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Além da gramática

A preocupação com o uso correto da língua portuguesa, melhor dizendo, com o emprego adequado das regras gramaticais, virou febre na mídia nacional. Começou na televisão e logo surgiu em jornais, revistas, rádios e, como não poderia deixar de ser, na Internet. Matérias e programas de diversos formatos, produzidos com o auxílio de diferentes recursos, estão sempre nos lembrando a respeito de questões relativas a esta ou àquela norma de colocação pronominal, a esta ou àquela forma de regência verbal, entre tantas outras normatizações.

Não há dúvidas de que, no Brasil, andávamos mesmo maltratando o Português, e iniciativas como essas atendem a necessidades sociais bem definidas. Dissemina-se cada vez mais a consciência de que quem fala e escreve incorretamente não merece crédito pessoal, muito menos profissional. Ri-se da cabeleireira que diz “pra mim fazer”, do jogador de futebol que fala “a gente fomos”, da passista de escola de samba que declara alguma coisa “a nível de”. Isso, só para citar alguns problemas mais amplamente conhecidos e combatidos até por aqueles que, mesmo considerando-se bons conhecedores das normas gramaticais, usam “independente” no lugar de “independentemente”.

Embora seja muito importante tratar de assuntos relacionados ao emprego correto da Língua Portuguesa, deve-se também ampliar a discussão para além dos aspectos que se constituem objeto de estudo da gramática normativa. É fundamental colocar em pauta de discussão temas que suscitem reflexões a respeito de diversos meios de desenvolvimento da capacidade de uso da linguagem, uma vez que a própria utilização da linguagem confunde-se com toda e qualquer atividade humana. Como diz Mikhail Bakhtin (1984:265), os modos de utilização da linguagem serão tão variados quantos forem os modos de atividade humana.

Foi em Bakhtin, portanto, que se foi buscar o conceito de gênero de texto para que se pudesse iniciar um diálogo sobre a relação entre o emprego da língua e o contexto de produção de linguagem em que se encontram seus usuários.

Primeira noção de gênero

Gêneros são formas relativamente estáveis de se estruturar textos, forjadas no decorrer da história no quadro de cada sociedade. Essas diferentes maneiras de se construir textos foram surgindo de acordo com as necessidades sociais e em decorrência do surgimento de novos meios de comunicação. Constituem-se gêneros de texto desde as simples réplicas dos diálogos em situações informais de comunicação no dia-a-dia das pessoas até os enunciados mais formais que regulam as relações humanas, passando pelas situações de troca cultural, artística, científica, sociopolítica, entre outras possíveis.

Visto desse modo, tudo é gênero: a conversa entre amigos, o diálogo entre pai e filho, o bilhete que se deixa para um irmão ou para a faxineira, a notícia que se lê no jornal, a mala direta de propaganda que chega pelo correio, a petição que o advogado envia ao juiz, a bula de remédio e tantos outros que a sociedade reconhece.

Acredita-se, portanto, que o estudo a respeito do emprego da língua traz maiores benefícios aos usuários dessa língua quando leva em consideração as características específicas de cada gênero textual.

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