguém da povoação se atrevia a penetrar na floresta, não só por causa do altíssimo muro que fora construído em redor da mata, mas também porque os habitantes do vilarejo eram criaturas desanimadas, temerosas e tristes, que só viviam a se lamentar.

A única pessoa daquele lugar que tinha temperamento alegre e destemido era justamente o João, conhecido por todos como João Sem Medo. É ele quem vai desafiar a proibição expressa de entrar no Parque, em aviso afixado no muro: “É proibida a entrada a quem não andar espantado de existir” [2]. Para o desespero de sua mãe, o rapaz, com o auxílio de plantas trepadeiras, escala o alto obstáculo e inicia longa jornada floresta adentro, durante a qual irá deparar-se com os seres mais fantásticos e enfrentar as situações mais inusitadas.

Narradas em ritmo vertiginoso, em que as ações se sucedem rapidamente, sem dar tempo de reflexão ao leitor, as aventuras vividas por João Sem Medo estão repletas de seres vegetais, minerais, animais, entre outros objetos antropomorfizados ou simplesmente biotecnológicos, como bichos mecânicos e automóveis com braços. Há, por exemplo, homem sem cabeça; seixos com dentes, que mordem os pés do rapaz; árvores de dez braços, que o arremessam umas para as outras em jogos malabares; fadas verdadeiras e fadas falsificadas; princesas; gramofones com asas; seres humanos que têm lâminas de faca no lugar dos dedos; seres cujo corpo é uma caixa de ressonância apoiada em pernas de papagaio e cuja cabeça tem a forma de toca-disco; príncipe com orelhas de burro; homens máquinas; homens que vivem em árvores e se comunicam como as aves; ídolos e gigantes monstruosos; personagens de fábulas famosas; menina de pés ocos, entre outros. Enfim, a galeria de tipos é bastante extensa. Dada as características de determinadas personagens, pode-se inferir que José Gomes Ferreira tenha sido de alguma forma influenciado pelo Manifesto Futurista, do poeta italiano Filippo Tommaso Marineti [3].

Além de estranhas criaturas, também os lugares e os ambientes descritos são os mais inusitados possíveis: lagos elásticos que aumentam quando João, a nado, tenta atingir a margem; pomares em que as frutas se transformam sucessivamente em cabeças de bonecas, bolas de ouro, criam asas e voam; deserto a partir do qual todas as direções levam ao mesmo ponto; cidade onde tudo é ao contrário, onde os aviões andam debaixo da terra e os automóveis e trens voam; palácio sem portas nem janelas, no qual se entra, mas do qual não se sai; caverna com mais de um andar, vários salões, elevador e esteira rolante, são apenas alguns deles.

Todos esses seres e espaços fantásticos, evidentemente, só poderiam ensejar situações também fantásticas, como a transformação de João em árvore, em fumaça, em fonte de água; a fuga do rapaz do palácio da morte; o diálogo com a Lua, que responde ao pensamento por meio de cartazes; a Fada dos Sonhos, que mergulha dentro da boca de João; a boca etérea ambulante, que se materializa em todos os lugares e enuncia sempre o mesmo enigma; a desintegração no ar da personagem que é a versão medrosa de João Sem Medo; o desdobrar de João em dois, para que um volte a Chora-Que-Logo-Bebes e o outro viva no mundo da imaginação mágica, e muitas mais.

Sobre a criação da obra, diz Ferreira [4], em nota final da segunda edição:

“[...] decidi inventar um herói de sabor popular que desafiasse as forças enigmáticas da Floresta Branca (branca, cor convencional da infância), desmitificasse os Gigantes, os Príncipes, as Princesas, as Fadas, etc., me permitisse criar novos mitos, tornar mágicos os objectos vulgares da vida diária e dar contorno às minhas verdades mais profundas numa linguagem de acção poética que a muitos, até a mim mesmo, só me parecia possível, quando dirigida a crianças imaginárias (que todos trazemos escondidas na nossa soberba gravidade de adultos).”

A efabulação em Aventuras de João Sem Medo, afora o fato de entreter, dadas as passagens por si só divertidas, constitui capítulo a capítulo metáfora de situações sociais identificáveis para o leitor crítico. Pode-se, portanto, perceber referências à natureza já histórica e culturalmente reconhecida como um tanto quanto nostálgica do povo português; ao modo de organização institucional e política das sociedades ocidentais; às práticas de interação social padronizadas; à utilização de formas de pensamento clichês; ao preconceito contra indivíduos que questionam as normas vigentes, seja por meio de discurso ou de atitudes; à exploração do homem pelo homem; à resistência das pessoas com relação às mudanças, entre tantas outras. As várias possibilidades de leitura, aliás, já eram previstas pelo próprio autor  [5]:

“[...] a ambiguidade excedia a trapalhada difusa habitual. Porque, além da mescla de romance popular e de panfleto mágico, muitos iriam considerá-lo uma sátira à casca de certos aspectos do ambiente pátrio, outros descobrir-lhe-iam talvez acentos menos restritos (como, por exemplo, a filosofia de que o Tédio, ou mais portuguesmente a Chatice impera, dominadora e total, na vida do século XX do nosso planeta) e todos por fim embarcariam na confusão, até certo ponto legítima, desta história parecer exclusivamente destinada a crianças (que só lhe poderão entender a superfície).”

