Teoria da comunicação

Toda comunicação tem por objetivo a transmissão de uma mensagem, e se constitui por um certo número de elementos. Por meio desses slides, apresentam-se os principais conceitos da Teoria da Comunicação.

VANOYE, Francis.  Usos da linguagem: problemas e técnicas na produção oral e escrita.  9.ed., São Paulo, Martins Fontes, 1993.

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A infoera

“Estamos talvez diante do maior desafio enfrentado pela sociedade humana: a Infoera, que traz em seu bojo uma plêiade de promessas, que poderão resultar numa idade de ouro para todas as artes e ciências e uma infinidade de ameaças que poderão resultar numa divisão da humanidade em rígidas castas sociais, e numa nova Idade das Trevas que poderá perdurar por muitos e muitos séculos.”

ZUFFO, João Antonio.  A infoera: o imenso desafio do futuro.  São Paulo, Saber, 1997.

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O domínio do trivial

CONTARDO CALLIGARIS

Hoje, cada vez mais, mesmo quando parecemos discordar, pensamos todos as mesmas trivialidades

AOS VINTE anos, leitor de Gramsci, eu entendia que o poder das classes dominantes se exercia de duas maneiras.
Havia a exploração econômica, com repressão eventualmente brutal das reivindicações dos trabalhadores (sem contar as guerras imperialistas).
E havia a outra face do domínio: o controle das idéias e das mentes, oculto e insidioso. Esse era o terreno de luta dos intelectuais: podíamos colaborar com a classe dominante ou, então, fazer o quê? Sermos porta-vozes de uma nova classe?
Não éramos totalmente ingênuos. Reconhecíamos os horrores do dito “socialismo real” e percebíamos que ele substituíra uma classe dominante por outra. A ditadura do proletariado não tinha por que ser melhor do que a ditadura da burguesia; talvez, aliás, ela fosse pior. Nosso sonho era outro: uma sociedade sem classes.
Pois bem, um espectador apressado poderia pensar que, enfim, realizamos a famosa sociedade sem classes -ao menos em parte.
Claro, desigualdades e exploração continuam; no entanto, é difícil distinguir a cultura da classe dominante das outras que lhe seriam opostas, porque, no fundo, mesmo quando parecemos discordar, pensamos todos igual.
Acabo de ler “L’Egemonia Sottoculturale”, de Massimiliano Panarari (Einaudi, 2010). O autor, um intelectual de minha geração, faz uma crítica hilária da “subcultura da fofoca”, que seria, segundo ele, a cultura dominante na Itália de hoje. Infelizmente, é difícil entender os exemplos no texto de Panarari sem ter sido espectador da televisão aberta italiana durante um bom tempo (e para isso é necessário dar prova de um certo heroismo). Mas o que Panarari diz não se aplica só ao caso da Itália.
Mundo afora, é cada vez mais difícil dizer algo que não faça parte de um senso comum que é feito de referências, ideias e, sobretudo, maneiras de pensar compartilhadas graças ao uso generalizado da mesma mídia.
Nesse quadro, pensar criticamente é árduo. Quem deseja convencer seus leitores ou espectadores de que ele pensa fora da trivialidade dominante tende a parecer-se com aquelas crianças que, de vez em quando, gritam “xixi e cocô” e, com isso, gabam-se de ter quebrado um grande tabú.
Nesse sentido, nos EUA, são cada vez mais populares radialistas, apresentadores e jornalistas supostamente “conservadores”, que devem seu sucesso a uma vulgaridade e a uma truculência que parecem satisfazer a espera de todos por um pensamento novo, diferente. Um exemplo: um dos aspectos do senso comum é um respeito forçado das regras do politicamente correto. Diante disso, os ditos comentadores não inventam visões mais complexas e produtivas da diversidade social, mas, para criar a ilusão de que eles pensariam fora do senso comum, permitem-se, de vez em quando, dizer ou gritar “negro” ou “viado”. Sua “ousadia” é tão inovadora quanto a das crianças do “xixi e cocô”.
No Brasil, o debate eleitoral em curso poderia também servir para mostrar que nosso senso comum compartilhado é, no caso, uma espécie de razoabilidade, resignada a evitar temas excessivamente conflitivos (o aborto, por exemplo) e a aceitar alianças duvidosas e supostamente “necessárias”.
Como chegamos a essa perda de contraste na vida pública e cultural?
Segundo Panarari, a burguesia ganhou a luta pela egemonia jogando a carta do prazer: “Na década do hedonismo reaganiano, todos se convenceram, de repente, que estava na hora de divertir-se. Palavra de ordem: “Queremos folgar” e, por favor, evite-se empestar a existência, de qualquer maneira que seja, com política, cultura, economia e todas essas “coisas” assimiláveis a preocupações e aborrecimentos”. Conclusão: a subcultura hedonista da fofoca é o novo ópio do povo.
Concordo (um pouco) com essa visão apocalíptica da cultura dominante. Mas discordo da ideia de que a subcultura da fofoca seja a invenção vitoriosa de uma classe específica.
Ela é, ao meu ver, uma consequência dos nossos tempos, pela razão que segue. Quando a midia é de massa, não há mais diferença entre manipuladores e manipulados, pois os próprios manipuladores, expostos à mídia, são manipulados por suas produções. Ou seja, progressivamente, todo o mundo pensa as mesmas trivialidades.
É o feitiço que enfeitiça o feiticeiro.

