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Noção de gênero textual

Cunhado por Mikhail Bakhtin já em 1953, o conceito de gênero de texto vem sendo cada vez mais levado em consideração no desenvolvimento de metodologias que visem ao ensino do uso de uma determinada língua. Para o lingüista russo, gênero de texto são formas relativamente estáveis de construção de enunciados forjadas por uma sociedade em seu processo de aculturação. Essas formas-padrão surgem das necessidades de comunicação que se verificam nos diferentes meios de interação social.

Nesse sentido, qualquer maneira de utilização da linguagem pode ser considerada gênero de texto: desde os diálogos estabelecidos no âmbito da formação familiar até os mais formalizados meios de troca de informações, orais ou escritos. Existe uma grande variedade de gêneros padronizados na vida corrente. Apenas para citar alguns, lembramos os gêneros práticos para desejar felicitações, votos em geral, troca de novidades sobre a saúde, sobre os negócios, entre outros. Há também aqueles que aprendemos na escola e os que entramos em contato por meio da literatura, dos jornais e revistas, do rádio e da televisão.

Assim, cada gênero deve ser estudado conforme características próprias. O uso da língua numa conversa informal entre amigos, por exemplo, não pode ser analisado a partir dos mesmos parâmetros utilizados para analisar uma discussão entre um grupo de profissionais no exercício de suas funções. Os mesmos critérios também não podem ser empregados para se avaliar a linguagem empregada numa carta de amor e aquela utilizada pelas correspondências comerciais.

O desenvolvimento de um estudo por meio do qual se possa dar conta de classificar e descrever todos os gêneros de textos que circulam em uma dada sociedade é tarefa, se não de todo impossível, pelo menos interminável. Isto porque, embora cada gênero seja, como já foi dito, uma forma relativamente estável de construção de enunciados, eles assim o são por um determinado período histórico, ou seja, modificam-se de acordo com as próprias transformações da sociedade. Além disso, em decorrência dessas mesmas transformações, novos gêneros surgem de tempos em tempos do mesmo modo que outros desaparecem.

Tome-se como exemplo o telegrama ainda no tempo do código Morse. Utilizado para o envio de mensagens urgentes, esse gênero veio se modificando de acordo com o avanço tecnológico no campo das comunicações. No início, entendíamos telegrama como um texto curto, do qual, por questões de economia e rapidez, eram suprimidos termos considerados dispensáveis para a compreensão do sentido da mensagem. Com a transmissão via telefone, as mensagens enviadas, embora ainda curtas, ganham maior coesão, já sendo possível observar no corpo do texto a presença de artigos, preposições, conjunções entre outras expressões gramaticais. Hoje, o telegrama foi substituído pelo gênero e-mail, transmitido via Internet, que liberta o produtor do texto de preocupações de ordem econômica.

Os gêneros textuais são divididos em dois grandes grupos: os primários e os secundários. Os primários são os que se constróem em situações espontâneas de uso da linguagem, como as que surgem nas conversações do cotidiano. Os gêneros primários são, portanto, produto da tradição oral de um povo. Já os secundários caracterizam-se pela escrita, pelas formas padronizadas de organização da linguagem e pelo fato de desempenharem funções mais ou menos formalizadas no processo de construção da cultura desse povo. Deve-se argumentar, entretanto, que os modos de expressão oral e escrito por si só não são suficientes para a classificação de um gênero como primário ou secundário. Para demonstrar isso, basta lembrar que gêneros como palestra, conferência, seminário, bastantes comuns nos meios acadêmicos e profissionais, são transmitidos oralmente e nem por isso surgem de modo espontâneo.

De qualquer maneira, a separação texto oral versus texto escrito é de fundamental importância para o estudo dos gêneros, uma vez que as mudanças que se verificam sistemática e paulatinamente na estruturação dos gêneros ditos secundários têm sua origem nas transformações mais rápidas e dinâmicas que se operam no modo como as pessoas falam no suceder das gerações.

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Além da gramática

A preocupação com o uso correto da língua portuguesa, melhor dizendo, com o emprego adequado das regras gramaticais, virou febre na mídia nacional. Começou na televisão e logo surgiu em jornais, revistas, rádios e, como não poderia deixar de ser, na Internet. Matérias e programas de diversos formatos, produzidos com o auxílio de diferentes recursos, estão sempre nos lembrando a respeito de questões relativas a esta ou àquela norma de colocação pronominal, a esta ou àquela forma de regência verbal, entre tantas outras normatizações.

Não há dúvidas de que, no Brasil, andávamos mesmo maltratando o Português, e iniciativas como essas atendem a necessidades sociais bem definidas. Dissemina-se cada vez mais a consciência de que quem fala e escreve incorretamente não merece crédito pessoal, muito menos profissional. Ri-se da cabeleireira que diz “pra mim fazer”, do jogador de futebol que fala “a gente fomos”, da passista de escola de samba que declara alguma coisa “a nível de”. Isso, só para citar alguns problemas mais amplamente conhecidos e combatidos até por aqueles que, mesmo considerando-se bons conhecedores das normas gramaticais, usam “independente” no lugar de “independentemente”.

Embora seja muito importante tratar de assuntos relacionados ao emprego correto da Língua Portuguesa, deve-se também ampliar a discussão para além dos aspectos que se constituem objeto de estudo da gramática normativa. É fundamental colocar em pauta de discussão temas que suscitem reflexões a respeito de diversos meios de desenvolvimento da capacidade de uso da linguagem, uma vez que a própria utilização da linguagem confunde-se com toda e qualquer atividade humana. Como diz Mikhail Bakhtin (1984:265), os modos de utilização da linguagem serão tão variados quantos forem os modos de atividade humana.

Foi em Bakhtin, portanto, que se foi buscar o conceito de gênero de texto para que se pudesse iniciar um diálogo sobre a relação entre o emprego da língua e o contexto de produção de linguagem em que se encontram seus usuários.

Primeira noção de gênero

Gêneros são formas relativamente estáveis de se estruturar textos, forjadas no decorrer da história no quadro de cada sociedade. Essas diferentes maneiras de se construir textos foram surgindo de acordo com as necessidades sociais e em decorrência do surgimento de novos meios de comunicação. Constituem-se gêneros de texto desde as simples réplicas dos diálogos em situações informais de comunicação no dia-a-dia das pessoas até os enunciados mais formais que regulam as relações humanas, passando pelas situações de troca cultural, artística, científica, sociopolítica, entre outras possíveis.

Visto desse modo, tudo é gênero: a conversa entre amigos, o diálogo entre pai e filho, o bilhete que se deixa para um irmão ou para a faxineira, a notícia que se lê no jornal, a mala direta de propaganda que chega pelo correio, a petição que o advogado envia ao juiz, a bula de remédio e tantos outros que a sociedade reconhece.

Acredita-se, portanto, que o estudo a respeito do emprego da língua traz maiores benefícios aos usuários dessa língua quando leva em consideração as características específicas de cada gênero textual.

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