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Com iPad, jornal digital se tornará mídia de massa

ENTREVISTA KEN DOCTOR

Com iPad, jornal digital se tornará mídia de massa

GURU DA NOVA MÍDIA, O CONSULTOR AMERICANO KEN DOCTOR AFIRMA QUE OS LEITORES VÃO PREFERIR PAGAR PELO NOTICIÁRIO DIGITAL DE SEU INTERESSE APESAR DA OFERTA GRATUITA NA WEB

LUCIANA COELHO

EM BOSTON

Entre os muitos gurus com previsões sobre a nova mídia, o americano Ken Doctor se sobressai pelo otimismo pragmático de quem vê um futuro feliz para o jornalismo, mas não sem percalços.

Para ele, a seleção natural pela qual só os mais adaptados sobreviverão é inevitável nessa transição tecnológica.

E nada serve melhor a esse teste do que “The Daily”, o jornal exclusivo para iPad lançado na última quarta-feira pelo bilionário e pioneiro da mídia Rupert Murdoch.

O consultor vê o novo jornal como um marco na indústria da mídia voltada para as massas. A primeira revolução, diz, é o preço. O leitor paga, sim, mas em vez de uma assinatura o modelo será o do iTunes, com um aplicativo vendido a US$ 0,99 (R$ 1,66) semanais.

A outra é a interatividade -farta, mas sem pirotecnias, de forma a guardar propositadamente a imagem de uma revista ou um jornal.

A Folha ouviu Doctor no dia do lançamento do “Daily”. A fórmula, afirma, criará um veículo de massas que vai acelerar a migração do impresso para os tablets -embora ele ressalte que os primeiros não vão deixar de existir tão cedo.

Folha – O “Daily” apresentou uma primeira edição caprichada, à qual o sr. se referiu como uma revista eletrônica. Essa qualidade sobreviverá ao ritmo diário?

Ken Doctor – Essa é a grande pergunta. Fazer isso todo dia com 130 pessoas entre editorial e produção parece uma subestimação. Claro que esperamos que, conforme eles peguem a manha, a coisa se torne mais fácil, mas é um desafio enorme.

Agora, se o “Daily” for bem-sucedido, terá criado um novo patamar no mundo das notícias. E todos os jornais que estão planejando produtos para tablets terão um modelo a superar.

Algumas pessoas no Twitter reclamaram que o “Daily” ainda parece um grande arquivo PDF, e muita gente esperava mais elementos interativos. Houve uma contenção proposital para guardar a semelhança com um jornal?

O consumidor-padrão não passa o dia no Twitter. Creio que seja uma decisão consciente por uma apresentação mais familiar. Foi uma jogada esperta: querem a massa, não a turma da tecnologia.

É uma mistura de revista, jornal e TV, as pessoas sabem como lê-lo. E, como falta interatividade em geral, as pessoas ficam felizes quando conseguem um pouco.

Com o iPad a US$ 500, dá para ser um produto de massa?

Não vai custar US$ 500 por muito tempo. A projeção da [consultoria] eMarketer é que até o fim de 2012 se chegue, no mundo, a 80 milhões de tablets. Mesmo que isso esteja 50% exagerado, o preço já vai cair significativamente.

Logo teremos o iPad 2, com um preço parecido com o primeiro, talvez um pouco menos, mas aí vão surgir versões menos poderosas, e então veremos os preços caírem para US$ 299. É o preço de um smartphone.

Vai se tornar um produto de massa e vai acelerar a transição do impresso para o digital. O tablet é o primeiro produto de substituição, neles a leitura é mais prazerosa e as pessoas passam mais tempo [do que nos sites], como nos jornais impressos.

O grande desafio não será cobrar os leitores pelo noticiário digital, mas sim fazer a transição do modelo com os anunciantes.

Qual é a expectativa deles pelo “Daily” e os demais jornais em iPad?

Em 2010, os poucos que lançaram aplicativos no iPad acharam uma pequena mina de ouro, mas a renda veio sobretudo de anunciantes-patrocinadores [que subsidiaram os aplicativos ao leitor].

A questão é quão bom pode ser o anúncio no tablet, quantas formas de colocar o anunciante há, que tipos de técnicas serão usadas… Por ora, sabemos que os anunciantes gostaram da interatividade, como o consumidor.

O “Daily” vai conseguir cobrir custos com anúncios?

Para cobrir metade do custo anual, que segundo Murdoch é de US$ 25 milhões, eles precisariam ter de 450 mil a 500 mil assinantes -e o resto viria de publicidade.

É um numero alto, mas é viável. Só não acho que vai ser fácil. Eles devem conseguir logo 100 mil assinantes, e depois vão brigar para chegar a 200 mil. Aí temos de ver o que farão os outros jornais, como o “New York Times”.

Qual é a matemática por trás de US$ 0,99 por semana? O apelo?

Sim, o apelo. É um número do iTunes. Um número no qual você não precisa parar para pensar.

E o que o Murdoch mais quer é derrubar o “New York Times”. O preço do “Times” deve ficar em US$ 240 por um combo de acesso ao site, ao tablet e ao smartphone.

O leitor vai comparar. O “Times” ainda tem uma equipe superimportante. Mas o “Daily” é divertido de ler.

