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Contexto de produção e seus elementos

Sempre que escrevemos ou falamos, isto é, produzimos um determinado texto, oral ou escrito, acionamos, até mesmo inconscientemente, determinadas representações sobre o contexto de produção desse texto, representações essas que vão influenciar muitas das características de nossos textos.

Vejamos quais são essas representações.

Em primeiro lugar, o produtor do texto (oral ou escrito) tem, no mínimo, uma representação de si mesmo como um organismo físico, como um corpo – físico – separado dos demais. Mas, ao mesmo tempo, ele também tem uma representação sobre o papel social que desempenha em uma determinada atividade social (por exemplo, se deve desempenhar o papel de aluno, de colega, de filho, de advogado, de médico, etc.), assim como uma representação sobre o tipo de imagem que quer passar de si mesmo por meio do texto produzido (por exemplo, se quer dar a imagem de um técnico no assunto, de competente ou não, de racional ou emocional, de democrático ou autoritário, de austero ou bem­-humorado, etc.).

Em segundo lugar, o produtor do texto também tem representações sobre o(s) seu(s) interlocutor(es), quer estes estejam ausentes ou presentes na situação de produção. Essas representações também vão nos dois sentidos anteriores. De um lado, há uma representação do(s) interlocutor(es) como entidade física, mas há também uma representação sobre o papel social que esse(s) interlocutor(es) estão desempenhando na situação social em que se processa a comunicação (por exemplo, se o interlocutor se encontra no papel de pai, de professor, de juiz. de médico, etc.).

É lógico que as representações que o produtor mantêm sobre o seu papel e sobre o papel do interlocutor estão estreitamente relacionadas. Ainda mais: estão relacionadas com um terceiro tipo de representação que diz respeito ao lugar social em que o texto circula ou vai circular. Do mesmo modo que as anteriores, essas representações vão em dois sentidos: de um lado, o produtor do texto tem representações sobre o lugar físico em que produz o texto, mas tem também representações sobre a instituição social, isto é, a “zona de atividade social” na qual circula o texto. Como exemplos dessas instituições, temos: econômicas e comerciais, políticas e governamentais, midiáticas, escolares, acadêmico-científicas, familiares, de saúde, de repressão, esportivas, de lazer, literárias, entre outras.

O quarto tipo de representação diz respeito ao momento da produção (a data em que se produz um determinado texto e o respectivo contexto histórico-social).

Finalmente, o quinto tipo de representação diz respeito ao(s) objetivo(s) que o produtor do texto busca alcançar com ele, isto é, ao(s) efeito(s) que quer produzir no(s) interlocutor(es), como, por exemplo, convencê-lo(s) de alguma coisa, aumentar seus conhecimentos, fazer com que faça(m) alguma coisa, etc.

Além disso, para produzir um texto, é necessário mobilizar determinados conteúdos temáticos que já temos na mente ou que, conforme a situação, devemos buscar, pesquisando sobre eles, de acordo com as necessidades de produção.

Além dessas representações sobre esses elementos do contexto de produção em que nos encontramos, temos também uma certa idéia de que tipo de texto que deve ser construído nesse contexto. Em outras palavras, conforme já vimos anteriormente, para cada contexto, quando o conhecemos, sabemos que devemos escolher um ou outro gênero que lhe seja mais apropriado e com o qual possamos atingir de forma mais eficaz os objetivos que perseguimos.

Todos esses fatores acabam por ter uma influência direta sobre o texto que efetivamente produzimos, em várias de suas características, como, por exemplo, em relação ao léxico escolhido, ao tamanho das orações, à forma de relacionarmos suas partes, à utilização ou não de pronomes pessoais de primeira ou segunda pessoa, ao plano global do texto, à utilização dos tempos verbais, à própria seleção dos conteúdos temáticos, à maior ou menor “correção gramatical”, etc. Em suma, não falamos ou escrevemos sobre qualquer coisa, de qualquer forma, a qualquer pessoa, em qualquer lugar.

Assim, quando temos de produzir textos escritos ou orais, precisamos ter claro, para nós mesmos, quais são as nossas representações sobre os elementos do contexto de produção e qual é o gênero mais adequado para que possamos agir com a linguagem nesse contexto. Muitas das dificuldades de desempenhar essa ação podem ser derivadas exatamente de representações não adequadas, não aceitas socialmente, e de um desconhecimento das características dos gêneros que devemos utilizar.

