Contexto de produção e seus elementos

Sempre que escrevemos ou falamos, isto é, produzimos um determinado texto, oral ou escrito, acionamos, até mesmo inconscientemente, determinadas representações sobre o contexto de produção desse texto, representações essas que vão influenciar muitas das características de nossos textos.

Vejamos quais são essas representações.

Em primeiro lugar, o produtor do texto (oral ou escrito) tem, no mínimo, uma representação de si mesmo como um organismo físico, como um corpo – físico – separado dos demais. Mas, ao mesmo tempo, ele também tem uma representação sobre o papel social que desempenha em uma determinada atividade social (por exemplo, se deve desempenhar o papel de aluno, de colega, de filho, de advogado, de médico, etc.), assim como uma representação sobre o tipo de imagem que quer passar de si mesmo por meio do texto produzido (por exemplo, se quer dar a imagem de um técnico no assunto, de competente ou não, de racional ou emocional, de democrático ou autoritário, de austero ou bem­-humorado, etc.).

Em segundo lugar, o produtor do texto também tem representações sobre o(s) seu(s) interlocutor(es), quer estes estejam ausentes ou presentes na situação de produção. Essas representações também vão nos dois sentidos anteriores. De um lado, há uma representação do(s) interlocutor(es) como entidade física, mas há também uma representação sobre o papel social que esse(s) interlocutor(es) estão desempenhando na situação social em que se processa a comunicação (por exemplo, se o interlocutor se encontra no papel de pai, de professor, de juiz. de médico, etc.).

É lógico que as representações que o produtor mantêm sobre o seu papel e sobre o papel do interlocutor estão estreitamente relacionadas. Ainda mais: estão relacionadas com um terceiro tipo de representação que diz respeito ao lugar social em que o texto circula ou vai circular. Do mesmo modo que as anteriores, essas representações vão em dois sentidos: de um lado, o produtor do texto tem representações sobre o lugar físico em que produz o texto, mas tem também representações sobre a instituição social, isto é, a “zona de atividade social” na qual circula o texto. Como exemplos dessas instituições, temos: econômicas e comerciais, políticas e governamentais, midiáticas, escolares, acadêmico-científicas, familiares, de saúde, de repressão, esportivas, de lazer, literárias, entre outras.

O quarto tipo de representação diz respeito ao momento da produção (a data em que se produz um determinado texto e o respectivo contexto histórico-social).

Finalmente, o quinto tipo de representação diz respeito ao(s) objetivo(s) que o produtor do texto busca alcançar com ele, isto é, ao(s) efeito(s) que quer produzir no(s) interlocutor(es), como, por exemplo, convencê-lo(s) de alguma coisa, aumentar seus conhecimentos, fazer com que faça(m) alguma coisa, etc.

Além disso, para produzir um texto, é necessário mobilizar determinados conteúdos temáticos que já temos na mente ou que, conforme a situação, devemos buscar, pesquisando sobre eles, de acordo com as necessidades de produção.

Além dessas representações sobre esses elementos do contexto de produção em que nos encontramos, temos também uma certa idéia de que tipo de texto que deve ser construído nesse contexto. Em outras palavras, conforme já vimos anteriormente, para cada contexto, quando o conhecemos, sabemos que devemos escolher um ou outro gênero que lhe seja mais apropriado e com o qual possamos atingir de forma mais eficaz os objetivos que perseguimos.

Todos esses fatores acabam por ter uma influência direta sobre o texto que efetivamente produzimos, em várias de suas características, como, por exemplo, em relação ao léxico escolhido, ao tamanho das orações, à forma de relacionarmos suas partes, à utilização ou não de pronomes pessoais de primeira ou segunda pessoa, ao plano global do texto, à utilização dos tempos verbais, à própria seleção dos conteúdos temáticos, à maior ou menor “correção gramatical”, etc. Em suma, não falamos ou escrevemos sobre qualquer coisa, de qualquer forma, a qualquer pessoa, em qualquer lugar.

Assim, quando temos de produzir textos escritos ou orais, precisamos ter claro, para nós mesmos, quais são as nossas representações sobre os elementos do contexto de produção e qual é o gênero mais adequado para que possamos agir com a linguagem nesse contexto. Muitas das dificuldades de desempenhar essa ação podem ser derivadas exatamente de representações não adequadas, não aceitas socialmente, e de um desconhecimento das características dos gêneros que devemos utilizar.

Se as representações do contexto e os conhecimentos sobre os gêneros orais, não formais, do cotidiano, vão-se construindo, à medida que, desde a infância, vamo-nos desenvolvendo e entrando em diferentes contextos sociais, o mesmo não é verdade em relação às representações e aos gêneros relacionados a situações mais formais. É na escola, por meio do ensino formal, que esses conhecimentos vão sendo desenvolvidos.

Concluindo, quando falamos / escrevemos, sobretudo em situações mais institucionalizadas, não falamos apenas como indivíduos isolados, sem nenhuma restrição social. Ao contrário, assumimos determinado papel social, buscando construir determinada imagem para o outro, com um determinado objetivo, para um destinatário que também desempenha um determinado papel social, e dentro de uma atividade social para a qual normalmente existem gêneros apropriados, com características próprias.

Elementos do contexto de produção (esquema)

  • Autor
  • Papel social do autor
  • Imagem que o autor passa de si mesmo
  • Destinatários possíveis do texto
  • Papel social dos destinatários
  • Locais onde o texto circula
  • Momento da publicação
  • Objetivo do autor do texto
  • Conteúdos temáticos
  • Gênero do texto

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