Arquivos da categoria: Resenhas

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A máquina-homem e a máquina que o homem faz

Exposições em São Paulo fazem pensar sobre a busca do homem por inspirar suas ações nos feitos da Natureza

A máquina-homem; a máquina que o homem faz: ambas adquirem status de arte em duas exposições diferentes em São Paulo. Ver as duas no mesmo dia é refletir sobre a primordial, eterna e constante necessidade do homem de se conhecer e de se reinventar.

Em Corpos – A Exposição, em cartaz até setembro de 2010 na Oca do Parque Ibirapuera, 20 corpos e 250 órgãos reais, dispostos como em um museu, dão ao visitante a clara noção de quão engenhosa é a “máquina” humana.

Os corpos, desidratados e preservados com silicone, são expostos em poses atléticas com cortes estratégicos, que deixam entrever ossos, músculos, órgãos, nervos, filamentos, cartilagens e vasos sanguíneos.

Os órgãos, à mostra em vitrines horizontais e verticais, revelam particularidades de diversos componentes vitais do organismo. Como exemplo, não há quem não se impressione com o aspecto do pulmão de um fumante em comparação com um pulmão saudável.

Há também uma seção, em cuja entrada alerta-se para a natureza impactante das “obras” expostas, na qual é possível ver fetos em diferentes estágios de formação. Nada talvez seja mais admirável do que visualizar a constituição dos ossos em criaturas com ainda poucas semanas de gestação.

Já em Emoção Art.ficial 5.0 Autonomia Cibernética  – Bienal Internacional de Arte e Tecnologia, em cartaz no instituto Itaú Cultural até 5 de setembro, é a máquina produzida pelo homem que toma conta do cenário e impressiona pela capacidade inventiva do ser humano. São onze obras produzidas a partir de artefatos tecnológicos de últimas gerações, que atuam com independência, detectam a presença dos expectadores e interagem com eles.

Um zoológico de robôs que se locomovem à energia de lâmpadas; uma plantação artificial que balança sob a influência do vento externo ao edifício; máquinas que se movimentam de forma histérica ante qualquer presença; silhuetas humanas escaneadas dos corpos dos visitantes que dançam no espaço virtual; um caracol metálico que reage aos diferentes estados emocionais dos seres humanos; amoreiras naturais que vibram ao captar os ruídos da poluição sonora; criaturas virtuais que simulam os processos evolutivos da teoria darwiniana; uma projeção robótica que responde em inglês às perguntas das pessoas; sensores que se comunicam entre si, acendem e apagam e gorjeiam como seres vivos em razão da presença dos expectadores; um robô que desenha retratos humanos a partir da observação.

Talvez o mais impressionante em Emoção Art.ficial seja uma série de robôs que se movem verticalmente ao longo de colunas, deixando rastros representativos de disparos elétricos de neurônios de ratos cultivados em um recipiente de vidro nos Estados Unidos, que repondem de acordo com a presença dos que caminham pela exposição em São Paulo.

Tudo isso aguarda o visitante no Itaú Cultural e instiga o raciocínio daqueles que, a despeito de estarem mais do que acostumados com avanços tecnológicos, se predispõem a elucubrar sobre os limites da criação humana. Ante a máquina perfeita nos dada pelo Criador, dissecada e desvendada como na exposição da Oca, o que pode a inteligência do homem?

CORPOS – A Exposição
OCA – Parque Ibirapuera
Site oficial: http://www.corpos-sp.com.br/corpos.html

Emoção Art.ficial: Bienal Internacional de Arte e Tecnologia
Instituto Itaú Cultural
Site oficial: http://www.emocaoartficial.org.br/

A falta que nos move

CINEMA

A falta que nos move
Brasil, 2007. Direção Christiane Jatahy. 95 minutos.
Roteiro: Lulu Silvia Telles e Christiane Jatahy.
Fotografia: Walter Carvalho.
Montagem: Sérgio Mekler.
Elenco: Cristina Amadeo, Daniela Fortes, Pedro Brício, Kiko Mascarenhas, Marina Vianna.
Produtor: Flávio Ramos Tambellini.

“Somos a geração que cresceu no vácuo”, diz Christiane Jatahy, diretora de “A falta que nos move”, presente na 33ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

A frase, enunciada durante bate-papo com a plateia, após a exibição do filme no Cine Sesc, domingo 25 de outubro, refere-se à experiência de vida não só da própria cineasta mas também das personagens desse longa de ficção, apresentado em forma de reality show.

O vácuo a que Christiane se refere é aquele deixado na história por uma juventude que se tornou adulta na década de 1980, quando o país ensaiava os primeiros passos rumo à redemocratização política. “Apesar de termos ido às ruas pelo movimento das Diretas Já, somos fruto da ignorância. Fomos criança no tempo da ditadura militar, sem que soubéssemos o que isso significava”, completa a diretora.

A consequência para o desenvolvimento da subjetividade dos indivíduos dessa geração é uma espécie de vazio existencial, que ideologia alguma pode preencher. Até mesmo no campo das relações afetivas, as personagens de “A falta que nos move” parecem perdidas e hesitantes entre a liberdade sexual ostentada pelas gerações anteriores e a retomada de um puritanismo reacionário.

Quanto à linguagem do filme, Christiane esclarece que sua intenção foi a de questionar sobre as causas que levam o público hoje em dia a prestar tanta atenção nos reality shows. Uma das teorias da cineasta a respeito do assunto é a de que as pessoas, quando colocadas em situações sociais de confinamento, tendem a reproduzir o padrão de comportamento aprendido no meio em que se desenvolveram. O resultado seria a identificação do expectador.

Em “A falta que nos move”, cinco atores participam de uma experiência cinematográfica inusitada. São colocados no interior de uma casa como eles próprios e como personagens, ao mesmo tempo. Mediante uma série de regras previamente impostas pela diretora, eles bebem, fumam e preparam um jantar de verdade, enquanto esperam por uma sexta pessoa que não sabem quem é, quando chegará ou mesmo se virá. Entre as condições, uma é fundamental: ninguém pode jantar enquanto o visitante não aparecer.

Nesse jogo de convivências, não fica óbvio para o público o que é real e o que é ficção; o que é representado rigorosamente segundo um roteiro preestabelecido e o que é improvisado. Na linha do desconstrutivismo narrativo, os atores-personagens volta e meia referem-se às técnicas de produção do filme. Além disso, em algumas poucas situações, são advertidos sobre os rumos dos acontecimentos por meio de torpedos enviados pela diretora para seus celulares. Cria-se, assim, uma situação limite, em que ânimos exacerbam-se e carências humanas vêm à tona.

“A falta que nos move” é a transposição para o cinema da peça-performance apresentada pela Cia Vértice de Teatro, do Rio de Janeiro, em longa temporada. Concorrente da 33ª Mostra Internacional de São Paulo, o filme prende atenção do expectador, especialmente pelo crescente clima de emoção e dramaticidade que transmite.