Se as representações do contexto e os conhecimentos sobre os gêneros orais, não formais, do cotidiano, vão-se construindo, à medida que, desde a infância, vamo-nos desenvolvendo e entrando em diferentes contextos sociais, o mesmo não é verdade em relação às representações e aos gêneros relacionados a situações mais formais. É na escola, por meio do ensino formal, que esses conhecimentos vão sendo desenvolvidos.

Concluindo, quando falamos / escrevemos, sobretudo em situações mais institucionalizadas, não falamos apenas como indivíduos isolados, sem nenhuma restrição social. Ao contrário, assumimos determinado papel social, buscando construir determinada imagem para o outro, com um determinado objetivo, para um destinatário que também desempenha um determinado papel social, e dentro de uma atividade social para a qual normalmente existem gêneros apropriados, com características próprias.

Elementos do contexto de produção (esquema)

  • Autor
  • Papel social do autor
  • Imagem que o autor passa de si mesmo
  • Destinatários possíveis do texto
  • Papel social dos destinatários
  • Locais onde o texto circula
  • Momento da publicação
  • Objetivo do autor do texto
  • Conteúdos temáticos
  • Gênero do texto

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Focalização

Uma história pode ser contada por uma personagem, isto é, por um narrador inserido no enredo, ou por uma voz externa a esse universo, em outros termos, por uma entidade que não integra o mundo narrado. A depender do lugar em que se coloque (dentro ou fora da história), o narrador dominará determinados campos de consciência, que condicionará o grau de representação da informação narrativa que estará apto a fornecer. A representação do conjunto de  informações ao alcance da consciência do narrador recebe, de acordo com Reis e Lopes[1], o nome de focalização.

Identificado ainda pelas expressões ponto de vista, visão, restrição de campo e foco narrativo, o conceito de focalização diz respeito não só à quantidade de informação facultada – referentemente aos fatos, às personagens, aos espaços, etc.  – mas também à qualidade dessa informação, uma vez que traduz posicionamentos afetivos, ideológicos, éticos e morais do narrador com relação aos acontecimentos narrados. Observemos o exemplo:

Entraram na boate. O volume da música, o colorido das luzes girando por todo ambiente, a movimentação dos corpos, que se agitavam na pista de dança, enchiam o coração de Alex de expectativa. A noite prometia! Ricardo, no entanto, só enxergava a fumaça dos cigarros e os vapores de suor subindo e embaçando o espelho das paredes. Diante de seus olhos, uma quantidade enorme de pessoas acotovelava-se para transpor o exíguo espaço entre o bar e os banheiros.

A partir do que cada personagem vê, faz-se idéia do local onde transcorrerão os fatos. Além disso, de acordo com o que mais chama a atenção de cada um dos jovens, é possível reconhecer as particularidades emocionais de cada um deles. Alex e Ricardo, detentores momentamente do foco narrativo, oferecem ao leitor imagens diferentes do ambiente, conforme suas próprias atitudes valorativas. É fácil perceber que a movimentação na boate agradava a Alex, enquanto Ricardo achava tudo muito chato e até depressivo. Isso, certamente, por conta do seu estado de ânimo.

O mecanismo da focalização, evidentemente, está atrelado ao posicionamento da figura do narrador. As informações que podem ser franqueadas sobre o universo narrado serão diferentes caso o narrador se coloque fora da história ou se apresente como testemunha dos fatos. A depender da posição adotada, podemos ter três tipos de focalização: focalização externa, focalização interna e focalização onisciente.


[1] REIS, Carlos e LOPES, Ana Cristina M.  Dicionário de narratologia.  Coimbra, Almedina,1996,  p. 165.

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O narratário

Se em uma narrativa há sempre a figura do narrador, deve-se pressupor que há também um narratário. Narratário é aquele para quem se conta um fato. Pode-se imaginar, inicialmente, que um narrador não se preocupa com quem vai ler a história que ele conta. Mas não é isso o que ocorre.

Na verdade, o texto narrativo, real ou fictício, é uma simulação de um processo comunicativo completo, em que alguém relata acontecimentos para outro alguém. Há, desse modo, um emissor e um receptor da mensagem. Portanto, o narrador não pode deixar de levar em consideração o tipo de leitor para quem está escrevendo. Isto porque deve adaptar a linguagem à capacidade de leitura do narratário.