Folha de S, Paulo, Ilustrada, quinta-feira, 19 de agosto de 2010, p. E14.

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Linguagem e Comunicação

Apresentação de alguns conceitos pertinentes às áreas de  linguagem e comunicação. Definições de língua, sistema de signos, código, significante, significado, referente, conotação, denotação, discurso, tipos de discurso, narrar, expor, semiótica, ícone, índice, símbolo, entre outros.

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Visite Mogi das Cruzes e ganhe uma multa!

Mogi das Cruzes está-se tornando famosa como a cidade das multas de trânsito. A expressão “visite Mogi e ganhe uma multa”, reiteradamente pronunciada por paulistas e paulistanos, ganhou em 15 de agosto de 2010 destaque nacional no GNT, canal de televisão por assinatura.
“Eu já fui multada em Mogi das Cruzes!” – enunciou Fernanda Young, logo na abertura do programa de entrevistas que leva seu nome.  “Hoje, meu entrevistado é Hélio de la Peña, do Casseta & Planeta. Ele também já foi multado em Mogi das Cruzes!”
Como se até aí não impusesse aos mogianos “pagar mico” o bastante, continuou a apresentadora: “Para quem é de fora de São Paulo, ou não sabe, Mogi das Cruzes é aquela cidade que a gente passa quando vai para a praia”.
Não sei o que é pior para o município: ser lembrado como um lugar onde abundam os radares, que, em meio a uma pista de velocidade, impõem limite de 50 km por hora, ou como um não-lugar, para o qual nunca se vai, apenas se passa com destino a outro lugar.
Nenhuma dessas representações externas é favorável para os que habitam em Mogi. Entretanto, com relação ao trânsito, há um problema interno, muito mais importante para os mogianos, e que vale a pena ser observado. Trata-se do modo displicente, e até mesmo irresponsável, como os pedestres trafegam.
São inúmeras as pessoas que atravessam as ruas fora das faixas, sem sequer olhar para os lados. Há outras tantas que, numa esquina, antes mesmo de esperar os carros passarem, já desceram das calçadas e avançaram em muito o meio-fio. Se um automóvel vem pela via transversal e o motorista pretende virar à direita, por exemplo, é bastante comum que precise frear e correr o risco de causar um engavetamento, para não atropelar alguém.
As causas desse padrão de comportamento, evidentemente, são difíceis de serem explicadas. Mas, pelo gesto, pelo olhar, pelas atitudes particulares dos que circulam a pé pode-se arriscar algumas interpretações.
Há aqueles que, em geral mais idosos, estavam acostumados com a Mogi interiorana, calma, pacata, na qual o número de automóveis em circulação ainda não causava nenhum tipo de ameaça. Esses, provavelmente, ou não se deram conta de que a cidade cresceu ou notaram o progresso, mas sentem-se no direito de desafiá-lo, como quem diz: “eu já transitava por aqui muito antes de todos esses automóveis; não será agora que vou modificar meus hábitos”.
Mas há também os que olham de modo ostensivo para os motoristas e, sem a menor cerimônia, jogam-se na frente dos carros. São os mais jovens que, na maior parte das vezes, agem dessa maneira. É como se, numa postura visível de enfrentamento, dissessem: “quero ver se você tem a coragem de me atropelar”.
Enfim, todos se sentem no direito de passar primeiro. Ou seja, o individualismo, tanto de pedestres quanto de motoristas, tem sido o padrão adotado pelas pessoas. Não seria o caso de, em vez de radares e multas, se optasse por uma campanha de educação para o trânsito cujo apelo fosse para a consciência da coletividade?
Essa simples iniciativa poderia não só melhorar a imagem da cidade, como também, e o que é melhor, salvar vidas.

