É possível filosofar em português

Muito mais do que primeiro escritor em língua portuguesa a ganhar o Nobel de literatura, José Saramago, pela maneira como lê o mundo, é uma voz que merece ser ouvida no cenário da cultura e da política internacional

José Saramago você já conhece ou, pelo menos, já ouviu falar. É o primeiro, e único até agora, escritor em língua portuguesa a receber o Nobel de Literatura, no ano de 1998. Ele também ganhou o Prêmio Camões, o mais importante reconhecimento literário em nosso idioma. Além disso, na opinião de Harold Bloom, famoso crítico norte-americano, Saramago é “o mais talentoso romancista vivo nos dias de hoje”.

Toda essa aclamação talvez justifique o fato de que várias das obras do autor figurem na lista daquelas a serem lidas por quem vai prestar vestibular. Indicações à parte, Saramago é alguém que merece ser lido, escutado e até mesmo estudado. A própria biografia do escritor já é uma verdadeira lição de vida. Nascido em Portugal, numa pequena aldeia do Ribatejo, de nome Azinhaga, teve pais e avós muito pobres. Ainda com dois anos de idade foi morar em Lisboa, onde cresceu.

Sem recursos para ingressar em uma universidade, cursou escola técnica e trabalhou como serralheiro mecânico. A paixão pelos livros, no entanto, não foi deixada de lado. À noite, após o trabalho, Saramago frequentava a biblioteca municipal de Lisboa. Lá, entre uma leitura e outra, desenvolveu-se sozinho na arte de escrever. Tão aplicados foram seus estudos, que logo se tornou funcionário público, tradutor e jornalista. Em 1947, aos 25 anos de idade, já havia publicado o primeiro romance – Terra do pecado. Em seguida, dedicou-se a escrever crônicas, contos e peças de teatro.

A fama como escritor de estilo único e engajado, entretanto, só começaria a despontar a partir de 1980, com o livro Levantado do chão, no qual retrata a vida sofrida de trabalhadores rurais da região do Alentejo. Desde então, passou a produzir um romance atrás do outro, que identificam diferentes fases do modo como ele enxerga a realidade. Em O ano da morte de Ricardo Reis (1984), A jangada de pedra (1986), História do cerco de Lisboa (1989) e O Evangelho segundo Jesus Cristo (1991), Saramago lança dúvidas sobre a interpretação oficial da história.

Após esses, seus textos revelam uma nova ótica, sob a qual passa a investigar os rumos da sociedade contemporânea e o comportamento do ser humano ante as rápidas transformações das formas do viver. Nessa linha escreve Ensaio sobre a cegueira (1995), Todos os nomes (1997), A caverna (2001), O homem duplicado (2002), Ensaio sobre a lucidez (2004) e As intermitências da morte (2005).

No mais novo lançamento, A viagem do elefante (2009), Saramago conta a história da viagem de Solimão, elefante dado de presente pelo rei de Portugal D João III ao arquiduque austríaco Maximiliano II, no século XVI.  Com essa obra, o escritor parece iniciar nova fase literária, em que leveza e bom humor dão o tom da narrativa.

Estilo inovador

Os romances de José Saramago, sempre surpreendentes pelo próprio conteúdo, despertam a atenção também pelas técnicas discursivas apresentadas e pela imagem de autor que deles emerge.

Na maioria de seus textos é possível encontrar, implícita ou explicitamente, referências à história, à mitologia, às religiões, às artes plásticas, ao cinema e a várias outras formas de expressão artística. Um recurso a que o narrador de Saramago lança mão com bastante freqüência é o da utilização de clichês, ou seja, das frases prontas, dos ditos populares, muitas vezes empregados em circunstâncias completamente novas, diferentes daquelas em que aparecem no cotidiano das pessoas. Com isso, consegue trazer à tona a voz da coletividade e a lógica da consciência social, que passa a se expressar nas entrelinhas do enredo, por meio de uma linguagem figurada, na qual as metáforas aparecem em profusão.