Digamos que a nossa intenção seja contar uma história para crianças de até 10 anos. Se utilizarmos um vocabulário que ainda não faça parte do repertório desse público, muito provavelmente não conseguiremos atingir nosso objetivo. Parece óbvio. Porém, o que não é tão evidente assim é fato de o narratário poder estar ou não explicitado no texto.

Suponhamos que iremos iniciar uma história da seguinte maneira:

Texto 1

Meu amigo, você não tem idéia do que aconteceu outro dia no centro da cidade! Um bando de andorinhas tomou de assalto a praça principal e ocupou galhos de árvores, fios de eletricidade, beirais de telhados e janelas. As pessoas até se espantaram, tão rapidamente se deu a invasão.

Nota-se no texto acima que o narrador tem em mente um narratário masculino, que faz parte de suas relações de amizade. Mesmo que o trecho fosse fragmento de uma narrativa maior, um romance, talvez, lido por um público diversificado, o narratário instalado no texto seria o tal do amigo do narrador, que poderíamos ou não saber de quem se tratava.

Era comum, nos tempos dos folhetins publicados pelos jornais do final do século XIX, autores hoje consagrados referirem-se explicitamente em seus textos a leitores do sexo feminino, por que sabiam de antemão que eram as mulheres que mais apreciavam esse gênero jornalístico.

Conclui-se portando que o narrador pode optar por deixar o narratário implícito ou explícito no seu texto. O narratário será implícito se a ele o narrador não se referir de nenhum modo. Caso contrário, estará explícito, ou seja, se o narrador estabelecer com o leitor algum tipo de comunicação direta. E isso em diversos graus, de acordo com a possibilidade ou não de identificação que se possa ter a respeito de quem seja o narratário.

No seu famoso livro Dom Casmurro, Machado de Assis, ao explicar o título da obra, diz o seguinte:

Texto 2

Não consultes dicionários. Casmurro não está aqui no sentido que eles lhe dão, mas no que lhe pôs o vulgo de homem calado e metido consigo.

Repare-se que o emprego da segunda pessoa (Não consultes) indica que o narrador está “conversando” diretamente com o leitor, sem que este seja alguém determinado. Mas há casos de narrativas em que a história é contada para um leitor específico, reconhecido no texto. Numa carta, por exemplo, é quase sempre isso o que se verifica.

Texto 3

Tio João,

O senhor devia estar aqui em Mogi das Cruzes, a Entrada dos Palmitos deste ano foi uma das mais bonitas que eu já vi. Os carros de boi iam à frente, todos enfeitados com flores e fitas vermelhas. Em seguida, vinha o cortejo: Congadas, Moçambiques e Marujadas. Logo depois, viam-se grupos musicais, charretes, carroças e cavalgadas. Os festeiros, a pé, carregavam suas bandeiras também vermelhas, estampadas com a imagem da pomba branca, símbolo do Espírito Santo. Atrás de tudo, caminhava o povo, gente de todas as idades, cantando os hinos do Divino.

O senhor perdeu uma festa linda, tio João. Para o ano que vem, não aceito desculpas, hein! Um beijo da sua sobrinha.

Mariana.

Pois é, Mariana, a narradora, contou para seu tio João, o narratário explícito, como foi um dos eventos da Festa do Divino, mas nós como narratários implícitos também ficamos sabendo o que aconteceu. Quem estava lá, viu que foi assim, quem não estava, perdeu, azar o seu. Mas no ano que vem tem mais!

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A figura do narrador

Toda narrativa pressupõe um narrador. O narrador é quem conta a história. Entretanto, não se pode dizer que aquele que narra é o ser humano de carne e osso que escreve o texto. Isto porque a pessoa que escreve pode inventar um narrador ou, até mesmo, não inventar narrador nenhum, isto é, não identificar para o leitor quem é que está contando a história. Vejamos os trechos abaixo:

Texto 1

Maria e eu conversávamos muito a respeito dos problemas sociais do país. Como professor de Sociologia, via-me na obrigação de alertá-la sobre as questões de cidadania. Hoje, ela trabalha numa entidade que luta pelos direitos das crianças carentes.