No lançamento do “Daily”, falou-se pouco em linha editorial e conteúdo noticioso. A plataforma se tornou mais importante que o conteúdo?

O “Daily” é o “USA Today” [jornal que nos anos 80 desenvolveu uma edição enxuta, maior apelo visual e ênfase também em entretenimento e esporte] de 2011. Acho que o “Daily” copiou a fórmula e a atualizou.

Claro que as pessoas querem as notícias do dia. Mas, como no “USA Today”, esporte e entretenimento são também muito importantes.

Já em termos políticos, acho que vai ser mais apolítico ou voltado para a comunidade [os veículos de Murdoch, como o "Wall Street Journal" e a FoxNews, são conservadores]. Isso vai lhes dar mais público.

E o sr. acredita que as pessoas vão querer pagar, com tantas notícias on-line de graça?

As pessoas não gostam de pagar por nada, mas a gente paga para ter coisas das quais precisamos.

Não é todo mundo que vai topar, mas acho que usaram o preço de forma eficiente. E, como só tem no tablet, você não vai comparar com sites de notícias. Vai comparar com aplicativos. É essa a psicologia por trás do preço.

O fato de o “Daily” existir apenas em tablet, longe de sistemas de busca -embora esteja nas redes sociais- não o prejudica?

Sim, mas é uma troca. Ao se lançar como exclusivo para tablet, conseguiu enorme visibilidade. Era o aplicativo da semana na loja on-line da Apple. Se continuar visível assim durante a venda do iPad 2, vai lucrar muito.

Se os tablets são o caminho a seguir no jornalismo, o sr. vê uma transição completa?

Não no caso das empresas “mainstream”, que podem ter um produto alternativo para o tablet, mas ainda estão ganhando dinheiro com o impresso e querem manter essa fonte de renda. Afinal, o jornal impresso, depois de algumas perdas e cortes, voltou a ser lucrativo.

Folha de S. Paulo, Mercado, segunda-feira, o7 de fevereiro de 2011.

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Felicidade nas telas

CONTARDO CALLIGARIS

A necessidade de mostrar ao mundo um semblante feliz é uma das grandes fontes de infelicidade

UMA AMIGA inventou um jeito de curtir sua fossa. Depois de um dia de trabalho, de volta em casa, ela se enfia na cama, abre seu laptop e entra no Facebook.
Ela não procura amigos e conhecidos para aliviar o clima solitário e deprê do fim do dia. Essa talvez tenha sido a intenção nas primeiras vezes, mas, hoje, experiência feita, ela entra no Facebook, à noite, como disse, para curtir sua fossa. De que forma?
Acontece que, visitando as páginas de amigos e conhecidos, ela descobre que todos estão muito bem: namorando (finalmente), prestes a se casar, renovando o apartamento que sempre desejaram remodelar, comprando a casa de praia que tanto queriam, conseguindo a bolsa para passar dois anos no exterior, sendo promovidos no emprego ou encontrando um novo “job” fantasticamente interessante. E todos vivem essas bem-aventuranças circundados de amigos maravilhosos, afetuosos, alegres, festeiros e sempre presentes, como aparece nas fotografias postadas.
Minha amiga, em suma, sente-se excluída da felicidade geral da nação facebookiana: só ela não foi promovida, não encontrou um namorado fabuloso, não mudou de casa, não ganhou nesta rodada da loto. É mesmo um bom jeito de aprofundar e curtir a fossa: a sensação de um privilégio negativo, pelo qual nós seríamos os únicos a sofrer, enquanto o resto do mundo se diverte.
Numa dessas noites de fossa e curtição, minha amiga, ao voltar para sua própria página no Facebook, deu-se conta de que a página não era diferente das outras. Ou seja, quem a visitasse acharia que minha amiga estava numa época de grandes realizações e contentamentos. Ela comentou: “As fotos das minhas férias, por exemplo, esbanjam alegria; elas não passaram por nenhum photoshop, acontece que são três ou quatro fotos “felizes” entre as mais de 500 que eu tirei”.
Logo nestes dias, acabei de ler “Perché Siamo Infelici” (porque somos infelizes, Einaudi 2010, organizado por P. Crepet). São seis textos de psiquiatras e psicanalistas (e um de um geneticista), tentando nos explicar “por que somos infelizes” e, em muitos casos, por que não deveríamos nos queixar disso.
Por exemplo, a infelicidade é uma das motivações essenciais; sem ela nos empurrando, provavelmente, ficaríamos parados no tempo, no espaço e na vida. Ou ainda, a infelicidade é indissociável da razão e da memória, pois a razão nos repete que a significação de nossa existência só pode ser ilusória e a memória não para de fazer comparações desvantajosas entre o que alcançamos e o que desejávamos inicialmente.
Não faltam no livro trivialidades moralistas sobre o caráter insaciável de nosso desejo ou evocações saudosistas do sossego de algum passado rural. Em matéria de infelicidade, é sempre fácil (e um pouco tolo) culpar a sociedade de consumo e sua propaganda, que viveriam às custas de nossa insatisfação.
Anotei na margem: mas quem disse que a infelicidade é a mesma coisa que a insatisfação? E se a infelicidade fosse, ao contrário, o efeito de uma saciedade muito grande, capaz de estancar nosso desejo? Que tal se a infelicidade não tivesse nada a ver com a ansiedade das buscas frustradas, mas fosse uma espécie de preguiça do desejo, mais parecida com o tédio de viver do que com a falta de gratificação? Em suma, você é infeliz porque ainda não conseguiu tudo o que você queria, ou porque parou de querer, e isso torna a vida muito chata?
Seja como for, lendo o livro e me lembrando da fossa de minha amiga no Facebook, ocorreu-me que talvez uma das fontes da infelicidade seja a necessidade de parecermos felizes. Por que precisaríamos mostrar ao mundo uma cara (ou uma careta) de felicidade?
1) A felicidade dá status, como a riqueza. Por isso, os sinais aparentes de felicidade podem ser mais relevantes do que a íntima sensação de bem-estar;
2) além disso, somos cronicamente dependentes do olhar dos outros. Consequência: para ter certeza de que sou feliz, preciso constatar que os outros enxergam minha felicidade. Nada grave, mas isso leva a algo mais chato: a prova de minha felicidade é a inveja dos outros.
O resultado dessa necessidade de parecermos felizes é que a felicidade é este paradoxo: uma grande impostura da qual receamos não fazer parte e que, por isso mesmo, não conseguimos denunciar.