Autorregulamentação no jornalismo

JUDITH BRITO

Democracias de verdade dispensam leis de imprensa. Valem para as empresas jornalísticas e os jornalistas as mesmas leis de danos morais que valem para a sociedade em geral.
Disse muito bem um grande jornalista brasileiro, Cláudio Abramo, num texto hoje já clássico, que “não existe uma ética específica do jornalista: sua ética é a mesma do cidadão”. Lembrou Abramo: “O que o jornalista não deve fazer que o cidadão comum não deva fazer?
O cidadão não pode trair a palavra dada, não pode abusar da confiança do outro, não pode mentir”.
Mesmo assim, diante da grande presença e da influência que têm os meios de comunicação nas democracias modernas, nelas os jornalistas, as empresas e as associações representativas do setor costumam definir princípios éticos que devem ser obedecidos no exercício da atividade.
De uma forma geral, são princípios que seguem a fórmula simples e evidente do mestre Abramo. No Brasil, muitas empresas jornalísticas têm seus códigos de ética. A Associação Nacional de Jornais também tem seu código de ética e autorregulamentação.
Com o fim da Lei de Imprensa que vigorava até o ano passado, tem crescido no país o debate sobre a necessidade de autorregulamentação mais efetiva do exercício do jornalismo.
Há quem fale em autorregulamentação como antídoto contra a criação de conselhos ou mecanismos chapa-branca de regulamentação, na linha de propostas tentadas nos últimos anos por grupos obscurantistas partidários do “controle social da mídia”.
É preciso deixar bem claro que qualquer iniciativa de interferência de instâncias governamentais no exercício do jornalismo estará sempre fadada à inconstitucionalidade. Nossa Constituição é categórica no sentido de que a liberdade de expressão não pode sofrer nenhum tipo de restrição. Por isso, o Supremo Tribunal Federal acabou com a famigerada Lei de Imprensa.
De qualquer forma, contudo, é válido o debate sobre a autorregulamentação. Em outras democracias modernas, em diferentes graus e modelos, a autorregulamentação está institucionalizada.
Criou-se nesses países toda uma cultura de respeito a princípios éticos fundamentais para que o jornalismo siga cumprindo seu essencial papel na sociedade.
Mais do que a criação de uma instância de autorregulamentação, o que precisamos no Brasil é exatamente disseminar ainda mais a cultura de respeito aos princípios éticos do jornalismo.
Os cidadãos devem estar atentos para os códigos de ética de cada jornal, de cada veículo de comunicação, e cobrar que sejam seguidos. Não podemos nunca esquecer que a credibilidade é o maior patrimônio do jornalismo.
Em relação ao Judiciário, o fundamental é que nunca se avance contra os princípios da Constituição e se pratique a censura.
Todo o conceito de liberdade de expressão está baseado no fundamento de que qualquer punição nesse campo se dará sempre a posteriori. Afinal, acima de tudo, a sociedade tem direito à informação, sem restrições ou censura.
A democracia brasileira, da qual muito devemos nos orgulhar, é uma obra em progresso iniciada com a Constituição de 88. A liberdade de expressão consagrada nessa Constituição tem sido um elemento fundamental desse processo e assim deve permanecer.
Cabe avançarmos na cultura da autorregulamentação para valorizarmos o exercício do jornalismo com liberdade e responsabilidade.


JUDITH BRITO é presidente da ANJ (Associação Nacional de Jornais) e diretora-superintendente da Empresa Folha da Manhã S.A., que edita a Folha.

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Gordura para todos

MARCELO COELHO

“Ser como você é”, nessa linguagem, equivale a ter um lugar definido no mercado consumidor