Texto 2

Paulo e Maria conversavam muito a respeito dos problemas sociais do país. Como professor de Sociologia, ele via-se na obrigação de alertá-la sobre as questões de cidadania. Hoje, ela trabalha numa entidade que luta pelos direitos das crianças carentes.

No primeiro caso, existe no texto um “eu” que conta a história. Esse “eu” é o narrador, facilmente identificado como o professor de Sociologia. Mas quem, de fato, escreveu esse texto? Pode ter sido o próprio professor, mas pode muito bem ter sido outra pessoa que resolveu inventar esse personagem que narra. De todo modo, diz-se que, no texto 1, o narrador está explícito. Real ou inventado, ele pode ser reconhecido.

Já no texto 2, não se sabe quem conta a história. Não há um “eu” que se responsabiliza pelo que está sendo dito. Fala-se, nesse caso, que o narrador é implícito ou impessoal. Ele conta os fatos “de fora”, sem participar do mundo narrado.

Tomemos agora um terceiro exemplo:

Texto 3

Paulo e Maria conversavam muito a respeito dos problemas do país. Como professor de Sociologia, ele via-se na obrigação de alertá-la sobre as questões de cidadania. Hoje, ela trabalha numa entidade que luta pelos direitos das crianças carentes. Eu acho que Paulo acabou influenciando a escolha profissional de Maria.

Pergunta-se: quem diz “eu acho” no texto 3? Trata-se do narrador, que pode ou não querer se identificar. Embora ele esteja explícito no texto por meio do pronome “eu”, não é personagem da história, mas simplesmente uma testemunha, que julga e faz comentários.

Há romances em que o narrador encontra-se ora “fora” ora “dentro” da história, como personagem ou como testemunha. São técnicas que devem ser utilizadas com cuidado. Caso contrário, corre-se o risco de bagunçar a cabeça do leitor.

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A estrutura narrativa

Diz-se, de modo corriqueiro, que narrar é contar uma história. Mas o que é contar uma história? Quais operações mentais e linguísticas realizamos quando relatamos um sonho que tivemos, um filme a que assistimos, algo que presenciamos ou até mesmo um enredo inventado? Vejamos um exemplo:

Pedro era um rapaz preguiçoso, que não gostava de estudar.
Um dia, porém, ele se apaixonou por uma colega bonita e inteligente, que não só tirava boas notas na escola como ainda tocava piano e falava o francês.
Despertado por essa paixão, Pedro passou a se esforçar e a progredir nos estudos.
Hoje ele é um dos primeiros alunos da classe.

O texto relata a transformação de Pedro. Na narrativa, portanto, parte-se de um estado inicial e chega-se a um estado final: Pedro era um rapaz preguiçoso, que não gostava de estudar. Hoje ele é um dos primeiros alunos da classe. A esses enunciados dá-se o nome de enunciados de estado.

Entre o estado inicial e o estado final, narram-se os acontecimentos responsáveis pela mudança do rapaz: [...] ele se apaixonou por uma colega bonita e inteligente [...] passou a se esforçar e a progredir nos estudos. Estes últimos são chamados de enunciados de ação.

Mas, para compreender melhor como se articula uma narrativa, é preciso explicar ainda que esses tipos de enunciados (de estado e de ação) são geralmente agrupados em quatro fases diferentes: manipulação, competência, performance e sanção.

A manipulação é a parte da história em que uma personagem ou uma situação induz outra personagem a fazer alguma coisa. Na fase da competência, a personagem que realiza a ação adquire a vontade e a possibilidade de fazer aquela coisa. Já a performance é a ação propriamente dita, enquanto que a sanção é a recompensa ou o castigo que a personagem recebe por ter realizado tal ação.

Verifiquemos essas quatro fases na história que tomamos como exemplo:

A paixão pela garota desperta em Pedro a vontade de estudar. Ele se esforça e consegue ser o primeiro aluno da classe. Pode-se dizer então que a paixão consiste na fase da manipulação. O despertar do rapaz representa a aquisição de competência. Seu esforço é a performance e o lugar conquistado, a sanção.

No entanto, recompensa melhor Pedro teria se, em vez de honras escolares, conquistasse o coração de sua amada. Será que ele consegue?

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Tipos de discurso

Em artigo anterior, dissemos que as pessoas se comunicam por meio de gêneros de textos. Agora, queremos abordar, ainda que de forma breve, o modo como esses gêneros são constituídos.