Folha de S, Paulo, Ilustrada, quinta-feira, 23 de setembro de 2010, p. E14

SALVAR/IMPRIMIR: Felicidade nas telas – Contardo Calligaris

“Tela lança choques sensuais assim como injeções de heroína”

ENTREVISTA CHRISTOPH TÜRCKE

Para pensador alemão, autor de “Sociedade excitada” e “Filosofia do sonho” , usuários high tech são vítimas de “distração concentrada”

MARCOS FLAMÍNIO PERES
DE SÃO PAULO

A sociedade do espetáculo do pós-Guerra se transformou hoje na sociedade da sensação, mergulhada num excitamento contínuo de efeito similar ao das drogas. Essa alarmante tese high tech é defendida pelo filósofo alemão Christoph Türcke, que estará em São Paulo na semana que vem para lançar os livros “Sociedade Excitada” e “Filosofia do Sonho”.
Se o marxista francês Guy Debord atacou o consumismo em sua obra pioneira de 1967 (“A Sociedade do Espetáculo”), Türcke defende que o aprofundamento da revolução tecnológica, no final do século 20, provoca um frenesi viciante de “choques” imagéticos e visuais. “Trata-se de injeções sensuais”, afirma na entrevista abaixo à Folha.
Assim como as drogas evoluíram em potência -do ópio para a morfina e heroína, das bebidas fermentadas para as destiladas-, a “metralhadora audiovisual” contemporânea provocou um aumento de dependência por parte de seus “usuários”. “Isso é o que chamo de distração concentrada.” Herdeiro da Escola de Frankfurt, que fundia marxismo e psicanálise, Türcke conclui que a sociedade da sensação se materializa no fetiche. Pois, diz, “fetiches são sintomas de abstinência, substitutos de algo de que se foi dolorosamente privado”.

Folha – O conceito de “sociedade da sensação” não é intelectualista demais?
Christoph Türcke
– Pelo contrário. Parte de um ponto de vista sensualista, para não dizer fisiológico. Avalia como a máquina audiovisual, que emite seus choques imagéticos 24 horas por dia, se impõe ao sensório humano. Tais choques, que se vive com cada nova focagem de câmara, têm o efeito de injeções sensuais.

Como assim, injeções sensuais?
Qualquer corte imagético, qualquer nova focagem, tem o caráter de um projétil, como diz Walter Benjamin [1892-1940]. Penetra no espectador abruptamente, desencadeando uma dose de adrenalina.

Como o vício define a sociedade da sensação?
Vício como fenômeno particular -como dependência física de certas substâncias (drogas)- está modificando um fenômeno geral, pois a máquina audiovisual também vicia. Quem presta atenção à tela se dedica a ela, vive uma dependência crescente dela, vincula suas expectativas, sua economia emocional e intelectual a ela. Assim como o drogado aplica injeções de heroína, uma sociedade que depende da tela se expõe a bilhões de choques imagéticos. O choque singular é mínimo, quase imperceptível e não faz mal. Bilhões, no entanto, destroem justamente a atenção que elas atraem magneticamente.

Então, em um mundo conectado como o atual, as pessoas estão virtualmente viciadas?
O vício é real. Surge em organismos físicos, não num agregado de pixel. O mundo virtual tem sua própria realidade, uma realidade prepotente, mas por outro lado fraquíssima, muito fugaz, não consistindo senão numa constelação de impulsos eletrônicos. Ao desligar a eletricidade a virtualidade inteira desaparece.

Citando Trótski, o sr. propõe uma relação íntima entre igreja, cinema e álcool. Qual a razão disso?
Trótski não percebeu o alcance da sua própria observação. O vício tem um subtexto teológico. Cada nova injeção atua como promessa. O viciado quer cada vez mais, é insaciável, pois quer viver “o inédito”, que o vem salvar. Igreja, cinema, botequim: todos os três nutrem expectativas de salvação, cada um deles à sua maneira. O ateu Trótski tentava tirar a classe operária da aguardente ao reuni-la no cinema. Era a sua igreja.

