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“Matisse hoje”: conservadorismo ou vanguarda?

Como parte das iniciativas do Ano da França no Brasil, a Pinacoteca do Estado de São Paulo realizou, de setembro a novembro de 2009, a exposição “Matisse Hoje”. Foi a primeira retrospectiva no país das obras do famoso modernista, que se contrapôs às rupturas radicais ocorridas na pintura do século 20.

Foram expostas cerca de 80 obras de Henri Matisse, cujo trabalho já foi considerado conservador por alguns críticos. O fato é que o pintor concebia a arte como um balsamo relaxante para as atribulações do homem moderno. Seus quadros buscam transmitir a sensação de harmonia e tranquilidade, tão importante para aliviar o estresse do caos urbano. Nesse sentido, o trabalho do artista continua sendo fonte de inspiração para pintores contemporâneos em várias partes do mundo.

A complexidade das formas simples; a ousadia das cores fortes

Na história da arte, técnicas, escolas e estilos alternam-se de modo a compor um painel evolutivo das formas de expressão do homem em diferentes épocas. A cada geração, surgem novos conceitos, geralmente construídos a partir da negação dos modelos vigentes em um momento imediatamente anterior.  Novos artistas tendem a julgar ultrapassados os trabalhos de seus antecessores. É comum referir-se a essas rupturas como movimentos revolucionários.

Uma dessas transformações ocorreu na pintura entre o final do século 19 e início do século 20. Naquela época, na França, um grupo de jovens reunidos em torno de Henri Matisse fez surgir o fauvismo, expressão derivada do termo “fauve” (fera selvagem). Atraídos pela afinidade com relação aos meios expressivos utilizados, os fauvistas rejeitaram o domínio da forma, imposto pelos acadêmicos, e também o conceito de luminosidade, que norteava os impressionistas. Buscaram referências em pintores ainda mais antigos, como Seurat, Cézanne, Van Gogh e Gauguin.

Com Matisse, a violência das cores e a composição instintiva do quadro passavam a ser especialmente valorizadas para exprimir uma felicidade existencial perfeita e sem culpa. Sob esse aspecto, a obra do pintor contrasta com a produção dos demais modernistas contemporâneos e posteriores a ele. Enquanto alguns artistas buscavam inovar a partir da desconstrução das formas tradicionais ou da então inusitada provocação conceitual, Matisse criava uma atmosfera idealizada de bem-estar e conforto, por meio de padrões assumidamente decorativos.

Matisse aspirava superar o conflito entre desenho e cor. Em suas telas, as cores se complementam de modo a causar sensações de alegria, por meio da representação de elementos presentes no cotidiano das pessoas: flores, jardins, paisagens, mulheres, estampas de tecidos, padrões de papel de parede, peças de mobília, gradis de ferro retorcido em arabescos orientais, entre outros objetos. Além disso, o artista buscava expressar a complexidade de forma simples, como se pode perceber no gosto que tinha pelo tema das janelas. São elas que o ajudam a criar, de maneira singela, efeitos de unidade entre o espaço interior e o exterior, entre o dentro e o fora.

Henri Matisse (1869-1954) nasceu em Cateau-Cambrésis, França. Pertencia a uma modesta família burguesa. Iniciou-se na pintura por acaso, quando, convalescente de uma doença, ganhou de sua mãe uma caixa de tintas. Ficou fascinado. Em 1891, mudou-se para Paris e matriculou-se na Academia Julian de artes. Em pouco tempo na capital, já frequentava o ateliê de Gustave Moreau, considerado o mais importante dos mestres da pintura da época.

Texto originalmente publicado no site da revista Zás:
http://www.revistazas.com.br/