Ao construirmos um texto, seja oral ou escrito, combinamos elementos da língua tendo em vista os objetivos que queremos atingir com relação ao nosso interlocutor. Em outros termos, se desejamos contar um acontecimento que presenciamos ou apresentar uma idéia que temos a respeito de algo, utilizaremos a linguagem de modo diferente. No primeiro caso, estaremos fazendo uma narração, no segundo, uma exposição. Diz-se, portanto, que narração e exposição são tipos de discurso, caracterizados por modalidades diferentes de organização textual.

Ao narrarmos, referimo-nos a um conjunto de transformação de situações referentes a pessoas ou personagens determinadas. Para tanto, é necessário levar em consideração o espaço e o tempo em que se passam essas transformações. Na narração, aquele que fala ou escreve organiza o discurso de modo a deixar claro o lugar e a ordem temporal em que os fatos se deram, marcando aqueles que ocorreram antes ou depois de outros, ou ainda simultaneamente a outros. Um gênero de texto em que se encontra a narração é a notícia de jornal. Para redigi-la, os jornalistas recorrem quase sempre a uma fórmula padrão, buscando apresentar logo no início as seguintes informações: quem fez ou sofreu o quê, quando e onde.

Já na exposição, os elementos tempo e lugar podem ficar de fora. Isto porque com esse tipo de discurso o que se pretende é apresentar um ponto de vista a respeito de qualquer assunto, independentemente de aspectos espaciais ou temporais. Na maior parte das vezes, ao expor, estamos tratando de conceitos abstratos, buscando explicar, analisar, classificar ou avaliar as situações que se nos apresentam. Os textos teóricos, por exemplo, realizam essas operações para transmitir algum tipo de conhecimento. Os articulistas e comentaristas de jornal utilizam a exposição para expressar suas opiniões a respeito dos acontecimentos. Em nossos relacionamentos, quase sempre temos a necessidade de expor o que sentimos referentemente ao comportamento do outro.

Assim, é a partir desses dois mundos, o da ordem do narrar e o da ordem do expor, que construímos a maior parte dos gêneros de textos por meio dos quais nos comunicamos. Evidentemente, esses dois mundos dão origem a formas lingüísticas específicas de acordo com as necessidades que temos em cada situação. Descrever, relatar, enumerar, argumentar, construir diálogos também são técnicas que fazem parte do processo comunicativo. Mas essas vão ficar para uma outra oportunidade.

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O surgimento da linguagem

Como teria surgido a linguagem no mundo dos homens? Como teria o ser humano desenvolvido a capacidade de se comunicar, de trocar idéias, de expressar seu pensamento? Há muito que estudiosos de diversas áreas das Ciências Humanas tentam responder a essas perguntas. E a noção geral que se tem é a de que a fala teria emergido em decorrência da atividade social.

Sabe-se que, para sobreviver, os organismos vivos precisam desempenhar algumas atividades de modo a garantir, essencialmente, condições de nutrição, reprodução e de proteção do perigo. Sabe-se também que essas condições só podem ser obtidas a partir do conhecimento, mínimo que seja, do meio ambiente em que se vive. Nas espécies animais, as atividades estão sempre associadas a processos de cooperação.

Tome-se, por exemplo, a comunidade das abelhas: em uma colmeia verifica-se uma verdadeira hierarquia de funções que visa a preservar a coletividade. Há as mensageiras, as camponesas, as operárias, as babás, os zangões, a rainha, enfim, há toda uma divisão de tarefas e uma organização de atividades voltadas para a obtenção dos meios de subsistência, que não pode prescindir de algum de tipo de comunicação.

Na espécie humana, as formas de atividade e de organização desenvolveram-se de maneira tão diversa e complexa justamente porque deram origem à linguagem. A diferença entre a linguagem dos homens e a dos outros animais parece estar na capacidade que os primeiros têm de negociar sobre as atividades que desempenham. Nas demais espécies, o conhecimento dos indivíduos a respeito do meio ambiente e do outro inclui a capacidade de reagir ao sinal que emitem. Porém, não há aquilo que entre os homens se convencionou chamar de “conversação”.