O sr. diz que, com a invenção do destilado, destruiu-se a cultura do beber e também que a vitória da morfina e da heroína sobre o ópio mudou o padrão do “frenesi”, devido à multiplicação do efeito tóxico. Quais as implicações disso para a sociedade contemporânea?
Quanto mais forte, mais rápido o efeito. As drogas desenvolvem-se segundo as necessidades gerais de aceleração.

Então novas drogas, tanto químicas quanto “tecnológicas”, deverão necessariamente se desenvolver?
Se forem lucrativas, sim.

Parafraseando o “Manifesto Comunista”, de Marx e Engels, o sr. afirma que as pessoas não suportam “o peso da sobriedade”. Essa é uma característica da sociedade da sensação?
É. Marx e Engels não eram ascéticos, mas apostaram no domínio da razão sóbria, isenta de qualquer ópio físico ou metafísico. Eram, em outras palavras, racionalistas ilusionistas, subestimaram o homem enquanto ser pulsional que nunca vai se livrar de todas as expectativas de salvação. Não adianta recalcar tais expectativas, trata-se de lidar com elas de modo racional e reflexivo. Mas o sensacionalismo de hoje não dá espaço a tal reflexão. A metralha audiovisual torna o desvio o caminho principal.

Então a “metralhadora audiovisual” liquida a perspectiva de alguma salvação?
Não necessariamente. Não vivemos num mundo predeterminado. O livre arbítrio não está liquidado. As forças dominadoras sempre provocam forças de resistência, tanto em termos educacionais quanto sociais. A história continua em aberto.

O sr. é um crítico da “dupla estratégia” do Greenpeace, de criticar e condescender? Qual a implicação disso para o movimento ambientalista?
Constato, não critico a “dupla estratégia”. Observo, porém, que ela sempre indica fraqueza social. São minorias que têm necessidade de usá-la. Organizações não governamentais como o Greenpeace agem sob as mesmas coações comerciais que as grandes empresas. Elas têm que colaborar com forças sociais que, ao mesmo tempo, estão combatendo. Não escapam da ambiguidade. Entretanto, isso de nada serve se não arriscar o ambíguo.

A vida é sonho?
Seria bonito. Mas não é assim. A vida é um conjunto de vários estados. Um deles é o sonho. Representa o subsolo da nossa vida, É a massa de fermentação de todos os nossos desejos, planos, projetos. Ninguém aguenta a vida sem sonho. Sem sonho não há esperança, não há humanidade.


FILOSOFIA DO SONHO

AUTOR Christoph Türcke
TRADUÇÃO Paulo Rudi Schneider
EDITORA Unijuí
QUANTO R$ 48 (328 págs.)
AVALIAÇÃO bom

SOCIEDADE EXCITADA

AUTOR Christoph Türcke
TRADUÇÃO Vários tradutores
EDITORA Unicamp
QUANTO R$ 88 (328 págs.)
AVALIAÇÃO bom
LANÇAMENTO 9/9, às 19h, no Instituto Goethe (rua Lisboa, 974, tel. 0/xx/11/3296-7000), com tradução simultânea

Folha de S, Paulo, Ilustrada, quinta-feira, 4 de setembro de 2010.

SALVAR / IMPRIMIR: Entrevista Christoph Türcke

O domínio do trivial

CONTARDO CALLIGARIS

Hoje, cada vez mais, mesmo quando parecemos discordar, pensamos todos as mesmas trivialidades