Texto originalmente publicado no site da revista Zás:
http://www.revistazas.com.br/

A mulher do lado

CINEMA

A mulher do lado

Título Original: La Femme d’à Côte
País de Origem:
França
Ano: 1981
Duração: 106 minutos
Diretor: François Truffaut
Elenco: Fanny Ardant, Gerard Depardieu, Henri Garcin, Michèle Baumgart

Fanny Ardant, a estrela de “A Mulher do Lado” (La Femme d´à Côté), já havia aparecido em alguns programas de televisão, quando Francois Truffaut se apaixonou por ela e a lançou para o mundo do cinema, em 1981. Penúltimo trabalho do diretor, o filme aborda a paixão e o desejo levados às últimas consequências. A trama é simples. Na pequena cidade de Grenoble, sudeste da França, Bernard Coudray (Gérard Depardieu) é casado com a jovem e bonita Arlette (Michèlle Baumgartner), com quem tem um filho, Thomas (Olivier Becquaert), e uma vida feliz. Até que um dia, na casa ao lado da família, vem morar Mathilde (Fanny Ardant), com quem Bernard tinha tido um caso, e que estava casada agora com Philippe Bauchard (Henri Garcin).

A convivência entre os casais torna-se inevitável. Bernard e Mathilde tentam fingir que não se conhecem. Mas a paixão renasce entre eles, sem que Arlette e Philippe percebessem de início. Os ex-amantes passam a se reencontrar, escondidos. E o que parecia ser um simples ajuste de contas do passado toma proporções não imaginadas. Bernard perde o controle em meio a uma festa. O caso torna-se público e repercute de modo inesperado.

Mas não é no enredo que está a melhor qualidade do filme, e sim no modo como François Truffaut o desenvolve. A história é narrada pela presidente do clube de tênis da cidade (Véronique Silver). Ela mesma marcada por uma paixão do passado. Esse é o ponto de partida para o diretor conduzir a trama de maneira arrebatadora. Apesar da tensão que envolve as personagens, elas se comportam com leveza. Pelo menos socialmente. Na intimidade, deixam a atração aflorar. Fanny Ardant e Gèrard Depardieu, jovens, atraentes, bonitos e elegantes, esbanjam talento e sensualidade. “A Mulher do Lado” marcava o início de brilhante carreira cinematográfica para os dois.

Depois desse, François Truffaut fez apenas um filme: “De Repente, Num Domingo (Vivement Dimanche). Morreu em 1984, vítima de um tumor cerebral.

Um dos pais da Nouvelle Vague

François Truffaut é considerado um dos maiores diretores de cinema do século 20. É um dos fundadores do movimento Nouvelle Vague. Nas mais de duas dezenas de filmes, várias das quais produziu, roteirizou e dirigiu, o cineasta retrata a paixão, as mulheres e a infância. Conquistou crítica e plateias com produções como “Os Incompreendidos”, “Uma Mulher para Dois”, “Fahrenheit 451”, “A História de Adele H.”, “A Noite Americana” – Oscar de melhor filme estrangeiro em 1973 –, entre outras.

Truffaut ficou famoso no início dos anos 1950, especialmente pelas críticas contundentes que publicava na revista “Cahiers du cinema”, contra o cinema convencional e comercial. Motivos de várias polêmicas entre o meio cinematográfico foi também a divulgação da “Politique des auteurs” (teoria autoral), segundo a qual o crítico defendia a realização de um cinema de autor, com produção intimista de baixo custo.

A mesma paixão revelada nos artigos aparecerá ainda no cinema e na vida do diretor, ambos intimamente relacionados. Desde o primeiro grande sucesso com “Os incompreendidos”, François Truffaut havia criado Antoine Doinel, personagem que surge pela primeira vez com 14 anos de idade, e aparecerá em vários outros filmes, como alter-ego do cineasta, sempre interpretado por Jean-Pierre Leaud.

Ao casar com Madeleine Morgenstern, filha de um rico distribuidor, o diretor conseguiu independência financeira e artística. O casamento, no entanto, não duraria muito. Depois de um rápido caso com uma garota de 17 anos, Truffaut assumiu publicamente a relação amorosa com a atriz Jeanne Moreau, então casada com o famoso estilista Pierre Cardin. A última mulher do cineasta foi Fanny Ardant, atriz homenageada da 33ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em 2009.

Assista a documentário sobre François Truffaut e os 50 anos da Nouvelle Vague

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Texto originalmente publicado no site da revista Zás:

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“Matisse hoje”: conservadorismo ou vanguarda?

Como parte das iniciativas do Ano da França no Brasil, a Pinacoteca do Estado de São Paulo realizou, de setembro a novembro de 2009, a exposição “Matisse Hoje”. Foi a primeira retrospectiva no país das obras do famoso modernista, que se contrapôs às rupturas radicais ocorridas na pintura do século 20.

Foram expostas cerca de 80 obras de Henri Matisse, cujo trabalho já foi considerado conservador por alguns críticos. O fato é que o pintor concebia a arte como um balsamo relaxante para as atribulações do homem moderno. Seus quadros buscam transmitir a sensação de harmonia e tranquilidade, tão importante para aliviar o estresse do caos urbano. Nesse sentido, o trabalho do artista continua sendo fonte de inspiração para pintores contemporâneos em várias partes do mundo.

A complexidade das formas simples; a ousadia das cores fortes

Na história da arte, técnicas, escolas e estilos alternam-se de modo a compor um painel evolutivo das formas de expressão do homem em diferentes épocas. A cada geração, surgem novos conceitos, geralmente construídos a partir da negação dos modelos vigentes em um momento imediatamente anterior.  Novos artistas tendem a julgar ultrapassados os trabalhos de seus antecessores. É comum referir-se a essas rupturas como movimentos revolucionários.

Uma dessas transformações ocorreu na pintura entre o final do século 19 e início do século 20. Naquela época, na França, um grupo de jovens reunidos em torno de Henri Matisse fez surgir o fauvismo, expressão derivada do termo “fauve” (fera selvagem). Atraídos pela afinidade com relação aos meios expressivos utilizados, os fauvistas rejeitaram o domínio da forma, imposto pelos acadêmicos, e também o conceito de luminosidade, que norteava os impressionistas. Buscaram referências em pintores ainda mais antigos, como Seurat, Cézanne, Van Gogh e Gauguin.

Com Matisse, a violência das cores e a composição instintiva do quadro passavam a ser especialmente valorizadas para exprimir uma felicidade existencial perfeita e sem culpa. Sob esse aspecto, a obra do pintor contrasta com a produção dos demais modernistas contemporâneos e posteriores a ele. Enquanto alguns artistas buscavam inovar a partir da desconstrução das formas tradicionais ou da então inusitada provocação conceitual, Matisse criava uma atmosfera idealizada de bem-estar e conforto, por meio de padrões assumidamente decorativos.

Matisse aspirava superar o conflito entre desenho e cor. Em suas telas, as cores se complementam de modo a causar sensações de alegria, por meio da representação de elementos presentes no cotidiano das pessoas: flores, jardins, paisagens, mulheres, estampas de tecidos, padrões de papel de parede, peças de mobília, gradis de ferro retorcido em arabescos orientais, entre outros objetos. Além disso, o artista buscava expressar a complexidade de forma simples, como se pode perceber no gosto que tinha pelo tema das janelas. São elas que o ajudam a criar, de maneira singela, efeitos de unidade entre o espaço interior e o exterior, entre o dentro e o fora.

Henri Matisse (1869-1954) nasceu em Cateau-Cambrésis, França. Pertencia a uma modesta família burguesa. Iniciou-se na pintura por acaso, quando, convalescente de uma doença, ganhou de sua mãe uma caixa de tintas. Ficou fascinado. Em 1891, mudou-se para Paris e matriculou-se na Academia Julian de artes. Em pouco tempo na capital, já frequentava o ateliê de Gustave Moreau, considerado o mais importante dos mestres da pintura da época.