E como surgiu a conversação? Acredita-se que o homem, por ter criado e desenvolvido instrumentos que ampliaram sua capacidade de ação, passou a sentir a necessidade de discutir com seus semelhantes a respeito da divisão das tarefas no interior de uma comunidade. Ou seja, era preciso estabelecer qual atividade deveria caber a este ou aquele indivíduo, de posse deste ou daquele instrumento. Não é difícil imaginar que essa distribuição de funções gerasse controversas no seio da coletividade e que, para se chegar a um acordo, fosse preciso negociar.

Portanto, como diz Bronckart[1], “as produções sonoras originais teriam sido motivadas por essa necessidade de acordo; no início, temporal e deiticamente associadas às intervenções sobre os objetos, teriam se constituído, para os congêneres, em pretensões concretas à designação dessas mesmas intervenções. Pretensões contestáveis e inevitavelmente contestadas pelos congêneres, que teriam associado outros sons a essas intervenções. A linguagem propriamente dita teria então emergido, sob o efeito de uma negociação prática (ou inconsciente) das pretensões à validade designativa das produções sonoras dos membros de um grupo envolvidos em uma mesma atividade”.

Dito de outro modo, havia no início a necessidade de referir-se aos próprios instrumentos que o homem havia criado. Em seguida, era preciso criar formas para transmitir as intenções relativas à organização das atividades.  Pode-se dizer, portanto, que os seres humanos criaram a linguagem para tentar se entender. Será que conseguiram?


[1] BRONCKART, Jean Paul. Atividade de linguagem, texto e discursos: por um interacionismo sócio-dicursivo.  Trad. Anna Rachel Machado e Péricles Cunha.  São Paulo, EDUC, 1999, p.33.

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A troca verbal

Nas áreas de Letras, até o século 19, os estudiosos ocupavam-se preferencialmente em estudar a estrutura e a função expressiva das línguas. Pesquisava-se mais como o homem utilizava a linguagem para expressar sua própria individualidade, ou seja, para falar de si mesmo, para externar sua visão de mundo, suas opiniões e convicções.

Nos anos 50, Backhtin[1] passa a estudar questões relativas à troca verbal entre as pessoas, ou seja, a influência que o receptor da mensagem exerce sobre o modo como um determinado locutor se expressa. Segundo o autor[2] , o destinatário que recebe e compreende a significação de um discurso adota, simultaneamente, com relação a esse discurso uma atitude “responsiva ativa”. Em outras palavras, de uma forma ou de outra, esse destinatário dá uma resposta ao enunciado recebido.

Num processo de comunicação em que o receptor está presente, este interfere constantemente no processo de enunciação do locutor. Assim, quando estamos conversando com alguém, informal ou formalmente, esse alguém dificilmente porta-se como um ouvinte passivo, que está ali apenas para ouvir. Ele influencia de alguma forma o modo como falamos, concordando ou não com nossa opinião, demonstrando seu ponto de vista sobre o assunto tratado, acrescentando informações, fazendo objeções, executando uma instrução, ou seja, apresentando algum tipo de resposta ao nosso discurso, mesmo que essa resposta seja simplesmente uma confirmação de que compreendeu a mensagem.

O mesmo ocorre nos processos de comunicação em que a troca verbal se dá por escrito. O receptor de uma mensagem escrita quase nunca está diante do autor do texto, mas nem por isso este último deixa de imaginar e levar em consideração as repostas possíveis que, cedo ou tarde, seu interlocutor poderá dar a seu discurso. Quando escrevemos temos sempre uma intenção, um objetivo, com relação àquele que irá ler o nosso texto. Escrevemos para fazer alguém saber alguma coisa ou para fazer alguém fazer alguma coisa.

Aliás, é preciso atentar para o fato de que se falamos ou escrevemos também o fazemos em resposta à fala ou ao texto de outros. Isto porque nosso conhecimento de mundo não é construído de outro modo que não pela troca verbal. Tanto o conteúdo quanto a forma de nossos discursos são, portanto,  produtos do processo de interação social que se realiza por meio da comunicação. Só podemos falar sobre algo de que já ouvimos (ou presenciamos) antes, assim como só estamos aptos a escrever a partir de informações que já obtivemos anteriormente. E, para tanto, escolhemos o gênero de texto mais adequado a cada situação em que nos encontramos.