HÁ REVISTAS para tudo. Se você é criador de buldogues ou representante de vendas no setor de aparas de metal, certamente existe alguém pensando em publicar, todo mês, reportagens e artigos voltados para a sua área de interesse.
A imaginação “revisteira” nunca falha. Descobre-se uma celebridade que já teve um buldogue de estimação, ou cujo avô fez fortuna com resíduos de alumínio: já está pronta a entrevista da capa. Do cinema à gastronomia, existirá sempre uma coisa que se conecta com alguma outra e, quando menos se espera, o universo inteiro será revisto e interpretado do ângulo escolhido.
Nada mais parecido com uma galáxia do que uma extensão de lascas de níquel, nada que nos aproxime tanto do budismo quanto os hábitos de um buldogue; o candidato ecologista tem algo a dizer sobre a reciclagem do chumbo, e determinado técnico de futebol se inspira, quem sabe, na moral canina.
Já que tudo pode se transformar em “nicho de mercado”, é apenas uma questão de tempo para que tudo se transforme em revista.
Pensando assim, até que demorou muito para o surgimento de uma revista de moda voltada para mulheres acima do peso. Recebo o primeiro número de “Beleza em Curvas” (editora Digicamp).
Trata-se de uma “revista para quem ampliou o seu espaço para ser bonita”, diz a capa. E só num desbragado esforço de eufemismo estamos falando de “gordinhas”, de pessoas com “alguns quilinhos a mais”.
As fotos, as dicas de consumo e os discursos de autoestima se voltam para mulheres em estado de categórica obesidade. Existe “vida feliz acima do tamanho 46″, diz o editorial. “Viemos para dar espaço para todas as mulheres reais deste gigantesco, miscigenado e plural país”, continua o texto.
Gigantesco? Difícil saber se há controle consciente sobre os jogos de palavras que, naturalmente, ficam de tocaia quando se escreve sobre um tema tabu, como o da gordura feminina.
Domínio de texto, de qualquer modo, não é o forte dos redatores da revista. Cada página traz quantidades imoderadas de erros gramaticais, e o leitor deve estar preparado para encontrar frases como esta: “O amor é uma palavra antiga, mas um conceito pouquíssimo utilizado no geral”.
Ou ainda esta: “Numa antiguidade quase presente, a mulher era vista pelos maridos como reprodutora feminina”.
Mas vamos em frente. São tantas as páginas de mulheres realmente gordas, jovens, bem maquiadas e afirmativas, que o principal objetivo psicológico de “Beleza em Curvas” acaba por ser alcançado: naturaliza-se um pouco a obesidade e reforça-se a sensação de como também é estranho o padrão da anorexia.
Uma vez posta em funcionamento, a lógica “revisteira” já não consegue parar: tudo pode ser entendido da ótica obesa. De Rubens a Botero, a pintura dará assunto para muitas edições. De Preta Gil a Marilyn Monroe, sempre se pode destacar alguma celebridade menos obcecada com a balança.
Apesar disso, há limites para essa “ação afirmativa”, ou melhor, “autoafirmativa”. Um assunto não pode deixar de ser tabu nas páginas de “Beleza em Curvas”.
Trata-se da comida. A única reportagem sobre o tema insiste na importância da alimentação saudável: cenouras, tomates, grãos de soja. A mulher gorda e bem resolvida parece ter, aqui, a curiosa característica de não se interessar por chocolate ou marzipã.
É dinâmica, esportiva, sensual. Alimenta-se com moderação, veste-se bem, não tem complexos.
Ou seja, é uma mulher magra -só que com mais peso. A contradição vem à tona num só momento da revista: uma reportagem sobre cirurgias de redução do estômago. A afirmação da gordura convive com a sua negação.
O “padrão anoréxico” pode ser criticado. Mas há outra ditadura, na verdade, a ser combatida -e uma revista para gordas não difere de qualquer outra revista nesse aspecto. Trata-se da ideia de que, por uma espécie de auto-hipnose regada a muito consumo, você pode ser feliz sendo como é.
“Ser como você é”, nessa linguagem, equivale a ter um lugar definido no mercado consumidor. Sua identidade se afirma pelo que você consome – e assim se criam, em última análise, obesos de todos os tipos: os de comida e os de cosméticos, os de aparelhos eletrônicos e os de livros, os de buldogues e os de aparas de metal.

Folha de S, Paulo, Ilustrada, quarta-feira, 4 de agosto de 2010, p. E14.

SALVAR / IMPRIMIR: Gordura para todos – Marcelo Coelho

Jornais para jovens são sucesso na França

VAGUINALDO MARINHEIRO
DE LONDRES

Títulos para pessoas de 6 a 18 anos mantêm circulação, apostando em temas como ecologia e entretenimento

Jornais para jovens não são vendidos em banca, e a assinatura de segunda a sábado custa cerca de R$ 20 por mês