Texto originalmente publicado no site da revista Zás:
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Louis Garrel. A imagem do novo homem

No Ano da França no Brasil, vale falar daquele que é o mais badalado ator do cinema francês na atualidade. Louis Garrel, pelo típico físico, pelas personagens que interpreta e pelas declarações que faz, incorpora em si a imagem e o estilo do homem contemporâneo

Ele é o bonito com algo de feio. O masculino com um quê de feminino. O educado e gentil, mas distante e enigmático. O elegante e refinado que ostenta traços de desleixo e desalinho. Foi com esse jogo de ambiguidades que Louis Garrel, de apenas 25 anos, conquistou cinéfilos de vários cantos do mundo e tornou-se o ator do momento em seu país.

Filho do cineasta Philippe Garrel, Louis estreou nas telas ainda criança, em 1989, no filme Les Baisers de Secours, dirigido pelo pai. Não parou mais. Em 2003, recebeu elogios da crítica e do público pela atuação em Os Sonhadores, de Bernardo Bertolucci, no qual interpretava um jovem incestuoso que, juntamente com a irmã, instiga e desafia a sexualidade de um hóspede americano, em pleno Maio de 68 em Paris. Cenas de nudez e sexo chamaram atenção da mídia.

A seguir, em 2004, veio Minha Mãe, de Christophe Honoré, em que Garrel aparece na pele do adolescente Pierre, atraído pela própria mãe. O enredo desconcertante oferecia o pretexto exato para que corpo do ator fosse explorado, em tomadas de forte apelo erótico. Não faltava nada para a imprensa fazer de Louis símbolo sexual.

A partir de então, quase sempre dirigido pelo próprio pai ou por Honoré, Garrel passa a interpretar tipos sedutores, mas que também se deixam seduzir. Foi assim em Amantes Constantes (2005), no qual Louis vive François, jovem envolvido em intensa paixão, novamente vivenciada a partir dos movimentos de Maio de 68. Foi assim no filme Em Paris (2006), em que encarna o aparentemente descompromissado Jonathan. Já em Canções de Amor (2007), A Fronteira da Alvorada e A Bela Junie (ambos de 2008), é o amor que se vinga e prega peças surpreendentes na personagem.

As características das tramas renderam, nos círculos especializados, comparações dos papéis interpretados por Louis Garrel com Antoine Doinel, personagem criado por François Truffaut que, depois da estreia ainda criança, torna-se adulto na sequência de longas do diretor. Sempre interpretado por Jean-Pierre Léaud, Doinel cresce em constante busca de novas paixões. A comparação com a já legendária criatura não incomoda Garrel. Ao contrário. “Se puder dar às pessoas a gana de viver a vida como uma aventura que Doinel me deu, ficarei feliz”, diz ele em entrevista à Folha de S. Paulo (5/12/08).

O ator também não se importa com o modo sensual como vem sendo exposto nos filmes em que atua. Na mesma entrevista à Folha, declara: “Tenho uma relação particular com o cinema: gosto de ser erotizado por um filme. Não tenho amarras artísticas. Fico feliz em vir participar dessa erotização. É estimulante ser excitado por um filme, pelos objetos de desejo de atrizes e atores”.

Nouvelle vague revisitada

Mas não está apenas na sensualidade a causa do sucesso de Louis Garrel. Ao trabalhar na maior parte das vezes com Philippe Garrel e Christophe Honoré, o jovem ator teve a oportunidade de participar de filmes que agradam parcela significativa de público por fazerem referências a obras de cineastas da nouvelle vague (nova onda) francesa, tais como Jean-Luc Godard, Jean Renoir, Eric Rohmer, o já citado François Truffaut, entre outros.

A nouvelle vague foi um movimento de jovens diretores que se rebelaram contra as regras do cinema comercial. Entre as principais características dessa nova forma de filmar estavam o amoralismo, presente especialmente nos diálogos, e a montagem narrativa, que foge da linearidade. Os princípios do grupo ficaram conhecidos pelos textos escritos pelos próprios realizadores e publicados na revista Cahiers du Cinéma.

A retomada da linguagem cinematográfica dos anos 1960 encontrou em Louis Garrel o interprete ideal. O ator, por sua vez, soube incorporar em si a imagem do novo homem que surge neste terceiro milênio, para o qual os antigos preceitos machistas estão definitivamente soterrados. Não é à-toa que seu estilo de vestir vem inspirando estilistas de vários países, inclusive do Brasil.

Antenado, culto e talentoso, Garrel canta, mantém uma companhia de teatro, a D´ores e Déjà, e estreou na direção de curtas-metragens com o filme Mes Copains (meus companheiros). Na vida pessoal, também não se pode dizer que Louis tenha tido menos sucesso. Namora Valeria Bruni Tedeschi, a charmosa atriz, roteirista e diretora do filme Atrizes (2007), do qual ele participa. Apenas por curiosidade, vale lembrar que Valéria é irmã de Carla Bruni, atual primeira dama da França.

Texto originalmente publicado na revista eletrônica Zás, edição o1, out./nov.2009, pp. 56-60:
http://issuu.com/revistazas/docs/revistazasedicaoum_outubro2009_baixa

Basquiat, com ele o grafite alcançou o status de arte

Afro-descendente, filho de pai portorriquenho e mãe caribenha, Jean-Michel Basquiat largou a vida confortável de classe média alta, para viver nas ruas de Nova York, desafiar o racismo dos brancos norte-americanos e se tornar um dos mais importantes artistas plásticos do século XX

O grafite está em alta. De arte de rua, saltou para as galerias e, destas, chegou aos museus. Considerada por alguns como vanguardista, essa forma de manifestação é tão antiga quanto a idade da pedra. As pinturas rupestres feitas nas cavernas pelos homens primitivos nada mais são do que exemplos de grafites, que simbolizam o modo de vida da época.

Por utilizar o espaço urbano como suporte, o grafite é muitas vezes confundido com pichação, embora seja bem diferente desta. A pichação tem como base a escrita, dá destaque à letra, à palavra. Já o grafite busca referências nas artes plásticas. Trabalha com a forma, o volume, a perspectiva, a cor, entre outros recursos.

A prática de grafitar muros e paredes com inscrições de teor poético ou político ganhou impulso em maio de 1968, na cidade de Paris, a partir de onde explodiram no Ocidente os movimentos de contracultura. Inconformados com os rumos do capitalismo, jovens de vários cantos do planeta, munidos de tinta spray, foram às ruas expressar sua insatisfação.

De lá para cá, grafites de vários tipos e estilos eclodiram nas vias públicas como voz eloquente contra os privilégios das minorias elitistas, dominantes nos mais diversos setores da sociedade. Associados a diferentes movimentos e tribos urbanas, como o hip-hop, o grafite por muito tempo foi interpretado como transgressão, até se transformar em fenômeno compreendido e incorporado pelo mainstream.

Assim também ocorreu por aqui. Tanto é que, nas principais cidades brasileiras, o grafite faz parte da paisagem e já foi exposto em muitos museus. Nos grandes centros urbanos do país, convive-se com pinturas de artistas de renome internacional. OsGemeos, Nunca, Nina, Finok e Zefix são alguns dos mais famosos, com trabalhos em vários lugares do mundo. Mas se o grafite despontou em meio à cultura marginalizada e atingiu o status de arte, deve isso em grande parte à figura de Jean-Michel Basquiat.