Ao fazermos uso da linguagem, mesmo sem o saber, levamos em consideração representações que temos a respeito do papel social que desempenhamos, do papel social desempenhado pelo nosso interlocutor, da instituição social à qual estamos inseridos. Isto quer dizer que adequamos nosso discurso a esses fatores que compõem o que se convencionou chamar de contexto de produção.

Em termos práticos, podemos simular aqui um contexto de produção, para que o conceito possa ser mais bem compreendido. Se alguém compra um determinado produto estragado ou com defeito e pretende ser ressarcido de eventuais prejuízos, deverá usar a linguagem para atingir seu objetivo, ou seja, obter a troca ou o conserto do produto ou, ainda, seu dinheiro de volta. Nesse caso, esse alguém, no papel social de consumidor, poderá escrever uma carta (gênero textual) para o fabricante do produto (papel social). Ao fazê-lo, o produtor do texto levará  em consideração a linguagem que normalmente circula nos meios empresariais (lugar social) e a imagem pré-concebida que faz da indústria para a qual escreve. Em sua mensagem irá transmitir a seu interlocutor uma imagem de si mesmo como alguém consciente a respeito de seus direitos como consumidor.

O mesmo ocorre em todas as outras situações de interação social. Ao interagirmos, sempre assumimos um determinado papel social, buscando construir uma determinada imagem para o outro, com um determinado objetivo, para um interlocutor que também desempenha um determinado papel social, e dentro de uma atividade social para a qual normalmente existem gêneros apropriados, com características próprias.


[1] BAKHTINE, Mikhaïl. Esthétique de la création verbale. Paris, Gallimard, 1984.

[2] Ibidem, p. 274.

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Noção de gênero textual

Cunhado por Mikhail Bakhtin já em 1953, o conceito de gênero de texto vem sendo cada vez mais levado em consideração no desenvolvimento de metodologias que visem ao ensino do uso de uma determinada língua. Para o lingüista russo, gênero de texto são formas relativamente estáveis de construção de enunciados forjadas por uma sociedade em seu processo de aculturação. Essas formas-padrão surgem das necessidades de comunicação que se verificam nos diferentes meios de interação social.

Nesse sentido, qualquer maneira de utilização da linguagem pode ser considerada gênero de texto: desde os diálogos estabelecidos no âmbito da formação familiar até os mais formalizados meios de troca de informações, orais ou escritos. Existe uma grande variedade de gêneros padronizados na vida corrente. Apenas para citar alguns, lembramos os gêneros práticos para desejar felicitações, votos em geral, troca de novidades sobre a saúde, sobre os negócios, entre outros. Há também aqueles que aprendemos na escola e os que entramos em contato por meio da literatura, dos jornais e revistas, do rádio e da televisão.

Assim, cada gênero deve ser estudado conforme características próprias. O uso da língua numa conversa informal entre amigos, por exemplo, não pode ser analisado a partir dos mesmos parâmetros utilizados para analisar uma discussão entre um grupo de profissionais no exercício de suas funções. Os mesmos critérios também não podem ser empregados para se avaliar a linguagem empregada numa carta de amor e aquela utilizada pelas correspondências comerciais.

O desenvolvimento de um estudo por meio do qual se possa dar conta de classificar e descrever todos os gêneros de textos que circulam em uma dada sociedade é tarefa, se não de todo impossível, pelo menos interminável. Isto porque, embora cada gênero seja, como já foi dito, uma forma relativamente estável de construção de enunciados, eles assim o são por um determinado período histórico, ou seja, modificam-se de acordo com as próprias transformações da sociedade. Além disso, em decorrência dessas mesmas transformações, novos gêneros surgem de tempos em tempos do mesmo modo que outros desaparecem.

Tome-se como exemplo o telegrama ainda no tempo do código Morse. Utilizado para o envio de mensagens urgentes, esse gênero veio se modificando de acordo com o avanço tecnológico no campo das comunicações. No início, entendíamos telegrama como um texto curto, do qual, por questões de economia e rapidez, eram suprimidos termos considerados dispensáveis para a compreensão do sentido da mensagem. Com a transmissão via telefone, as mensagens enviadas, embora ainda curtas, ganham maior coesão, já sendo possível observar no corpo do texto a presença de artigos, preposições, conjunções entre outras expressões gramaticais. Hoje, o telegrama foi substituído pelo gênero e-mail, transmitido via Internet, que liberta o produtor do texto de preocupações de ordem econômica.

