O relógio do mundo

ALBERGARIA, Lino de.  O relógio do mundo.  Ilustrações de Rogério Borges.  16.ed., São Paulo, 64p.

Duas cidades: uma comum, uma mágica. Entre elas, uma floresta e um segredo. A cidade comum é Cravo Branco, ao Sul; a mágica, é Cucura, ao Norte. O segredo é uma mina de ouro subterrânea, escondida abaixo do leito do rio que corta a densa mata. Esse é o tópos a partir do qual Lino de Albergaria cria O relógio do mundo, narrativa em que são abordados temas como rito de iniciação, ida ao encontro do desconhecido, passagem para a idade adulta, preservação da natureza, convívio com os animais, respeito às tradições, aceitação pacífica das diferenças sociais e culturais, entre outros.

A história inicia-se quando os habitantes de Cravo Branco ficam sabendo da existência do ouro pelo “último índio”. A partir de então, dominados pela cobiça, invadem a mata à procura do rico minério. É quando a gente de Cucura decide socorrer a floresta, porque precisava dela para se manter encantada. A mata por sua vez também reage, fazendo brotar novas árvores, que, sempre maiores e com mais vigor, começam a invadir Cravo Branco.

Lá, morava Casemiro Correia, caçula de uma família de doze filhos homens, cujo pai era o Capitão. Decidido a lutar contra as forças de Cucura, o homem mandava um filho após o outro enfrentar a floresta. Mas, amedrontados, todos fugiam. Em vez de seguirem rumo Norte, partiam para o Sul. Até que chegou o dia em que só sobrou Casemiro Correia. O menino passava os dias a tratar do jardim de casa, atento para que o mato não estragasse os canteiros de cravo branco, que ele tão cuidadosamente cultivava. Essa situação, no entanto, não demora a se modificar.

Bastou que uma coruja piasse, primeiro de noite, depois de dia, para que Cornélio Correia, o Capitão, mandasse à luta o último filho, impondo ao garoto a missão de acabar com a vida do pássaro, considerado mau agourento. Intuitivamente, porém, Casemiro sabia que a coruja voaria para algum lugar misterioso, sobre o qual ele tinha muita curiosidade. Mesmo armado com a pesada espingarda que o pai o obrigara a carregar, ele não tinha a menor certeza se devia ou não matar a ave. Cheio de dúvidas e conflitos, o garoto embrenha-se na mata, sem saber que uma borboleta cor de prata, símbolo de Cucura, o seguia. Também não se dava conta, tampouco, do fato de que, desde que acordara naquele dia, vinha diminuindo de tamanho e de que havia perdido mais alguns centímetros no momento em que entrara na floresta.

Daí em diante, rumo a seu destino, o garoto irá viver várias aventuras dignas dos mais tradicionais contos maravilhosos, desde cair num poço profundo e ver-se no interior de uma gruta – na qual encontra espécies de índios guardiões d´O relógio do mundo, local sagrado onde o “ferro amadurece em ouro” – até ser recebido pelos reis “sem idade” de Cucura. Durante a jornada de três anos, Casemiro enfrenta duras provações impostas ora por animais selvagens, como os caititus, porcos-do-mato, ora pelas intempéries, como a cruviana enlouquecida, ora por seres sobrenaturais, como a Caipora. No final, vê-se transformado em adulto, pronto para retornar a Cravo Branco, casar-se com Cordélia Camarão e assumir, no lugar que era de seu já falecido pai, o comando da cidade. Sua missão será a de restabelecer o equilíbrio entre os dois mundos, perdido como conseqüência da ambição dos homens comuns.

Sobre o processo de criação da obra, diz o autor [1]:

O relógio do mundo foi minha primeira tentativa de um conto de fadas ou de uma história maravilhosa. Pesquisei em Câmara Cascudo. O livro é uma homenagem a ele, pois as personagens e lugares começam todos com a letra “C”, a inicial de Cascudo. [...] É claro que tem também influência de Vladimir Propp, Marie-Louise Von Franz e de outros autores.”

Além de estar presente no nome das personagens e dos lugares, a letra “C” aparece gravada da capa do livro mágico de Cucura, o qual contém “informações sobre tudo o que começa com aquela letra” [2]. É por meio desse livro, que se vai conhecer o significado do nome da personagem principal: Casemiro, “o instituidor, o autor da paz”.[3]

No texto, as referências ao folclore brasileiro são várias. A Caipora já citada, por exemplo, é descrita por Câmara Cascudo [4] da seguinte maneira:

“[...] Em qualquer direção, pelo interior do Brasil, o Caapora-Caipora é um pequeno indígena, escuro ágil, nu ou usando tanga, fumando cachimbo, doido pela cachaça e pelo fumo, reinando sobre todos os animais e fazendo pactos com os caçadores. [...] No Ceará, além do tipo comum, aparece com a cabeleira hirta, olhos de brasa, cavalgando o porco, caititu, e agitando um galho de japecanga.”

Essa descrição coincide com a da obra em estudo. A diferença é que Albergaria utiliza a personagem na forma característica quando a ela nominalmente se faz referência como Curupira [5], cujos pés são inversos: os calcanhares para frente, os dedos para trás.

Inspirado também na tradição folclórica é o nome de um dos quatro índios que fazem a segurança da gruta de ouro. Trata-se de Caboré, palavra que, entre outras acepções, designa um tipo de caboclo ligeiramente mais claro. “Indígenas cariris, aliados aos janduís, no Rio Grande do Norte” [6]. Há ainda no conto a presença importante da coruja, compreendida inicialmente como símbolo da morte iminente de alguém enfermo, do mesmo modo como alude à ave Câmara Cascudo[7]. Pode-se fazer referência ainda a cravo branco. A flor que dá nome à cidade onde mora a personagem principal é, no dizer do folclorista [8], tradicional dos namorados, “indispensável no código dos sinais dos namorados”.

Com relação à estrutura narrativa, o tema central abordado em O relógio do mundorito de iniciação — permite que a obra seja classificada dentro do subgênero conto maravilhoso, uma vez que segundo Machado e Pageaux [9], o tema, assim como o mito, tem função estruturante no processo constitutivo do texto literário.


[1] E-mail enviado a este pesquisador em 8 de junho de 2005.

[2] O relógio do mundo, p. 45.

[3] Ibidem, p. 45.

[4] CASCUDO, Luís da Câmara.  Dicionário do folclore brasileiro.  11.ed., São Paulo, Global, 2002,  p. 98.

[5] Idem, ibidem, p. 172.

[6] Idem, ibidem, p. 90.

[7] Idem, ibidem, p. 164.

[8] Idem, ibidem, p. 165.

[9] MACHADO, Álvaro Manuel e PAGEAUX, Daniel-Henri.  Da literatura comparada à teoria da literatura. Lisboa, Edições 70, s/d., p.116.

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