Um dos pioneiros da chamada street art e, certamente, o mais célebre grafiteiro de todos os tempos, Basquiat tornou-se lenda ao passar feito meteoro pelo cenário artístico de Nova York e revolucionar o modo de ver a pintura nos Estados Unidos da América. Apadrinhado por Andy Warhol, pai da pop art, com quem compartilhou amizade e até mesmo a produção de vários trabalhos, Basquiat começou a pintar telas, e, de mero pichador, passou a ser considerado representante privilegiado de uma escola chamada neoexpressionista.

A partir de então, os trabalhos do artista receberam, por parte da crítica especializada, o rótulo de “primitivismo intelectualizado” e, em apenas três anos, de 1982 a 1985, conquistaram marchands, compradores e ganharam espaço em importantes galerias e museus dos Estados Unidos, Canadá, Holanda, Alemanha e Japão.

Tragédia, rebeldia e genialidade

Tanto a vida quanto a obra de Jean-Michel Basquiat foram marcadas por polêmicas, tragédias, atos de rebeldia e de genialidade. Ainda na infância, desenhava caricaturas e reproduzia desenhos animados dos programas de televisão. O passatempo favorito desse afro-descendente crescido no Brooklyn era freqüentar o MOMA – Museu de Arte Moderna, em Manhattan.

De origem caribenha, Jean-Michel nasceu em família de classe média alta. Era o mais velho dos três filhos de Gerard Jean-Baptiste Basquiat, ex-ministro do interior do Haiti que emigrou para os Estados Unidos, onde se tornou proprietário de grande escritório de contabilidade. A mãe, Mathilde Andrada, tinha origem portorriquenha.

Aos sete anos de idade, Basquiat sofreu um acidente que, por obra do acaso, o aproximou ainda mais da arte. Foi atropelado e submetido a uma operação no baço. Para distraí-lo durante o tempo em que ficou hospitalizado, a mãe deu a ele o clássico livro de anatomia Gray´s Anatomy. A obra não só o influenciou nas futuras pinturas que faria de corpos humanos, como na escolha do nome da banda que criaria em 1979: Gray´s, cujo repertório era baseado nos ritmos latinos de Porto Rico e do Caribe.

Apesar de ter nascido e crescido em Nova York, a cultura latina estava muito presente na formação de Basquiat, especialmente por ter vivido em Porto Rico entre os 15 e 17 anos de idade, após o divórcio dos pais. Em 1976, de volta à cidade natal, tentou, mas não conseguiu se adaptar aos estudos formais. Abandonou a escola, saiu de casa para morar com amigos, e passou a pintar camisetas, que vendia nas ruas.

Foi nessa época que, junto com o artista gráfico Al Diaz, começou a espalhar grafites nas paredes, portas, nos muros e metrôs da cidade, todos assinados com a marca SAMO, abreviatura de “same old shit” (mesma velha merda). A essas alturas, Basquiat já havia assumido sua condição de excluído, em uma sociedade até então extremamente racista, e passado a viver nas ruas.

Embora não dominasse técnicas do desenho clássico, o grafiteiro criou um estilo figurativo próprio. Suas pinturas, presentes em lugares inusitados, logo causaram forte impacto, especialmente pela rudeza e nervosismo dos gestos. O efeito de estranhamento, vigoroso e ao mesmo tempo intrigante, que emerge dos traços do artista logo chamou a atenção da imprensa.  Sua carreira estava começando. Basquiat passou a aparecer em um programa de TV a cabo e foi convidado a participar do filme Downtown 81, que relata o modo como ele buscava a sobrevivência, inserido em um contexto cultural que misturava hip-hop, new wave e o próprio grafite.

A fama trouxe dinheiro, convívio com pessoas famosas e o namoro com uma até então desconhecida cantora de nome Madonna.  Foi quando conheceu Andy Warhol, que ofereceu a ele espaço e material de trabalho, além de ajudá-lo a divulgar sua arte. Com isso, a vida de artista marginal estava definitivamente encerrada. Nas últimas intervenções nas paredes da cidade, Basquiat decretou: “SAMO is dead” (Samo morreu). O ex-grafiteiro tinha virado celebridade.

Sentimento de exclusão

Segundo Miguel Westerberg, artista plástico português radicado em São Paulo, Jean-Michel Basquiat “foi o último dos grandes artistas plástico da América do norte”. Junto com Warhol,  ele deu “ forma a uma nova linha de pensamento dentro da arte, quebrando de uma vez por todas com todos os tabus impostos até então pelos júris de salão”.

A arte de Basquiat, feita de rabiscos, escritas enigmáticas, pinceladas rápidas e nervosas, retrata personagens esqueléticos, rostos apavorados ou mascarados, prédios, carros, cenas da vida urbana, ícones negros do boxe e da música, sempre em telas grandes e cores muito fortes. O homem negro, em meio a composições caóticas, é uma constante em seus trabalhos, talvez como forma de expressar o sentimento de exclusão, que, ao que tudo indica, carregava na alma.

Mesmo no auge da fama, Basquiat apresentava comportamento excêntrico e praticava excessos de vários tipos, em resposta ao que entendia como racismo exacerbado da sociedade norte-americana.  A partir da morte do amigo e protetor Andy Warhol, em 1987, tornou-se depressivo, fato que se refletiu em suas pinturas.  A crítica especializada deixou de ser unanime com relação à qualidade da obra do artista.

Solitário e melancólico, Basquiat começou a abusar do consumo de drogas. Em agosto de 1988, morreu por overdose de heroína, antes de completar 28 anos de idade. A partir de então, obras do acervo do artista estiveram presentes nas mais importantes mostras de arte do mundo.

No Brasil, Basquiat foi homenageado com uma sala especial na 23ª Bienal de São Paulo, em 1996, e com uma retrospectiva na Pinacoteca do Estado de São Paulo, em 1998. Para quem quiser conhecer mais sobre a vida do artista, encontra-se disponível em locadora e lojas especializadas o filme Basquiat, dirigido por Julian Schnabel, com Jeffrey Wright, como Basquiat, e David Bowie, como Andy Warhol.

Obra de Basquiat no Brasil: um caso para a Interpol e o FBI

Hannibal, uma das telas mais importantes de Jean-Michel Basquiat, esteve envolvida no processo de denúncia oferecida em 2005 pelo Ministério Público Federal contra o ex-controlador do Banco Santos, Edemar Cid Ferreira, por lavagem de dinheiro, formação de quadrilha e gestão fraudulenta.  A denúncia foi aceita pelo juiz Fausto de Sanctis da 6ª Vara Criminal Federal de São Paulo (o mesmo que decretou as prisões dos envolvidos na operação Satiagraha). Com a decisão do juiz, o banco teve falência decretada e os bens do banqueiro foram apreendidos e ficaram à disposição da Justiça, como garantia para o acerto de contas.

Conhecido como grande colecionador de arte, Edemar Cid Ferreira era presidente da Fundação Bienal de São Paulo em 1996, ano da 23ª mostra do evento, que homenageou Basquiat com a exposição de parte do acervo do artista em uma sala especial. Pouco tempo depois, o ex-banqueiro fundou a Brasil Connects, entidade organizadora de megaexposições, como “Os Guerreiros de Xi´an” (2003), retrospectiva de “Picasso” (2004) e “Fashion Passion” (2004), todas na Oca, no Parque do Ibirapuera.