Há de se lembrar que Aventuras de João Sem Medo veio a público pela primeira vez em 1.933 ano em que se instituía em Portugal o regime político denominado Estado Novo, sob a direção de António de Oliveira Salazar, que vigorou sem interrupções até 1.974. Semelhante em alguns aspectos aos regimes instituídos por Benito Mussolini, na Itália, e por Adolf Hitler, na Alemanha, o salazarismo, como ficou conhecido, diferia desses pela postura paternalista adotada por Salazar, que se expressava por meio de falas mansas e sem as poses bombásticas e militaristas de seus congêneres.

As principais características do Estado Novo português foram: ideologia católica; aversão ao liberalismo político; censura aos meios de comunicação; onipresença da PIDE, polícia política; projeto nacionalista e colonial; discurso e prática anticomunistas; economia controlada por cartéis constituídos à sombra do governo; forte tutela sobre o movimento sindical. Durante sua vigência, o Estado Novo sofrerá fortes abalos, impostos por movimentos políticos tanto de direita quanto de esquerda, mas acaba caindo vitimado por conspiração dirigida pelo Movimento das Forças Armadas, em 25 de abril de 1974.

Se, por um lado, durante o Estado Novo a população portuguesa adulta passou a conviver com a forte repressão e censura política às publicações periódicas e emissoras de rádio e televisão, por outro, os anos de 1930, que marcam o início do regime imposto por Salazar, são considerados época de ouro no campo da literatura para a infância e juventude naquele país. O reconhecimento da criança como consumidor de livros favoreceu também o surgimento de jornais, revistas e suplementos infantis, em que colaboraram muitos autores e artistas. Com relação ao conteúdo das obras publicadas no período, depois do teor mais pedagógico das primeiras décadas do século, “constata-se cada vez mais ficção e fantasia nos livros para a infância”  [6].

José Gomes Ferreira nasceu na cidade do Porto, em 1900, e faleceu em 1985. Formou-se em Direito, na Faculdade de Direito de Lisboa, em 1924. Foi cônsul de Portugal na Noruega, de 1925 a 1930. Atuou também como jornalista e colaborador em várias publicações, entre as quais A Ressurreição — que dirigiu e na qual trabalhou com Fernando Pessoa —, Presença, Seara Nova, Descobrimento, Gazeta Musical e Todas as Artes. Foi chefe de redação da revista cinematográfica Imagem. Pertenceu também ao grupo do Novo Cancioneiro, que revelava influências surrealistas, simbolistas e, sobretudo, neo-realistas. Sua obra reflete preocupação face aos problemas do mundo, “foi principalmente o porta-voz de um sentimento de remorso e responsabilização do intelectual por todas as brutalidades e injustiças” [7]Lírios do monte, publicado em 1918, foi sua primeira obra poética e O mundo desabitado, publicado em 1960, sua primeira obra de ficção. Recebeu, em 1961, o 1º Grande Prêmio de Poesia da Sociedade Portuguesa de Escritores e, em 1965, o Prêmio da Casa da Imprensa, pelo seu livro de reflexões e memórias A memória das palavras. Embora tenha se destacado mais como poeta, Ferreira publicou romances, contos, crônicas, ensaios e memórias. Em 1958, com Carlos de Oliveira, co-organizou a antologia Contos tradicionais portugueses.


[1] FERREIRA, José Gomes.  Aventuras de João Sem Medo: panfleto mágico em forma de romance.  Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1991, p. 11.

[2] Idem, ibidem, p. 13.

[3] O primeiro manifesto foi publicado no Le Fígaro de Paris, em 22/02/1909, e nele, o poeta italiano Filippo Tommaso Marinetti, dizendo que “o esplendor do mundo enriqueceu-se com uma nova beleza: a beleza da velocidade. Um automóvel de carreira é mais belo que a Vitória de Samotrácia”. O segundo manifesto, de 1910, resultou do encontro do poeta com os pintores Carlo Carra, Russolo, Severini, Boccioni e Giacomo Balla. Os futuristas saúdam a era moderna, aderindo entusiasticamente à máquina. Para Balla, “é mais belo um ferro elétrico que uma escultura”. Para os futuristas, os objetos não se esgotam no contorno aparente e seus aspectos se interpenetram continuamente a um só tempo, ou vários tempos num só espaço. O grupo pretendia fortalecer a sociedade italiana através de uma pregação patriótica que incluía a aceitação e exaltação da tecnologia. Fonte: FUTURISMO.  História da arte. http://www.historiadaarte.com.br/futurismo.html. Acesso em: 12 abr. 2008.

[4] Idem, ibidem, p. 200.

[5] Idem, ibidem, p. 209.

[6] BLOCKEEL, Francesca.  Literatura juvenil portuguesa contemporânea: identidade e alteridade.  Lisboa, Caminho, 2001, p. 43.

[7] SARAIVA, António José e LOPES, Oscar.  História da literatura portuguesa.  17.ed., Porto, Ed. Porto, 1996, p. 1038.