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A falta que nos move

CINEMA

A falta que nos move
Brasil, 2007. Direção Christiane Jatahy. 95 minutos.
Roteiro: Lulu Silvia Telles e Christiane Jatahy.
Fotografia: Walter Carvalho.
Montagem: Sérgio Mekler.
Elenco: Cristina Amadeo, Daniela Fortes, Pedro Brício, Kiko Mascarenhas, Marina Vianna.
Produtor: Flávio Ramos Tambellini.

“Somos a geração que cresceu no vácuo”, diz Christiane Jatahy, diretora de “A falta que nos move”, presente na 33ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

A frase, enunciada durante bate-papo com a plateia, após a exibição do filme no Cine Sesc, domingo 25 de outubro, refere-se à experiência de vida não só da própria cineasta mas também das personagens desse longa de ficção, apresentado em forma de reality show.

O vácuo a que Christiane se refere é aquele deixado na história por uma juventude que se tornou adulta na década de 1980, quando o país ensaiava os primeiros passos rumo à redemocratização política. “Apesar de termos ido às ruas pelo movimento das Diretas Já, somos fruto da ignorância. Fomos criança no tempo da ditadura militar, sem que soubéssemos o que isso significava”, completa a diretora.

A consequência para o desenvolvimento da subjetividade dos indivíduos dessa geração é uma espécie de vazio existencial, que ideologia alguma pode preencher. Até mesmo no campo das relações afetivas, as personagens de “A falta que nos move” parecem perdidas e hesitantes entre a liberdade sexual ostentada pelas gerações anteriores e a retomada de um puritanismo reacionário.

Quanto à linguagem do filme, Christiane esclarece que sua intenção foi a de questionar sobre as causas que levam o público hoje em dia a prestar tanta atenção nos reality shows. Uma das teorias da cineasta a respeito do assunto é a de que as pessoas, quando colocadas em situações sociais de confinamento, tendem a reproduzir o padrão de comportamento aprendido no meio em que se desenvolveram. O resultado seria a identificação do expectador.

Em “A falta que nos move”, cinco atores participam de uma experiência cinematográfica inusitada. São colocados no interior de uma casa como eles próprios e como personagens, ao mesmo tempo. Mediante uma série de regras previamente impostas pela diretora, eles bebem, fumam e preparam um jantar de verdade, enquanto esperam por uma sexta pessoa que não sabem quem é, quando chegará ou mesmo se virá. Entre as condições, uma é fundamental: ninguém pode jantar enquanto o visitante não aparecer.

Nesse jogo de convivências, não fica óbvio para o público o que é real e o que é ficção; o que é representado rigorosamente segundo um roteiro preestabelecido e o que é improvisado. Na linha do desconstrutivismo narrativo, os atores-personagens volta e meia referem-se às técnicas de produção do filme. Além disso, em algumas poucas situações, são advertidos sobre os rumos dos acontecimentos por meio de torpedos enviados pela diretora para seus celulares. Cria-se, assim, uma situação limite, em que ânimos exacerbam-se e carências humanas vêm à tona.

“A falta que nos move” é a transposição para o cinema da peça-performance apresentada pela Cia Vértice de Teatro, do Rio de Janeiro, em longa temporada. Concorrente da 33ª Mostra Internacional de São Paulo, o filme prende atenção do expectador, especialmente pelo crescente clima de emoção e dramaticidade que transmite.

Texto originalmente publicado no site da revista Zás:
http://www.revistazas.com.br/