O acervo de arte de Cid Ferreira confiscado pela Justiça foi avaliado em R$ 200 milhões. Mas, segundo o jornalista Walter Nunes, da revista Época (28/02/2009), a coleção era muito mais rica. O ex-banqueiro é suspeito de ter driblado o bloqueio de seus bens e de ter vendido a colecionadores cerca de 30 de suas obras mais caras, entre as quais estava Hannibal, de Jean-Michel Basquiat.

Segundo informações de Denise Ballou, assessora do FBI (Federal Bureau of Investigation) a tela, avaliada em U$ 8 milhões, teria sido apreendida junto com outras obras de arte por fiscais federais americanos na cidade de Waterbury, Estado de Connecticut.

A informação de que a tela fazia parte dos bens do ex-banqueiro incluídos no “alerta vermelho” da Interpol foi transmitida em dezembro de 2007 pelo diretor da Polícia Federal, Luis Fernando Corrêa. À época, por meio de assessoria de imprensa, Cid Ferreira alegou nunca ter sido proprietário da valiosa obra.

Por que grafite?

A palavra grafite ou grafito vem do termo italiano graffiti, plural de graffito, utilizada desde o Império Romano para designar inscrições, verbais ou não-verbais, realizadas em suporte previamente não destinado para essa finalidade.

Tribos urbanas

Expressão utilizada para fazer referência a grupos de pessoas, geralmente jovens, com hábitos, valores culturais, preferência por estilos musicais e/ou ideologias políticas semelhantes. Algumas tribos contrapõem-se à ordem social vigente, enquanto outras se caracterizam por serem regidas apenas por interesses comuns.

Hip-hop

Movimento cultural iniciado nos bairros pobres de Nova York como decorrência da introdução do RAP nos Estados Unidos. O RAP, forma abreviada da expressão rhythm and poetry (ritmo e poesia), surgiu na Jamaica na década de 1960 e foi levado para os EUA no começo dos anos 1970. De lá, espalhou-se pelo mundo. Quatro elementos fazem parte da cultura hip-hop. São eles: os DJs, ligados diretamente ao rap; os MCs, que mandam mensagens pelo microfone; os B.Boys, que dançam no compasso do rap, e os graffers, que escrevem e pintam em muros e paredes das vias públicas.

Mainstream

A tradução literal para o português do termo inglês mainstream é corrente principal. De uso frequente no Brasil, a palavra é empregada para fazer menção ao pensamento e gosto comuns da maioria da população, especialmente no que se refere a produtos e serviços colocados no mercado pela chamada indústria cultural.

Andy Warhol

Artista plástico norte-americano, nascido na cidade de Pittsburgh, Pensilvânia, tornou-se famoso a partir dos anos 1960, ao utilizar motivos e conceitos da publicidade na produção de suas obras. As serigrafias de Warhol ficaram conhecidas por apresentar reproduções em série de latas das sopas Campbell, de garrafas de Coca-Cola e de rosto de pessoas conhecidas como Marilyn Monroe, Elvis Presley, Elizabeth Taylor, Che Guevara, entre outros ícones.

Pop art

Movimento artístico surgido nos anos de 1960, na Inglaterra, cujos principais expoentes recusavam a separação arte/vida, característica da chamada arte moderna. Os principais artístas e críticos entusiastas da pop art defendiam a utilização de elementos da indústria cultural e da cultura de massa como fonte de inspiração, motivação e/ou matéria prima para a construção de obra de arte.

Expressionismo

Escola de arte que marcou época entre o final do século e XIX e começo do século XX, cuja característica principal reside na interpretação subjetiva que cada artista faz da realidade. Tem semelhanças como o Realismo, mas, diferentemente desse, não idealiza a realidade, mas a apreende a partir do ponto de vista do sujeito. Nos anos de 1980, em várias partes do mundo, as artes plásticas expressam a releitura desse movimento, daí o nome neoexpressionimo.

New wave

Termo usado para descrever uma grande variedade de desenvolvimentos musicais, mais comumente associado ao movimento da música popular dos EUA, Reino Unido, Canadá e Austrália no final dos anos 1970 e início dos anos 1980, que se iniciou com a cena Punk Rock de New York. O estilo é misturado com outros gêneros, sendo o Synthpop um dos princípais, além de contar com o Pop, Punk Rock, Funk, Disco Music, Mod, Reggae, Ska e Glam Rock.

Texto originalmente publicado na revista eletrônica Zás, edição 01, out./nov.2009, pp.30-39:
http://issuu.com/revistazas/docs/revistazasedicaoum_outubro2009_baixa

É possível filosofar em português

Muito mais do que primeiro escritor em língua portuguesa a ganhar o Nobel de literatura, José Saramago, pela maneira como lê o mundo, é uma voz que merece ser ouvida no cenário da cultura e da política internacional

José Saramago você já conhece ou, pelo menos, já ouviu falar. É o primeiro, e único até agora, escritor em língua portuguesa a receber o Nobel de Literatura, no ano de 1998. Ele também ganhou o Prêmio Camões, o mais importante reconhecimento literário em nosso idioma. Além disso, na opinião de Harold Bloom, famoso crítico norte-americano, Saramago é “o mais talentoso romancista vivo nos dias de hoje”.

Toda essa aclamação talvez justifique o fato de que várias das obras do autor figurem na lista daquelas a serem lidas por quem vai prestar vestibular. Indicações à parte, Saramago é alguém que merece ser lido, escutado e até mesmo estudado. A própria biografia do escritor já é uma verdadeira lição de vida. Nascido em Portugal, numa pequena aldeia do Ribatejo, de nome Azinhaga, teve pais e avós muito pobres. Ainda com dois anos de idade foi morar em Lisboa, onde cresceu.

Sem recursos para ingressar em uma universidade, cursou escola técnica e trabalhou como serralheiro mecânico. A paixão pelos livros, no entanto, não foi deixada de lado. À noite, após o trabalho, Saramago frequentava a biblioteca municipal de Lisboa. Lá, entre uma leitura e outra, desenvolveu-se sozinho na arte de escrever. Tão aplicados foram seus estudos, que logo se tornou funcionário público, tradutor e jornalista. Em 1947, aos 25 anos de idade, já havia publicado o primeiro romance – Terra do pecado. Em seguida, dedicou-se a escrever crônicas, contos e peças de teatro.

A fama como escritor de estilo único e engajado, entretanto, só começaria a despontar a partir de 1980, com o livro Levantado do chão, no qual retrata a vida sofrida de trabalhadores rurais da região do Alentejo. Desde então, passou a produzir um romance atrás do outro, que identificam diferentes fases do modo como ele enxerga a realidade. Em O ano da morte de Ricardo Reis (1984), A jangada de pedra (1986), História do cerco de Lisboa (1989) e O Evangelho segundo Jesus Cristo (1991), Saramago lança dúvidas sobre a interpretação oficial da história.

Após esses, seus textos revelam uma nova ótica, sob a qual passa a investigar os rumos da sociedade contemporânea e o comportamento do ser humano ante as rápidas transformações das formas do viver. Nessa linha escreve Ensaio sobre a cegueira (1995), Todos os nomes (1997), A caverna (2001), O homem duplicado (2002), Ensaio sobre a lucidez (2004) e As intermitências da morte (2005).

No mais novo lançamento, A viagem do elefante (2009), Saramago conta a história da viagem de Solimão, elefante dado de presente pelo rei de Portugal D João III ao arquiduque austríaco Maximiliano II, no século XVI.  Com essa obra, o escritor parece iniciar nova fase literária, em que leveza e bom humor dão o tom da narrativa.