AOS VINTE anos, leitor de Gramsci, eu entendia que o poder das classes dominantes se exercia de duas maneiras.
Havia a exploração econômica, com repressão eventualmente brutal das reivindicações dos trabalhadores (sem contar as guerras imperialistas).
E havia a outra face do domínio: o controle das idéias e das mentes, oculto e insidioso. Esse era o terreno de luta dos intelectuais: podíamos colaborar com a classe dominante ou, então, fazer o quê? Sermos porta-vozes de uma nova classe?
Não éramos totalmente ingênuos. Reconhecíamos os horrores do dito “socialismo real” e percebíamos que ele substituíra uma classe dominante por outra. A ditadura do proletariado não tinha por que ser melhor do que a ditadura da burguesia; talvez, aliás, ela fosse pior. Nosso sonho era outro: uma sociedade sem classes.
Pois bem, um espectador apressado poderia pensar que, enfim, realizamos a famosa sociedade sem classes -ao menos em parte.
Claro, desigualdades e exploração continuam; no entanto, é difícil distinguir a cultura da classe dominante das outras que lhe seriam opostas, porque, no fundo, mesmo quando parecemos discordar, pensamos todos igual.
Acabo de ler “L’Egemonia Sottoculturale”, de Massimiliano Panarari (Einaudi, 2010). O autor, um intelectual de minha geração, faz uma crítica hilária da “subcultura da fofoca”, que seria, segundo ele, a cultura dominante na Itália de hoje. Infelizmente, é difícil entender os exemplos no texto de Panarari sem ter sido espectador da televisão aberta italiana durante um bom tempo (e para isso é necessário dar prova de um certo heroismo). Mas o que Panarari diz não se aplica só ao caso da Itália.
Mundo afora, é cada vez mais difícil dizer algo que não faça parte de um senso comum que é feito de referências, ideias e, sobretudo, maneiras de pensar compartilhadas graças ao uso generalizado da mesma mídia.
Nesse quadro, pensar criticamente é árduo. Quem deseja convencer seus leitores ou espectadores de que ele pensa fora da trivialidade dominante tende a parecer-se com aquelas crianças que, de vez em quando, gritam “xixi e cocô” e, com isso, gabam-se de ter quebrado um grande tabú.
Nesse sentido, nos EUA, são cada vez mais populares radialistas, apresentadores e jornalistas supostamente “conservadores”, que devem seu sucesso a uma vulgaridade e a uma truculência que parecem satisfazer a espera de todos por um pensamento novo, diferente. Um exemplo: um dos aspectos do senso comum é um respeito forçado das regras do politicamente correto. Diante disso, os ditos comentadores não inventam visões mais complexas e produtivas da diversidade social, mas, para criar a ilusão de que eles pensariam fora do senso comum, permitem-se, de vez em quando, dizer ou gritar “negro” ou “viado”. Sua “ousadia” é tão inovadora quanto a das crianças do “xixi e cocô”.
No Brasil, o debate eleitoral em curso poderia também servir para mostrar que nosso senso comum compartilhado é, no caso, uma espécie de razoabilidade, resignada a evitar temas excessivamente conflitivos (o aborto, por exemplo) e a aceitar alianças duvidosas e supostamente “necessárias”.
Como chegamos a essa perda de contraste na vida pública e cultural?
Segundo Panarari, a burguesia ganhou a luta pela egemonia jogando a carta do prazer: “Na década do hedonismo reaganiano, todos se convenceram, de repente, que estava na hora de divertir-se. Palavra de ordem: “Queremos folgar” e, por favor, evite-se empestar a existência, de qualquer maneira que seja, com política, cultura, economia e todas essas “coisas” assimiláveis a preocupações e aborrecimentos”. Conclusão: a subcultura hedonista da fofoca é o novo ópio do povo.
Concordo (um pouco) com essa visão apocalíptica da cultura dominante. Mas discordo da ideia de que a subcultura da fofoca seja a invenção vitoriosa de uma classe específica.
Ela é, ao meu ver, uma consequência dos nossos tempos, pela razão que segue. Quando a midia é de massa, não há mais diferença entre manipuladores e manipulados, pois os próprios manipuladores, expostos à mídia, são manipulados por suas produções. Ou seja, progressivamente, todo o mundo pensa as mesmas trivialidades.
É o feitiço que enfeitiça o feiticeiro.

Folha de S, Paulo, Ilustrada, quinta-feira, 19 de agosto de 2010, p. E14.

SALVAR / IMPRIMIR: O domínio do trivial – Contardo Calligaris

Autorregulamentação no jornalismo

JUDITH BRITO

Democracias de verdade dispensam leis de imprensa. Valem para as empresas jornalísticas e os jornalistas as mesmas leis de danos morais que valem para a sociedade em geral.
Disse muito bem um grande jornalista brasileiro, Cláudio Abramo, num texto hoje já clássico, que “não existe uma ética específica do jornalista: sua ética é a mesma do cidadão”. Lembrou Abramo: “O que o jornalista não deve fazer que o cidadão comum não deva fazer?
O cidadão não pode trair a palavra dada, não pode abusar da confiança do outro, não pode mentir”.
Mesmo assim, diante da grande presença e da influência que têm os meios de comunicação nas democracias modernas, nelas os jornalistas, as empresas e as associações representativas do setor costumam definir princípios éticos que devem ser obedecidos no exercício da atividade.
De uma forma geral, são princípios que seguem a fórmula simples e evidente do mestre Abramo. No Brasil, muitas empresas jornalísticas têm seus códigos de ética. A Associação Nacional de Jornais também tem seu código de ética e autorregulamentação.
Com o fim da Lei de Imprensa que vigorava até o ano passado, tem crescido no país o debate sobre a necessidade de autorregulamentação mais efetiva do exercício do jornalismo.
Há quem fale em autorregulamentação como antídoto contra a criação de conselhos ou mecanismos chapa-branca de regulamentação, na linha de propostas tentadas nos últimos anos por grupos obscurantistas partidários do “controle social da mídia”.
É preciso deixar bem claro que qualquer iniciativa de interferência de instâncias governamentais no exercício do jornalismo estará sempre fadada à inconstitucionalidade. Nossa Constituição é categórica no sentido de que a liberdade de expressão não pode sofrer nenhum tipo de restrição. Por isso, o Supremo Tribunal Federal acabou com a famigerada Lei de Imprensa.
De qualquer forma, contudo, é válido o debate sobre a autorregulamentação. Em outras democracias modernas, em diferentes graus e modelos, a autorregulamentação está institucionalizada.
Criou-se nesses países toda uma cultura de respeito a princípios éticos fundamentais para que o jornalismo siga cumprindo seu essencial papel na sociedade.
Mais do que a criação de uma instância de autorregulamentação, o que precisamos no Brasil é exatamente disseminar ainda mais a cultura de respeito aos princípios éticos do jornalismo.
Os cidadãos devem estar atentos para os códigos de ética de cada jornal, de cada veículo de comunicação, e cobrar que sejam seguidos. Não podemos nunca esquecer que a credibilidade é o maior patrimônio do jornalismo.
Em relação ao Judiciário, o fundamental é que nunca se avance contra os princípios da Constituição e se pratique a censura.
Todo o conceito de liberdade de expressão está baseado no fundamento de que qualquer punição nesse campo se dará sempre a posteriori. Afinal, acima de tudo, a sociedade tem direito à informação, sem restrições ou censura.
A democracia brasileira, da qual muito devemos nos orgulhar, é uma obra em progresso iniciada com a Constituição de 88. A liberdade de expressão consagrada nessa Constituição tem sido um elemento fundamental desse processo e assim deve permanecer.
Cabe avançarmos na cultura da autorregulamentação para valorizarmos o exercício do jornalismo com liberdade e responsabilidade.


