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Focalização

Uma história pode ser contada por uma personagem, isto é, por um narrador inserido no enredo, ou por uma voz externa a esse universo, em outros termos, por uma entidade que não integra o mundo narrado. A depender do lugar em que se coloque (dentro ou fora da história), o narrador dominará determinados campos de consciência, que condicionará o grau de representação da informação narrativa que estará apto a fornecer. A representação do conjunto de  informações ao alcance da consciência do narrador recebe, de acordo com Reis e Lopes[1], o nome de focalização.

Identificado ainda pelas expressões ponto de vista, visão, restrição de campo e foco narrativo, o conceito de focalização diz respeito não só à quantidade de informação facultada – referentemente aos fatos, às personagens, aos espaços, etc.  – mas também à qualidade dessa informação, uma vez que traduz posicionamentos afetivos, ideológicos, éticos e morais do narrador com relação aos acontecimentos narrados. Observemos o exemplo:

Entraram na boate. O volume da música, o colorido das luzes girando por todo ambiente, a movimentação dos corpos, que se agitavam na pista de dança, enchiam o coração de Alex de expectativa. A noite prometia! Ricardo, no entanto, só enxergava a fumaça dos cigarros e os vapores de suor subindo e embaçando o espelho das paredes. Diante de seus olhos, uma quantidade enorme de pessoas acotovelava-se para transpor o exíguo espaço entre o bar e os banheiros.

A partir do que cada personagem vê, faz-se idéia do local onde transcorrerão os fatos. Além disso, de acordo com o que mais chama a atenção de cada um dos jovens, é possível reconhecer as particularidades emocionais de cada um deles. Alex e Ricardo, detentores momentamente do foco narrativo, oferecem ao leitor imagens diferentes do ambiente, conforme suas próprias atitudes valorativas. É fácil perceber que a movimentação na boate agradava a Alex, enquanto Ricardo achava tudo muito chato e até depressivo. Isso, certamente, por conta do seu estado de ânimo.

O mecanismo da focalização, evidentemente, está atrelado ao posicionamento da figura do narrador. As informações que podem ser franqueadas sobre o universo narrado serão diferentes caso o narrador se coloque fora da história ou se apresente como testemunha dos fatos. A depender da posição adotada, podemos ter três tipos de focalização: focalização externa, focalização interna e focalização onisciente.


[1] REIS, Carlos e LOPES, Ana Cristina M.  Dicionário de narratologia.  Coimbra, Almedina,1996,  p. 165.

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