Estilo inovador

Os romances de José Saramago, sempre surpreendentes pelo próprio conteúdo, despertam a atenção também pelas técnicas discursivas apresentadas e pela imagem de autor que deles emerge.

Na maioria de seus textos é possível encontrar, implícita ou explicitamente, referências à história, à mitologia, às religiões, às artes plásticas, ao cinema e a várias outras formas de expressão artística. Um recurso a que o narrador de Saramago lança mão com bastante freqüência é o da utilização de clichês, ou seja, das frases prontas, dos ditos populares, muitas vezes empregados em circunstâncias completamente novas, diferentes daquelas em que aparecem no cotidiano das pessoas. Com isso, consegue trazer à tona a voz da coletividade e a lógica da consciência social, que passa a se expressar nas entrelinhas do enredo, por meio de uma linguagem figurada, na qual as metáforas aparecem em profusão.

Algumas características muito marcantes do estilo do autor – e que têm afastado de seus livros os leitores mais apegados às formas narrativas tradicionais – dizem respeito à organização da linguagem. Nos textos de Saramago são encontrados parágrafos e períodos longos, nos quais estão ausentes os sinais de pontuação, tanto aqueles que marcam pausas e finais das orações, quanto os que indicam a emoção de quem faz uso da palavra. A fala das personagens, por exemplo, é introduzida no fluxo do discurso do narrador, marcada apenas pela inicial maiúscula e, muitas vezes, sem o verbo “de dizer” indicativo de quem esteja falando.

Em entrevista à Folha de S. Paulo, em 16 de novembro de 1995, Saramago explica o modo como escreve. “No meu processo narrativo, adoto os mecanismos do discurso oral, em que também a pontuação não existe. A fala compõe-se de sons e pausas, nada mais. O leitor dos meus livros deverá ler como se estivesse a ouvir dentro da sua cabeça uma voz dizendo o que está escrito”, aconselha.

Outro procedimento bastante utilizado pelo autor diz respeito àquele a que os estudiosos de literatura chamam de “desconstrução narrativa”. O que vem a ser isso? É quando quem escreve comenta, dentro do texto, sobre o seu próprio modo de escrever. Saramago deixa claro para o leitor as opções que faz sobre o uso desta ou daquela palavra, as dificuldades que sente quanto à colocação das idéias em uma determinada ordem, como imaginou uma ou outra personagem, entre outras revelações interessantes, que denunciam o pensamento do escritor no exato instante da escrita.

Personalidade polêmica

Como se não bastasse o reconhecimento literário, o nome de José Saramago também passou a ser associado no mundo todo a temas polêmicos. Ideologicamente falando, a obra do escritor deixa entrever uma voz argumentativa que não pode deixar de ser levada em consideração. Essa voz faz pressupor que, por trás de suas narrativas, esteja alguém cético com relação aos rumos da sociedade, por um lado, mas que, por outro, também acredita na capacidade do ser humano de se reconstruir constantemente.

Há nos livros de Saramago um narrador que é, ao mesmo tempo, tenso e lírico; mordaz e terno; irônico e afável. De modo geral, alguns assuntos podem ser apontados como recorrentes na obra do autor. Entre esses, estão as relações entre identidade e alteridade, realidade e fantasia, pensamento racional e irracional ou ilógico, ciência e crença; a articulação entre o homem e a terra; a falsa legitimidade do poder do Estado; a luta de classes sociais, a religião como forma de alienação popular; os ideais progressistas contra as forças conservadoras; o papel e a condição da mulher na sociedade; a reflexão sobre a precariedade da vida humana e a eterna busca do homem por uma justificativa e por um sentido para a própria existência.

Um dos romances de Saramago que causou bastante estranhamento foi O Evangelho segundo Jesus Cristo, pelas proposições que apresenta de confronto com os dogmas da igreja católica. Também a posição radicalmente comunista do autor e algumas de suas declarações na imprensa sobre assuntos de repercussão internacional provocam muita discussão.  Entre essas, são notórias as acusações que faz contra o modo como Israel atua com relação aos palestinos. Outra opinião que causa controvérsias é a defesa que Saramago faz da integração entre Portugal e Espanha.

Seja qual for a visão que se tenha das idéias e dos livros de José Saramago, é impossível deixar de reconhecer na vida e na obra desse famoso escritor a história de força e determinação de um homem autodidata que, de serralheiro mecânico, se tornou cidadão do mundo e importante voz no cenário mundial contemporâneo. Saramago prova para todos os falantes de língua portuguesa que é possível filosofar em português.

Texto originalmente publicado na revista eletrônica Zás, edição zero, agosto e setembro de 2009, pp.66-71:
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O relógio do mundo

ALBERGARIA, Lino de.  O relógio do mundo.  Ilustrações de Rogério Borges.  16.ed., São Paulo, 64p.

Duas cidades: uma comum, uma mágica. Entre elas, uma floresta e um segredo. A cidade comum é Cravo Branco, ao Sul; a mágica, é Cucura, ao Norte. O segredo é uma mina de ouro subterrânea, escondida abaixo do leito do rio que corta a densa mata. Esse é o tópos a partir do qual Lino de Albergaria cria O relógio do mundo, narrativa em que são abordados temas como rito de iniciação, ida ao encontro do desconhecido, passagem para a idade adulta, preservação da natureza, convívio com os animais, respeito às tradições, aceitação pacífica das diferenças sociais e culturais, entre outros.

A história inicia-se quando os habitantes de Cravo Branco ficam sabendo da existência do ouro pelo “último índio”. A partir de então, dominados pela cobiça, invadem a mata à procura do rico minério. É quando a gente de Cucura decide socorrer a floresta, porque precisava dela para se manter encantada. A mata por sua vez também reage, fazendo brotar novas árvores, que, sempre maiores e com mais vigor, começam a invadir Cravo Branco.

Lá, morava Casemiro Correia, caçula de uma família de doze filhos homens, cujo pai era o Capitão. Decidido a lutar contra as forças de Cucura, o homem mandava um filho após o outro enfrentar a floresta. Mas, amedrontados, todos fugiam. Em vez de seguirem rumo Norte, partiam para o Sul. Até que chegou o dia em que só sobrou Casemiro Correia. O menino passava os dias a tratar do jardim de casa, atento para que o mato não estragasse os canteiros de cravo branco, que ele tão cuidadosamente cultivava. Essa situação, no entanto, não demora a se modificar.

Bastou que uma coruja piasse, primeiro de noite, depois de dia, para que Cornélio Correia, o Capitão, mandasse à luta o último filho, impondo ao garoto a missão de acabar com a vida do pássaro, considerado mau agourento. Intuitivamente, porém, Casemiro sabia que a coruja voaria para algum lugar misterioso, sobre o qual ele tinha muita curiosidade. Mesmo armado com a pesada espingarda que o pai o obrigara a carregar, ele não tinha a menor certeza se devia ou não matar a ave. Cheio de dúvidas e conflitos, o garoto embrenha-se na mata, sem saber que uma borboleta cor de prata, símbolo de Cucura, o seguia. Também não se dava conta, tampouco, do fato de que, desde que acordara naquele dia, vinha diminuindo de tamanho e de que havia perdido mais alguns centímetros no momento em que entrara na floresta.

