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Dialogismo: manifestações julho 2013, Dilma Rousseff, Porta dos Fundos

Brasil, julho de 2013. A manifestação contra o aumento de 20 centavos nas tarifas dos transportes públicos, em São Paulo, recebe adesão de pessoas de todos os setores da sociedade, depois de tentativa da Polícia Militar de conter os primeiros manifestantes. Logo, ruas de importantes cidades do país são invadidas por uma multidão.

As pautas de reivindicações vão muito além do protesto contra o preço das passagens. Melhores condições de saúde e educação, reforma política, menores impostos, fim da corrupção, entre outras, são algumas das palavras de ordem que emanam do povo em estreito diálogo com o discurso há muito veiculado pela imprensa e pelas redes sociais.

O princípio dialógico constitutivo da linguagem atingia alto grau por meio da participação popular. E dessa vez não só por meios virtuais, mas de corpo presente e viva voz. Era a vontade do povo, na sua condição de eu, aqui e agora, naquele contexto sócio-histórico presente, querer interagir com o outro. E que outro? Aquele que recebeu votos de confiança para gerenciar os problemas do país. O vídeo abaixo mostra um recorte desse movimento.

“A vida é dialógica por natureza”, diz Mikhail Bakhtin (Estética da criação verbal, São Paulo, Martins Fontes, 1992, p. 35.). É por meio do diálogo entre discursos que se constróem as ideologias. Instadas pelo clamor popular, as instâncias de poder, naquele momento, não poderiam se omitir. Dignatária maior da nação, Dilma Rousseff vem a público. Vale observar com atenção a fala da presidente.

Em resposta às reivindicações, a presidente Dilma, em primeiro lugar, afasta-se de toda a problemática discutida nas manifestações. Diz ela: “Essas vozes das ruas precisam ser ouvidas”. Pergunta-se: por quem? A própria presidente responde: “Essa mensagem direta das ruas é pelo direito de influir nas decisões de todos os governos, do legilativo e do judiciário”. Mas, e os governos do executivo, prefeitos e governadores?! Não seria “essa mensagem” direcionada também a eles?

Em segundo lugar, Dilma busca se desresponsabilizar de qualquer resposta, uma vez que, de acordo com ela, o seu governo já estaria “ouvindo essas vozes pela mudança”, bem antes do movimento eclodir.  E mais do que isso. A julgar pela fala da presidente, teria sido o seu próprio governo o grande incentivador das manifestações. Diz ela:

O meu governo está ouvindo essas vozes pela mudança. O meu governo está empenhado e comprometido com a transformação social, a começar pela elevação de 40 milhões de pessoas à classe média com o fim da miséria. [...] porque incluímos, porque elevamos o acesso a renda, porque ampliamos o acesso ao emprego, porque demos acesso a mais pessoas à educação, surgiram cidadãos que querem mais, que têm direito a mais.

Como se nota, é no movimento dialógico discursivo que uma mesma temática é utilizada para veicular posicionamentos ideológicos. É por meio do dialogismo que os interlocutores constroem um verdadeiro jogo de imagens: a imagem que querem passar de si e a imagem que fazem do outro com quem interagem. É nas formas de utilização e nas marcas dos discursos que se imprimem na língua choques e contradições.

Curioso ainda é observar como o grupo de comediantes Porta dos Fundos, coerentemente com a imagem que projeta de si, insere-se nesse diálogo para construir a imagem que faz das instituições políticas.