JUDITH BRITO é presidente da ANJ (Associação Nacional de Jornais) e diretora-superintendente da Empresa Folha da Manhã S.A., que edita a Folha.

SALVAR / IMPRIMIR: Autorregulamentação no jornalismo – Judith Brito

Gordura para todos

MARCELO COELHO

“Ser como você é”, nessa linguagem, equivale a ter um lugar definido no mercado consumidor

HÁ REVISTAS para tudo. Se você é criador de buldogues ou representante de vendas no setor de aparas de metal, certamente existe alguém pensando em publicar, todo mês, reportagens e artigos voltados para a sua área de interesse.
A imaginação “revisteira” nunca falha. Descobre-se uma celebridade que já teve um buldogue de estimação, ou cujo avô fez fortuna com resíduos de alumínio: já está pronta a entrevista da capa. Do cinema à gastronomia, existirá sempre uma coisa que se conecta com alguma outra e, quando menos se espera, o universo inteiro será revisto e interpretado do ângulo escolhido.
Nada mais parecido com uma galáxia do que uma extensão de lascas de níquel, nada que nos aproxime tanto do budismo quanto os hábitos de um buldogue; o candidato ecologista tem algo a dizer sobre a reciclagem do chumbo, e determinado técnico de futebol se inspira, quem sabe, na moral canina.
Já que tudo pode se transformar em “nicho de mercado”, é apenas uma questão de tempo para que tudo se transforme em revista.
Pensando assim, até que demorou muito para o surgimento de uma revista de moda voltada para mulheres acima do peso. Recebo o primeiro número de “Beleza em Curvas” (editora Digicamp).
Trata-se de uma “revista para quem ampliou o seu espaço para ser bonita”, diz a capa. E só num desbragado esforço de eufemismo estamos falando de “gordinhas”, de pessoas com “alguns quilinhos a mais”.
As fotos, as dicas de consumo e os discursos de autoestima se voltam para mulheres em estado de categórica obesidade. Existe “vida feliz acima do tamanho 46″, diz o editorial. “Viemos para dar espaço para todas as mulheres reais deste gigantesco, miscigenado e plural país”, continua o texto.
Gigantesco? Difícil saber se há controle consciente sobre os jogos de palavras que, naturalmente, ficam de tocaia quando se escreve sobre um tema tabu, como o da gordura feminina.
Domínio de texto, de qualquer modo, não é o forte dos redatores da revista. Cada página traz quantidades imoderadas de erros gramaticais, e o leitor deve estar preparado para encontrar frases como esta: “O amor é uma palavra antiga, mas um conceito pouquíssimo utilizado no geral”.
Ou ainda esta: “Numa antiguidade quase presente, a mulher era vista pelos maridos como reprodutora feminina”.
Mas vamos em frente. São tantas as páginas de mulheres realmente gordas, jovens, bem maquiadas e afirmativas, que o principal objetivo psicológico de “Beleza em Curvas” acaba por ser alcançado: naturaliza-se um pouco a obesidade e reforça-se a sensação de como também é estranho o padrão da anorexia.
Uma vez posta em funcionamento, a lógica “revisteira” já não consegue parar: tudo pode ser entendido da ótica obesa. De Rubens a Botero, a pintura dará assunto para muitas edições. De Preta Gil a Marilyn Monroe, sempre se pode destacar alguma celebridade menos obcecada com a balança.
Apesar disso, há limites para essa “ação afirmativa”, ou melhor, “autoafirmativa”. Um assunto não pode deixar de ser tabu nas páginas de “Beleza em Curvas”.
Trata-se da comida. A única reportagem sobre o tema insiste na importância da alimentação saudável: cenouras, tomates, grãos de soja. A mulher gorda e bem resolvida parece ter, aqui, a curiosa característica de não se interessar por chocolate ou marzipã.
É dinâmica, esportiva, sensual. Alimenta-se com moderação, veste-se bem, não tem complexos.
Ou seja, é uma mulher magra -só que com mais peso. A contradição vem à tona num só momento da revista: uma reportagem sobre cirurgias de redução do estômago. A afirmação da gordura convive com a sua negação.
O “padrão anoréxico” pode ser criticado. Mas há outra ditadura, na verdade, a ser combatida -e uma revista para gordas não difere de qualquer outra revista nesse aspecto. Trata-se da ideia de que, por uma espécie de auto-hipnose regada a muito consumo, você pode ser feliz sendo como é.
“Ser como você é”, nessa linguagem, equivale a ter um lugar definido no mercado consumidor. Sua identidade se afirma pelo que você consome – e assim se criam, em última análise, obesos de todos os tipos: os de comida e os de cosméticos, os de aparelhos eletrônicos e os de livros, os de buldogues e os de aparas de metal.