Uma editora na França tem conseguido provar que pode estar bem errada a máxima de que crianças e adolescentes não gostam de ler notícias em jornal impresso.
Com três títulos voltados para pessoas de 6 a 18 anos, a La Play Bac não enfrenta crise. Enquanto os jornalões franceses perdem leitores, ela mantém 150 mil assinantes em todo o país. Número que permanece estável há cinco anos.
Como comparação, é metade do que vende o “Monde” hoje. Mas o “Monde” perdeu cerca de 20% da circulação nos últimos cinco anos.
Qual o segredo? “Fazemos jornais que não são chatos. Que levam às crianças e aos adolescentes o que eles querem ler e com uma apresentação colorida e atraente”, afirma François Dufour, 42, um dos donos da editora e editor-chefe dos jornais.
“Le Petit Quotidien” (pequeno diário), “Mon Quotidien” (meu diário) e “L’actu” (últimas notícias) são jornais compactos (quatro páginas o primeiro, oito os outros dois), com gráficos coloridos, fotos grandes e textos pequenos.
No cardápio de assuntos, muita ecologia, curiosidades históricas, entretenimento e atualidades.
Na última quinta-feira, o “Le Petit Quotidien”, voltado para crianças de até dez anos, trazia na capa a história de um animal que se pensava extinto e que foi fotografado no Sri Lanka. Dentro, uma arte multicolorida com tudo sobre o bicho.
No “Mon Quotidien”, para crianças e adolescentes entre 10 e 14 anos, o assunto principal era o projeto de uma agência britânica para criar um hotel de luxo nas alturas, dentro de um dirigível. Na página dois, uma arte com tudo sobre os dirigíveis.
“L’actu”, cujo público-alvo tem de 14 a 18 anos, falava não só de ganhadores de loterias, mas também do vazamento de documentos sobre a guerra no Afeganistão. Na contracapa, uma entrevista com a atriz Cameron Diaz.
Dufour afirma que são os próprios jovens que escolhem os assuntos.
Todos os dias são levados à Redação dois meninos e duas meninas que funcionam como redatores-chefes convidados. Os jornalistas propõem as pautas, eles decidem o que será publicado.
São também os leitores que escrevem as críticas de jogos e livros.

INÍCIO
A história dos três jornais começa em 1995. Dufour e dois amigos pensaram que seria um bom negócio fazer jornais que fossem vistos pelos pais como parte do processo educativo dos filhos.
Na época, eles já eram donos de uma editora de livros e jogos infantojuvenis.
Os jornais não são vendidos em banca, é preciso ser assinante para recebê-los em casa, de segunda a sábado.
A assinatura custa 9 por mês, pouco mais de R$ 20.
Durante todo o mês de setembro, início do ano letivo na França, são distribuídos jornais nas escolas do país.

Folha de S. Paulo, Mercado, terça-feira, 3 de agosto de 2010, p. B10.

SALVAR / IMPRIMIR: Jornais para jovens são sucesso na França – Vaguinaldo Marinheiro

Lição de jornalismo

FERNANDO DE BARROS E SILVA

SÃO PAULO - Um dos bons capítulos da imprensa brasileira dos últimos anos foi escrito pelos perfis publicados na revista “piauí”. “Vultos da República”, lançado agora pela Companhia das Letras, reúne nove deles, dedicados a personagens do mundo político. Estão lá os presidenciáveis: Dilma Rousseff, em dois textos de Luiz Maklouf Carvalho; José Serra (“Na hora da decisão”) e Marina Silva (“A verde”), retratados por Daniela Pinheiro.
“O consultor” José Dirceu, o ex-ministro Marcio Thomas Bastos e Sérgio Rosa, ex-presidente da Previ, são figuras de destaque, das luzes e das sombras, verdadeiros vultos da era Lula. O perfil de Francenildo dos Santos Costa, “o caseiro” cujo sigilo bancário foi violado pelo governo, é especial. Todo “companheiro” petista deveria lê-lo na cama, antes de dormir.
Mas o grande momento do livro é o texto de abertura, “O andarilho”, perfil de FHC assinado por João Moreira Salles, uma obra-prima do jornalismo. No posfácio, Humberto Werneck destaca, com razão, que o autor procede como havia feito em “Entreatos”, documentário sobre a campanha de Lula em 2002: gruda no personagem e o acompanha, buscando interferir o mínimo possível naquilo que ouve e vê (apesar da consciência de que sua presença faz parte da cena e a altera).
FHC concedeu intimidades ao interlocutor, um Moreira Salles, provavelmente sem esperar que ele ali fosse antes um João jornalista. O resultado, muito humano, fisga o âmago do personagem.
“O objeto fala, o narrador pode se calar”, escreveu o próprio Moreira Salles no posfácio à edição brasileira do livro de perfis do editor da “New Yorker”, David Remnick. Ali, ele aponta que a revista criou e cultiva uma espécie de “retórica das coisas, de acordo com a qual o personagem se revela não só pelo que diz, mas também pelo que o cerca”. O que não deixa de ecoar a convicção de Flaubert: “Para que uma coisa seja interessante, basta olhá-la durante muito tempo”.

Folha de S. Paulo, Opinião, segunda-feira, 2 de agosto de 2010, p. A2.

SALVAR / IMPRIMIR: Lição de jornalismo – Fernando de Barros e Silva