Algumas características muito marcantes do estilo do autor – e que têm afastado de seus livros os leitores mais apegados às formas narrativas tradicionais – dizem respeito à organização da linguagem. Nos textos de Saramago são encontrados parágrafos e períodos longos, nos quais estão ausentes os sinais de pontuação, tanto aqueles que marcam pausas e finais das orações, quanto os que indicam a emoção de quem faz uso da palavra. A fala das personagens, por exemplo, é introduzida no fluxo do discurso do narrador, marcada apenas pela inicial maiúscula e, muitas vezes, sem o verbo “de dizer” indicativo de quem esteja falando.

Em entrevista à Folha de S. Paulo, em 16 de novembro de 1995, Saramago explica o modo como escreve. “No meu processo narrativo, adoto os mecanismos do discurso oral, em que também a pontuação não existe. A fala compõe-se de sons e pausas, nada mais. O leitor dos meus livros deverá ler como se estivesse a ouvir dentro da sua cabeça uma voz dizendo o que está escrito”, aconselha.

Outro procedimento bastante utilizado pelo autor diz respeito àquele a que os estudiosos de literatura chamam de “desconstrução narrativa”. O que vem a ser isso? É quando quem escreve comenta, dentro do texto, sobre o seu próprio modo de escrever. Saramago deixa claro para o leitor as opções que faz sobre o uso desta ou daquela palavra, as dificuldades que sente quanto à colocação das idéias em uma determinada ordem, como imaginou uma ou outra personagem, entre outras revelações interessantes, que denunciam o pensamento do escritor no exato instante da escrita.

Personalidade polêmica

Como se não bastasse o reconhecimento literário, o nome de José Saramago também passou a ser associado no mundo todo a temas polêmicos. Ideologicamente falando, a obra do escritor deixa entrever uma voz argumentativa que não pode deixar de ser levada em consideração. Essa voz faz pressupor que, por trás de suas narrativas, esteja alguém cético com relação aos rumos da sociedade, por um lado, mas que, por outro, também acredita na capacidade do ser humano de se reconstruir constantemente.

Há nos livros de Saramago um narrador que é, ao mesmo tempo, tenso e lírico; mordaz e terno; irônico e afável. De modo geral, alguns assuntos podem ser apontados como recorrentes na obra do autor. Entre esses, estão as relações entre identidade e alteridade, realidade e fantasia, pensamento racional e irracional ou ilógico, ciência e crença; a articulação entre o homem e a terra; a falsa legitimidade do poder do Estado; a luta de classes sociais, a religião como forma de alienação popular; os ideais progressistas contra as forças conservadoras; o papel e a condição da mulher na sociedade; a reflexão sobre a precariedade da vida humana e a eterna busca do homem por uma justificativa e por um sentido para a própria existência.

Um dos romances de Saramago que causou bastante estranhamento foi O Evangelho segundo Jesus Cristo, pelas proposições que apresenta de confronto com os dogmas da igreja católica. Também a posição radicalmente comunista do autor e algumas de suas declarações na imprensa sobre assuntos de repercussão internacional provocam muita discussão.  Entre essas, são notórias as acusações que faz contra o modo como Israel atua com relação aos palestinos. Outra opinião que causa controvérsias é a defesa que Saramago faz da integração entre Portugal e Espanha.

Seja qual for a visão que se tenha das idéias e dos livros de José Saramago, é impossível deixar de reconhecer na vida e na obra desse famoso escritor a história de força e determinação de um homem autodidata que, de serralheiro mecânico, se tornou cidadão do mundo e importante voz no cenário mundial contemporâneo. Saramago prova para todos os falantes de língua portuguesa que é possível filosofar em português.

Texto originalmente publicado na revista eletrônica Zás, edição zero, agosto e setembro de 2009, pp.66-71:
http://issuu.com/revistazas/docs/revistazas_agosto_baixa

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