Arquivo da tag: Elegia

Ode e elegia à tecnologia: Gilberto Gil e Erasmo Carlos

Ode e elegia são categorias do gênero lírico, modalidade poética que, na Grécia Antiga, era recitada ao som de instrumentos musicais, como a lira, por exemplo. Daí a origem do nome. O filósofo grego Aristóteles referia-se ao lírico como a palavra cantada.

Carregado em geral de emoções, o texto lírico apresenta-se na maioria das vezes estruturado em versos. É também acentuadamente marcado pela presença da voz de um “eu” que expressa subjetidade no poema. Trata-se do “eu lírico”, emissor e quase sempre personagem única da mensagem transmitida.

Mesmo quando se desvinculou da música, em épocas passadas, a composição lírica preservou a sonoridade melódica, por meio da aliteração, da rima, do ritmo e da métrica. A forma mais consagrada do gênero lírico é o soneto, poema de catorze versos, distribuídos em dois quartetos e dois tercetos. A palavra italiana sonetto significa pequeno som.

Com o passar do tempo, o lírico libertou-se também das formas rígidas. Mas, em contrapartida, voltou a aproximar-se da música e difundiu-se especialmente nas canções populares. Entre essas, encontram-se todas as categorias do gênero há muito estudadas.

É o caso da ode, poema composto para exaltar algo, que ocorre na música Pela Internet, de Gilberto Gil.

Inserida no CD Quanta, lançado em 1997, a letra de Gil exalta a rede mundial de computadores, no momento em que ela se popularizava. É com verdadeiro entusiasmo que o “eu lírico” presente no texto enaltece a nova tecnologia, os novos benefícios e as novas possibilidades colocadas à disposição das pessoas.

Criar meu web site / Fazer minha home-page / Com quantos gigabytes / Se faz uma jangada / Um barco que veleje [...] / Que veleje nesse informar / Que aproveite a vazante da infomaré [...] / Eu quero entrar na rede / Promover um debate / Juntar via Internet
Um grupo de tietes de Connecticut.

O que se expressa é quase uma cosmogonia, ou seja, a criação de um novo mundo, de uma “infomaré”. Isso, porém, sem deixar de notar a presença no fenômeno de algumas sementes da sua própria destruição.

Um hacker mafioso acaba de soltar / Um vírus para atacar os programas no Japão.

Pois bem, nem vinte anos se passaram, para que outro artista, em vez de ode, fizesse uma elegia ao mesmo tema. Isto é, para que lamentasse a dependência da internet. Ao observar mais concretamente alguns brotos daquelas sementes, o “eu lírico” que fala na letra de Colapso, de Erasmo Carlos, em vez de glorificar a tecnologia, coloca em relevo consequências quase que escatológicas de uma eventual pane no sistema (CD Gigante Gentil, 2014).

Um SOS veio da Antártica / Apagão na informática / É o fim do mundo ou guerra fria / Caos na tecnologia

Ondas solares / Bug no céu / A nuvem foi virando véu / A voz na terra emudeceu / A comunicação morreu.

E eu aqui tentando / Morto de pavor / Desconectado / Falar com o meu amor.

Que tal ouvir a letra inteira?