Folha de S, Paulo, Ilustrada, quarta-feira, 4 de agosto de 2010, p. E14.

SALVAR / IMPRIMIR: Gordura para todos – Marcelo Coelho

Jornais para jovens são sucesso na França

VAGUINALDO MARINHEIRO
DE LONDRES

Títulos para pessoas de 6 a 18 anos mantêm circulação, apostando em temas como ecologia e entretenimento

Jornais para jovens não são vendidos em banca, e a assinatura de segunda a sábado custa cerca de R$ 20 por mês

Uma editora na França tem conseguido provar que pode estar bem errada a máxima de que crianças e adolescentes não gostam de ler notícias em jornal impresso.
Com três títulos voltados para pessoas de 6 a 18 anos, a La Play Bac não enfrenta crise. Enquanto os jornalões franceses perdem leitores, ela mantém 150 mil assinantes em todo o país. Número que permanece estável há cinco anos.
Como comparação, é metade do que vende o “Monde” hoje. Mas o “Monde” perdeu cerca de 20% da circulação nos últimos cinco anos.
Qual o segredo? “Fazemos jornais que não são chatos. Que levam às crianças e aos adolescentes o que eles querem ler e com uma apresentação colorida e atraente”, afirma François Dufour, 42, um dos donos da editora e editor-chefe dos jornais.
“Le Petit Quotidien” (pequeno diário), “Mon Quotidien” (meu diário) e “L’actu” (últimas notícias) são jornais compactos (quatro páginas o primeiro, oito os outros dois), com gráficos coloridos, fotos grandes e textos pequenos.
No cardápio de assuntos, muita ecologia, curiosidades históricas, entretenimento e atualidades.
Na última quinta-feira, o “Le Petit Quotidien”, voltado para crianças de até dez anos, trazia na capa a história de um animal que se pensava extinto e que foi fotografado no Sri Lanka. Dentro, uma arte multicolorida com tudo sobre o bicho.
No “Mon Quotidien”, para crianças e adolescentes entre 10 e 14 anos, o assunto principal era o projeto de uma agência britânica para criar um hotel de luxo nas alturas, dentro de um dirigível. Na página dois, uma arte com tudo sobre os dirigíveis.
“L’actu”, cujo público-alvo tem de 14 a 18 anos, falava não só de ganhadores de loterias, mas também do vazamento de documentos sobre a guerra no Afeganistão. Na contracapa, uma entrevista com a atriz Cameron Diaz.
Dufour afirma que são os próprios jovens que escolhem os assuntos.
Todos os dias são levados à Redação dois meninos e duas meninas que funcionam como redatores-chefes convidados. Os jornalistas propõem as pautas, eles decidem o que será publicado.
São também os leitores que escrevem as críticas de jogos e livros.

INÍCIO
A história dos três jornais começa em 1995. Dufour e dois amigos pensaram que seria um bom negócio fazer jornais que fossem vistos pelos pais como parte do processo educativo dos filhos.
Na época, eles já eram donos de uma editora de livros e jogos infantojuvenis.
Os jornais não são vendidos em banca, é preciso ser assinante para recebê-los em casa, de segunda a sábado.
A assinatura custa 9 por mês, pouco mais de R$ 20.
Durante todo o mês de setembro, início do ano letivo na França, são distribuídos jornais nas escolas do país.

Folha de S. Paulo, Mercado, terça-feira, 3 de agosto de 2010, p. B10.

SALVAR / IMPRIMIR: Jornais para jovens são sucesso na França – Vaguinaldo Marinheiro

Lição de jornalismo

FERNANDO DE BARROS E SILVA

SÃO PAULO - Um dos bons capítulos da imprensa brasileira dos últimos anos foi escrito pelos perfis publicados na revista “piauí”. “Vultos da República”, lançado agora pela Companhia das Letras, reúne nove deles, dedicados a personagens do mundo político. Estão lá os presidenciáveis: Dilma Rousseff, em dois textos de Luiz Maklouf Carvalho; José Serra (“Na hora da decisão”) e Marina Silva (“A verde”), retratados por Daniela Pinheiro.
“O consultor” José Dirceu, o ex-ministro Marcio Thomas Bastos e Sérgio Rosa, ex-presidente da Previ, são figuras de destaque, das luzes e das sombras, verdadeiros vultos da era Lula. O perfil de Francenildo dos Santos Costa, “o caseiro” cujo sigilo bancário foi violado pelo governo, é especial. Todo “companheiro” petista deveria lê-lo na cama, antes de dormir.
Mas o grande momento do livro é o texto de abertura, “O andarilho”, perfil de FHC assinado por João Moreira Salles, uma obra-prima do jornalismo. No posfácio, Humberto Werneck destaca, com razão, que o autor procede como havia feito em “Entreatos”, documentário sobre a campanha de Lula em 2002: gruda no personagem e o acompanha, buscando interferir o mínimo possível naquilo que ouve e vê (apesar da consciência de que sua presença faz parte da cena e a altera).
FHC concedeu intimidades ao interlocutor, um Moreira Salles, provavelmente sem esperar que ele ali fosse antes um João jornalista. O resultado, muito humano, fisga o âmago do personagem.
“O objeto fala, o narrador pode se calar”, escreveu o próprio Moreira Salles no posfácio à edição brasileira do livro de perfis do editor da “New Yorker”, David Remnick. Ali, ele aponta que a revista criou e cultiva uma espécie de “retórica das coisas, de acordo com a qual o personagem se revela não só pelo que diz, mas também pelo que o cerca”. O que não deixa de ecoar a convicção de Flaubert: “Para que uma coisa seja interessante, basta olhá-la durante muito tempo”.

