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Visite Mogi das Cruzes e ganhe uma multa!

Mogi das Cruzes está-se tornando famosa como a cidade das multas de trânsito. A expressão “visite Mogi e ganhe uma multa”, reiteradamente pronunciada por paulistas e paulistanos, ganhou em 15 de agosto de 2010 destaque nacional no GNT, canal de televisão por assinatura.
“Eu já fui multada em Mogi das Cruzes!” – enunciou Fernanda Young, logo na abertura do programa de entrevistas que leva seu nome.  “Hoje, meu entrevistado é Hélio de la Peña, do Casseta & Planeta. Ele também já foi multado em Mogi das Cruzes!”
Como se até aí não impusesse aos mogianos “pagar mico” o bastante, continuou a apresentadora: “Para quem é de fora de São Paulo, ou não sabe, Mogi das Cruzes é aquela cidade que a gente passa quando vai para a praia”.
Não sei o que é pior para o município: ser lembrado como um lugar onde abundam os radares, que, em meio a uma pista de velocidade, impõem limite de 50 km por hora, ou como um não-lugar, para o qual nunca se vai, apenas se passa com destino a outro lugar.
Nenhuma dessas representações externas é favorável para os que habitam em Mogi. Entretanto, com relação ao trânsito, há um problema interno, muito mais importante para os mogianos, e que vale a pena ser observado. Trata-se do modo displicente, e até mesmo irresponsável, como os pedestres trafegam.
São inúmeras as pessoas que atravessam as ruas fora das faixas, sem sequer olhar para os lados. Há outras tantas que, numa esquina, antes mesmo de esperar os carros passarem, já desceram das calçadas e avançaram em muito o meio-fio. Se um automóvel vem pela via transversal e o motorista pretende virar à direita, por exemplo, é bastante comum que precise frear e correr o risco de causar um engavetamento, para não atropelar alguém.
As causas desse padrão de comportamento, evidentemente, são difíceis de serem explicadas. Mas, pelo gesto, pelo olhar, pelas atitudes particulares dos circulam a pé podem-se arriscar algumas interpretações.
Há aqueles que, em geral mais idosos, estavam acostumados com a Mogi interiorana, calma, pacata, na qual o número de automóveis em circulação ainda não causava nenhum tipo de ameaça. Esses, provavelmente, ou não se deram conta de que a cidade cresceu ou notaram o progresso, mas sentem-se no direito de desafiá-lo, como quem diz: “eu já transitava por aqui muito antes que todos esses automóveis; não será agora que vou modificar meus hábitos”.
Mas há também os que olham de modo ostensivo para os motoristas e, sem a menor cerimônia, jogam-se na frente dos carros. São os mais jovens que, na maior parte das vezes, agem dessa maneira. É como se, numa postura visível de enfrentamento, dissessem: “quero ver se você tem a coragem de me atropelar”.
Enfim, todos se sentem no direito de passar primeiro. Ou seja, o individualismo, tanto de pedestres quantos de motoristas, tem sido o padrão adotado pelas pessoas. Não seria o caso de, em vez de radares e multas, se optasse por uma campanha de educação para o trânsito cujo apelo fosse para a consciência da coletividade?
Essa simples iniciativa poderia não só melhorar a imagem da cidade, como também, e o que é melhor, salvar vidas.

Aos meus “irmãos” baianos

Creio que hoje seja um bom dia pra iniciar a seção de crônicas deste site.  Aqui nesta varanda-galeria-de-arte, praia de Stella Maris, Salvador, casa de Hilda Maria Salomão, ceramista reconhecida, amiga-irmã de mais de trinta anos, o assunto só poderia ser mesmo bem pessoal. O que, aliás, não deixa de ser apropriado, já que se trata da inauguração do espaço. Espaço que desejo utilizar como suporte virtual de impressões acerca da contemporaneidade.
Depois de muito tempo sem escrever nada que não fosse acadêmico e/ou didático, de editar nada que não fosse jornalístico, o texto corre amarrado; hesitante entre o formal e o informal; titubeante, entre a pontuação normativa e a expressiva; temeroso de levantar voos estilísticos; envergonhado ante a linha tênue entre o poético e o piegas. Mas, como não passar por isso? Como não sentir a dor e o prazer desse travo amargo e ao mesmo tempo doce que nos acomete quando se inicia um novo ciclo? Novo ciclo de que este próprio site é prenúncio e precursor.
A preencher de significação o momento, estou de novo na Bahia, terra à qual me sinto espiritualmente ligado, como se por uma espécie de segunda naturalidade. Até hoje não estou bem certo se eu a escolhi ou se foi ela que me escolheu. O fato é que aqui estão irmãos de alma, para perto dos quais a vida me trouxe, me traz sempre. Sempre que se faz necessário pontuar de alguma forma o texto de que se compõe a narrativa de nossa existência: a minha, a deles.
Nesses mais de trinta de anos, o intrincado enredo do desenvolvimento individual enovela-se na fascinante trama das relações. Vitórias aplaudidas, alegrias compartilhadas, dificuldades desabafadas, tristezas consoladas, medos encorajados. Sofrimentos e felicidades embalados pela certeza  do afeto do outro; do afeto ao outro.
Eis-me aqui em mais um momento marcante. Novo amor estabelecido. Sinais sensitivos de determinados atos chegando a um termo. Certezas convictas de transformações interiores.  Pontos luminosos indiciais de novos projetos.
O Brasil não ganhou a Copa do Mundo, mas eu sou puro agradecimento.