Daí em diante, rumo a seu destino, o garoto irá viver várias aventuras dignas dos mais tradicionais contos maravilhosos, desde cair num poço profundo e ver-se no interior de uma gruta – na qual encontra espécies de índios guardiões d´O relógio do mundo, local sagrado onde o “ferro amadurece em ouro” – até ser recebido pelos reis “sem idade” de Cucura. Durante a jornada de três anos, Casemiro enfrenta duras provações impostas ora por animais selvagens, como os caititus, porcos-do-mato, ora pelas intempéries, como a cruviana enlouquecida, ora por seres sobrenaturais, como a Caipora. No final, vê-se transformado em adulto, pronto para retornar a Cravo Branco, casar-se com Cordélia Camarão e assumir, no lugar que era de seu já falecido pai, o comando da cidade. Sua missão será a de restabelecer o equilíbrio entre os dois mundos, perdido como conseqüência da ambição dos homens comuns.

Sobre o processo de criação da obra, diz o autor [1]:

O relógio do mundo foi minha primeira tentativa de um conto de fadas ou de uma história maravilhosa. Pesquisei em Câmara Cascudo. O livro é uma homenagem a ele, pois as personagens e lugares começam todos com a letra “C”, a inicial de Cascudo. [...] É claro que tem também influência de Vladimir Propp, Marie-Louise Von Franz e de outros autores.”

Além de estar presente no nome das personagens e dos lugares, a letra “C” aparece gravada da capa do livro mágico de Cucura, o qual contém “informações sobre tudo o que começa com aquela letra” [2]. É por meio desse livro, que se vai conhecer o significado do nome da personagem principal: Casemiro, “o instituidor, o autor da paz”.[3]

No texto, as referências ao folclore brasileiro são várias. A Caipora já citada, por exemplo, é descrita por Câmara Cascudo [4] da seguinte maneira:

“[...] Em qualquer direção, pelo interior do Brasil, o Caapora-Caipora é um pequeno indígena, escuro ágil, nu ou usando tanga, fumando cachimbo, doido pela cachaça e pelo fumo, reinando sobre todos os animais e fazendo pactos com os caçadores. [...] No Ceará, além do tipo comum, aparece com a cabeleira hirta, olhos de brasa, cavalgando o porco, caititu, e agitando um galho de japecanga.”

Essa descrição coincide com a da obra em estudo. A diferença é que Albergaria utiliza a personagem na forma característica quando a ela nominalmente se faz referência como Curupira [5], cujos pés são inversos: os calcanhares para frente, os dedos para trás.

Inspirado também na tradição folclórica é o nome de um dos quatro índios que fazem a segurança da gruta de ouro. Trata-se de Caboré, palavra que, entre outras acepções, designa um tipo de caboclo ligeiramente mais claro. “Indígenas cariris, aliados aos janduís, no Rio Grande do Norte” [6]. Há ainda no conto a presença importante da coruja, compreendida inicialmente como símbolo da morte iminente de alguém enfermo, do mesmo modo como alude à ave Câmara Cascudo[7]. Pode-se fazer referência ainda a cravo branco. A flor que dá nome à cidade onde mora a personagem principal é, no dizer do folclorista [8], tradicional dos namorados, “indispensável no código dos sinais dos namorados”.

Com relação à estrutura narrativa, o tema central abordado em O relógio do mundorito de iniciação — permite que a obra seja classificada dentro do subgênero conto maravilhoso, uma vez que segundo Machado e Pageaux [9], o tema, assim como o mito, tem função estruturante no processo constitutivo do texto literário.


[1] E-mail enviado a este pesquisador em 8 de junho de 2005.

[2] O relógio do mundo, p. 45.

[3] Ibidem, p. 45.

[4] CASCUDO, Luís da Câmara.  Dicionário do folclore brasileiro.  11.ed., São Paulo, Global, 2002,  p. 98.

[5] Idem, ibidem, p. 172.

[6] Idem, ibidem, p. 90.

[7] Idem, ibidem, p. 164.

[8] Idem, ibidem, p. 165.

[9] MACHADO, Álvaro Manuel e PAGEAUX, Daniel-Henri.  Da literatura comparada à teoria da literatura. Lisboa, Edições 70, s/d., p.116.

Aventuras de João Sem Medo

FERREIRA, José Gomes.  Aventuras de João Sem Medo: panfleto mágico em forma de aventura. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1991, 210p.

Em Aventuras de João-Sem-Medo: panfleto mágico em forma de romance, publicadas inicialmente em episódios na revista infantil O Senhor Doutor, no ano de 1933, José Gomes Ferreira conta a estória de um rapaz que vivia na pequena aldeia de Chora-Que-Logo-Bebes, vizinha à Floresta Branca, “onde os homens, perdidos dos enigmas da infância, haviam instalado uma espécie de Parque de Reserva de Entes Fantásticos” [1]. Ninguém da povoação se atrevia a penetrar na floresta, não só por causa do altíssimo muro que fora construído em redor da mata, mas também porque os habitantes do vilarejo eram criaturas desanimadas, temerosas e tristes, que só viviam a se lamentar.

A única pessoa daquele lugar que tinha temperamento alegre e destemido era justamente o João, conhecido por todos como João Sem Medo. É ele quem vai desafiar a proibição expressa de entrar no Parque, em aviso afixado no muro: “É proibida a entrada a quem não andar espantado de existir” [2]. Para o desespero de sua mãe, o rapaz, com o auxílio de plantas trepadeiras, escala o alto obstáculo e inicia longa jornada floresta adentro, durante a qual irá deparar-se com os seres mais fantásticos e enfrentar as situações mais inusitadas.

Narradas em ritmo vertiginoso, em que as ações se sucedem rapidamente, sem dar tempo de reflexão ao leitor, as aventuras vividas por João Sem Medo estão repletas de seres vegetais, minerais, animais, entre outros objetos antropomorfizados ou simplesmente biotecnológicos, como bichos mecânicos e automóveis com braços. Há, por exemplo, homem sem cabeça; seixos com dentes, que mordem os pés do rapaz; árvores de dez braços, que o arremessam umas para as outras em jogos malabares; fadas verdadeiras e fadas falsificadas; princesas; gramofones com asas; seres humanos que têm lâminas de faca no lugar dos dedos; seres cujo corpo é uma caixa de ressonância apoiada em pernas de papagaio e cuja cabeça tem a forma de toca-disco; príncipe com orelhas de burro; homens máquinas; homens que vivem em árvores e se comunicam como as aves; ídolos e gigantes monstruosos; personagens de fábulas famosas; menina de pés ocos, entre outros. Enfim, a galeria de tipos é bastante extensa. Dada as características de determinadas personagens, pode-se inferir que José Gomes Ferreira tenha sido de alguma forma influenciado pelo Manifesto Futurista, do poeta italiano Filippo Tommaso Marineti [3].

Além de estranhas criaturas, também os lugares e os ambientes descritos são os mais inusitados possíveis: lagos elásticos que aumentam quando João, a nado, tenta atingir a margem; pomares em que as frutas se transformam sucessivamente em cabeças de bonecas, bolas de ouro, criam asas e voam; deserto a partir do qual todas as direções levam ao mesmo ponto; cidade onde tudo é ao contrário, onde os aviões andam debaixo da terra e os automóveis e trens voam; palácio sem portas nem janelas, no qual se entra, mas do qual não se sai; caverna com mais de um andar, vários salões, elevador e esteira rolante, são apenas alguns deles.