Os gêneros textuais são divididos em dois grandes grupos: os primários e os secundários. Os primários são os que se constróem em situações espontâneas de uso da linguagem, como as que surgem nas conversações do cotidiano. Os gêneros primários são, portanto, produto da tradição oral de um povo. Já os secundários caracterizam-se pela escrita, pelas formas padronizadas de organização da linguagem e pelo fato de desempenharem funções mais ou menos formalizadas no processo de construção da cultura desse povo. Deve-se argumentar, entretanto, que os modos de expressão oral e escrito por si só não são suficientes para a classificação de um gênero como primário ou secundário. Para demonstrar isso, basta lembrar que gêneros como palestra, conferência, seminário, bastantes comuns nos meios acadêmicos e profissionais, são transmitidos oralmente e nem por isso surgem de modo espontâneo.

De qualquer maneira, a separação texto oral versus texto escrito é de fundamental importância para o estudo dos gêneros, uma vez que as mudanças que se verificam sistemática e paulatinamente na estruturação dos gêneros ditos secundários têm sua origem nas transformações mais rápidas e dinâmicas que se operam no modo como as pessoas falam no suceder das gerações.

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Além da gramática

A preocupação com o uso correto da língua portuguesa, melhor dizendo, com o emprego adequado das regras gramaticais, virou febre na mídia nacional. Começou na televisão e logo surgiu em jornais, revistas, rádios e, como não poderia deixar de ser, na Internet. Matérias e programas de diversos formatos, produzidos com o auxílio de diferentes recursos, estão sempre nos lembrando a respeito de questões relativas a esta ou àquela norma de colocação pronominal, a esta ou àquela forma de regência verbal, entre tantas outras normatizações.

Não há dúvidas de que, no Brasil, andávamos mesmo maltratando o Português, e iniciativas como essas atendem a necessidades sociais bem definidas. Dissemina-se cada vez mais a consciência de que quem fala e escreve incorretamente não merece crédito pessoal, muito menos profissional. Ri-se da cabeleireira que diz “pra mim fazer”, do jogador de futebol que fala “a gente fomos”, da passista de escola de samba que declara alguma coisa “a nível de”. Isso, só para citar alguns problemas mais amplamente conhecidos e combatidos até por aqueles que, mesmo considerando-se bons conhecedores das normas gramaticais, usam “independente” no lugar de “independentemente”.

Embora seja muito importante tratar de assuntos relacionados ao emprego correto da Língua Portuguesa, deve-se também ampliar a discussão para além dos aspectos que se constituem objeto de estudo da gramática normativa. É fundamental colocar em pauta de discussão temas que suscitem reflexões a respeito de diversos meios de desenvolvimento da capacidade de uso da linguagem, uma vez que a própria utilização da linguagem confunde-se com toda e qualquer atividade humana. Como diz Mikhail Bakhtin (1984:265), os modos de utilização da linguagem serão tão variados quantos forem os modos de atividade humana.

Foi em Bakhtin, portanto, que se foi buscar o conceito de gênero de texto para que se pudesse iniciar um diálogo sobre a relação entre o emprego da língua e o contexto de produção de linguagem em que se encontram seus usuários.

Primeira noção de gênero

Gêneros são formas relativamente estáveis de se estruturar textos, forjadas no decorrer da história no quadro de cada sociedade. Essas diferentes maneiras de se construir textos foram surgindo de acordo com as necessidades sociais e em decorrência do surgimento de novos meios de comunicação. Constituem-se gêneros de texto desde as simples réplicas dos diálogos em situações informais de comunicação no dia-a-dia das pessoas até os enunciados mais formais que regulam as relações humanas, passando pelas situações de troca cultural, artística, científica, sociopolítica, entre outras possíveis.

Visto desse modo, tudo é gênero: a conversa entre amigos, o diálogo entre pai e filho, o bilhete que se deixa para um irmão ou para a faxineira, a notícia que se lê no jornal, a mala direta de propaganda que chega pelo correio, a petição que o advogado envia ao juiz, a bula de remédio e tantos outros que a sociedade reconhece.

Acredita-se, portanto, que o estudo a respeito do emprego da língua traz maiores benefícios aos usuários dessa língua quando leva em consideração as características específicas de cada gênero textual.

SALVAR / IMPRIMIR: Além da gramática