Folha de S. Paulo, Opinião, segunda-feira, 2 de agosto de 2010, p. A2.

SALVAR / IMPRIMIR: Lição de jornalismo – Fernando de Barros e Silva

Vamos falar português

por NIZAN GUANAES

A língua portuguesa me protege de qualquer sentimento colonizado de inferioridade

GRAÇA MACHEL é viúva de Samora Machel (presidente de Moçambique, falecido num estranho desastre de avião), mãe de Malenga e Josina Machel, meus amigos, e mulher de Nelson Mandela. Graça comanda uma das mais importantes e consequentes fundações do mundo, a Fundação para o Desenvolvimento da Comunidade, focada no desenvolvimento da criança e da mulher.
Na condição de presidente da Associação de Empreendedores Amigos da Unesco, fui visitá-la em sua casa em Johanesburgo. Graça gritou em alto e bom português: entrem, entrem. Entramos, Donata Meirel- les, minha mulher, e eu. E eis que, para absoluta surpresa, lá estava ele, Nelson Mandela, tomando sozinho o sol da tarde e lendo o seu jornal de esportes.
Mandela foi submetido a uma lastimável sessão de fotos, mas felizmente Graça Machel chegou para socorrê-lo. Enchendo a sala com sua energia e dizendo com toda a graça que vem com seu nome: vamos falar português.
No meu último artigo para a Folha, dizia que a arquitetura e o design são fundamentais para firmar o Brasil de 2014 e de 2016 como algo além de um mercado emergente, como uma cultura emergente.
Sou do país de Machado de Assis, de Manuel Bandeira, falo a língua de Fernando Pessoa, de José Saramago, de Mia Couto, e ela, a língua portuguesa, me protege de qualquer sentimento colonizado de inferioridade. A poesia brasileira me redimiu de jamais me sentir menor. Durante anos permitimos nos fazerem acreditar que falávamos uma espécie de código secreto, inferior e pobre. Tanto que nossa maneira de desqualificar as pessoas era dizer: ele só fala português.
É verdade que tudo na vida tem seu tempo sob o sol. Durante anos, o Brasil penou com seus números. Mas hoje, que os números da economia são bons, temos tempo, foco e motivação para cuidar das palavras. Agora que o Brasil encontrou seu desenho político, podemos, devemos, precisamos dar atenção ao que não era imediato e hoje ficou premente: nossa cultura, nossa forma de ser, nossa língua.
Como disse Graça Machel: vamos falar português. Temos zilhões de libaneses, de italianos, de japoneses, de coreanos, de alemães e de pessoas de outras nacionalidades que vieram morar no Brasil. Eles foram alunos do português, mas podem agora ser professores. E podem, se devidamente mobilizados, espalhar nossa língua pelo mundo.
Não somos os únicos embaixadores. Emergem como o Brasil as nações portuguesas da África. Angola e Moçambique devem crescer entre 6% e 7% neste ano, como o Brasil. E está provado: a força da língua está ligada à força da economia.
Vale, Petrobras, Embraer, Seara e outras novas e velhas multinacionais brasileiras exibem cada vez mais globalmente nossas marcas e, com elas, nosso design, nosso branding, nossa língua. O português já é, sem nenhum esforço organizado, a nona língua mais falada no mundo.
Imagine o que podemos, de forma articulada, fazer com ele. Os EUA, o principal mercado do mundo, tem uma forte comunidade hispânica. Quem fala espanhol pode facilmente falar português. Os argentinos e outros vizinhos já o fazem, por necessidade. O francês e o italiano são nossos primos. Amore, l’amour, amor são semelhantes. Temos uma plataforma genética e linguística que nos permite sonhar que esse sonho não é um sonho.
Esse sonho não é uma viagem na maionese. É uma ação econômica, industrial, diplomática, política, desportiva, militar. É impossível pensar a Inglaterra sem o inglês e a França sem o francês. Ou a Espanha sem o espanhol.
A verdade é que a única fronteira que sobrou foi a língua. Nós somos brasileiros, não é de nossa natureza colonizar ninguém. Mas, em vez de subjugá-los com nossa língua, podemos iluminá-los. E quem sabe o mundo compreenda o inteiro significado da palavra tolerância, uma palavra tão nossa.
O lindo significado da palavra saudade, palavra que só a língua portuguesa tem. E que me remete a Graça Machel, a Mia Couto, a Jorge Amado, a Caetano Veloso, a Gilberto Gil, a Roberto Carlos. Pessoas que, com talento, graça e absoluta maestria da língua portuguesa, fazem o mundo sentir saudade de nós.

NIZAN GUANAES, publicitário e presidente do Grupo ABC, escreve às terças, a cada 15 dias, nesta coluna.

Folha de S. Paulo, Mercado, terça-feira, 27 de julho de 2010, p. B12.

SALVAR / IMPRIMIR: Vamos falar português – Nizan Guanaes