Todos esses seres e espaços fantásticos, evidentemente, só poderiam ensejar situações também fantásticas, como a transformação de João em árvore, em fumaça, em fonte de água; a fuga do rapaz do palácio da morte; o diálogo com a Lua, que responde ao pensamento por meio de cartazes; a Fada dos Sonhos, que mergulha dentro da boca de João; a boca etérea ambulante, que se materializa em todos os lugares e enuncia sempre o mesmo enigma; a desintegração no ar da personagem que é a versão medrosa de João Sem Medo; o desdobrar de João em dois, para que um volte a Chora-Que-Logo-Bebes e o outro viva no mundo da imaginação mágica, e muitas mais.

Sobre a criação da obra, diz Ferreira [4], em nota final da segunda edição:

“[...] decidi inventar um herói de sabor popular que desafiasse as forças enigmáticas da Floresta Branca (branca, cor convencional da infância), desmitificasse os Gigantes, os Príncipes, as Princesas, as Fadas, etc., me permitisse criar novos mitos, tornar mágicos os objectos vulgares da vida diária e dar contorno às minhas verdades mais profundas numa linguagem de acção poética que a muitos, até a mim mesmo, só me parecia possível, quando dirigida a crianças imaginárias (que todos trazemos escondidas na nossa soberba gravidade de adultos).”

A efabulação em Aventuras de João Sem Medo, afora o fato de entreter, dadas as passagens por si só divertidas, constitui capítulo a capítulo metáfora de situações sociais identificáveis para o leitor crítico. Pode-se, portanto, perceber referências à natureza já histórica e culturalmente reconhecida como um tanto quanto nostálgica do povo português; ao modo de organização institucional e política das sociedades ocidentais; às práticas de interação social padronizadas; à utilização de formas de pensamento clichês; ao preconceito contra indivíduos que questionam as normas vigentes, seja por meio de discurso ou de atitudes; à exploração do homem pelo homem; à resistência das pessoas com relação às mudanças, entre tantas outras. As várias possibilidades de leitura, aliás, já eram previstas pelo próprio autor  [5]:

“[...] a ambiguidade excedia a trapalhada difusa habitual. Porque, além da mescla de romance popular e de panfleto mágico, muitos iriam considerá-lo uma sátira à casca de certos aspectos do ambiente pátrio, outros descobrir-lhe-iam talvez acentos menos restritos (como, por exemplo, a filosofia de que o Tédio, ou mais portuguesmente a Chatice impera, dominadora e total, na vida do século XX do nosso planeta) e todos por fim embarcariam na confusão, até certo ponto legítima, desta história parecer exclusivamente destinada a crianças (que só lhe poderão entender a superfície).”

Há de se lembrar que Aventuras de João Sem Medo veio a público pela primeira vez em 1.933 ano em que se instituía em Portugal o regime político denominado Estado Novo, sob a direção de António de Oliveira Salazar, que vigorou sem interrupções até 1.974. Semelhante em alguns aspectos aos regimes instituídos por Benito Mussolini, na Itália, e por Adolf Hitler, na Alemanha, o salazarismo, como ficou conhecido, diferia desses pela postura paternalista adotada por Salazar, que se expressava por meio de falas mansas e sem as poses bombásticas e militaristas de seus congêneres.

As principais características do Estado Novo português foram: ideologia católica; aversão ao liberalismo político; censura aos meios de comunicação; onipresença da PIDE, polícia política; projeto nacionalista e colonial; discurso e prática anticomunistas; economia controlada por cartéis constituídos à sombra do governo; forte tutela sobre o movimento sindical. Durante sua vigência, o Estado Novo sofrerá fortes abalos, impostos por movimentos políticos tanto de direita quanto de esquerda, mas acaba caindo vitimado por conspiração dirigida pelo Movimento das Forças Armadas, em 25 de abril de 1974.

Se, por um lado, durante o Estado Novo a população portuguesa adulta passou a conviver com a forte repressão e censura política às publicações periódicas e emissoras de rádio e televisão, por outro, os anos de 1930, que marcam o início do regime imposto por Salazar, são considerados época de ouro no campo da literatura para a infância e juventude naquele país. O reconhecimento da criança como consumidor de livros favoreceu também o surgimento de jornais, revistas e suplementos infantis, em que colaboraram muitos autores e artistas. Com relação ao conteúdo das obras publicadas no período, depois do teor mais pedagógico das primeiras décadas do século, “constata-se cada vez mais ficção e fantasia nos livros para a infância”  [6].

José Gomes Ferreira nasceu na cidade do Porto, em 1900, e faleceu em 1985. Formou-se em Direito, na Faculdade de Direito de Lisboa, em 1924. Foi cônsul de Portugal na Noruega, de 1925 a 1930. Atuou também como jornalista e colaborador em várias publicações, entre as quais A Ressurreição — que dirigiu e na qual trabalhou com Fernando Pessoa —, Presença, Seara Nova, Descobrimento, Gazeta Musical e Todas as Artes. Foi chefe de redação da revista cinematográfica Imagem. Pertenceu também ao grupo do Novo Cancioneiro, que revelava influências surrealistas, simbolistas e, sobretudo, neo-realistas. Sua obra reflete preocupação face aos problemas do mundo, “foi principalmente o porta-voz de um sentimento de remorso e responsabilização do intelectual por todas as brutalidades e injustiças” [7]Lírios do monte, publicado em 1918, foi sua primeira obra poética e O mundo desabitado, publicado em 1960, sua primeira obra de ficção. Recebeu, em 1961, o 1º Grande Prêmio de Poesia da Sociedade Portuguesa de Escritores e, em 1965, o Prêmio da Casa da Imprensa, pelo seu livro de reflexões e memórias A memória das palavras. Embora tenha se destacado mais como poeta, Ferreira publicou romances, contos, crônicas, ensaios e memórias. Em 1958, com Carlos de Oliveira, co-organizou a antologia Contos tradicionais portugueses.


[1] FERREIRA, José Gomes.  Aventuras de João Sem Medo: panfleto mágico em forma de romance.  Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1991, p. 11.

[2] Idem, ibidem, p. 13.

[3] O primeiro manifesto foi publicado no Le Fígaro de Paris, em 22/02/1909, e nele, o poeta italiano Filippo Tommaso Marinetti, dizendo que “o esplendor do mundo enriqueceu-se com uma nova beleza: a beleza da velocidade. Um automóvel de carreira é mais belo que a Vitória de Samotrácia”. O segundo manifesto, de 1910, resultou do encontro do poeta com os pintores Carlo Carra, Russolo, Severini, Boccioni e Giacomo Balla. Os futuristas saúdam a era moderna, aderindo entusiasticamente à máquina. Para Balla, “é mais belo um ferro elétrico que uma escultura”. Para os futuristas, os objetos não se esgotam no contorno aparente e seus aspectos se interpenetram continuamente a um só tempo, ou vários tempos num só espaço. O grupo pretendia fortalecer a sociedade italiana através de uma pregação patriótica que incluía a aceitação e exaltação da tecnologia. Fonte: FUTURISMO.  História da arte. http://www.historiadaarte.com.br/futurismo.html. Acesso em: 12 abr. 2008.

[4] Idem, ibidem, p. 200.

[5] Idem, ibidem, p. 209.

[6] BLOCKEEL, Francesca.  Literatura juvenil portuguesa contemporânea: identidade e alteridade.  Lisboa, Caminho, 2001, p. 43.

[7] SARAIVA, António José e LOPES, Oscar.  História da literatura portuguesa.  17.ed., Porto, Ed. Porto, 1996, p. 1038.