Arquivo do autor:Sérsi Bardari

Contexto de produção e seus elementos

Sempre que escrevemos ou falamos, isto é, produzimos um determinado texto, oral ou escrito, acionamos, até mesmo inconscientemente, determinadas representações sobre o contexto de produção desse texto, representações essas que vão influenciar muitas das características de nossos textos.

Vejamos quais são essas representações.

Em primeiro lugar, o produtor do texto (oral ou escrito) tem, no mínimo, uma representação de si mesmo como um organismo físico, como um corpo – físico – separado dos demais. Mas, ao mesmo tempo, ele também tem uma representação sobre o papel social que desempenha em uma determinada atividade social (por exemplo, se deve desempenhar o papel de aluno, de colega, de filho, de advogado, de médico, etc.), assim como uma representação sobre o tipo de imagem que quer passar de si mesmo por meio do texto produzido (por exemplo, se quer dar a imagem de um técnico no assunto, de competente ou não, de racional ou emocional, de democrático ou autoritário, de austero ou bem­-humorado, etc.).

Em segundo lugar, o produtor do texto também tem representações sobre o(s) seu(s) interlocutor(es), quer estes estejam ausentes ou presentes na situação de produção. Essas representações também vão nos dois sentidos anteriores. De um lado, há uma representação do(s) interlocutor(es) como entidade física, mas há também uma representação sobre o papel social que esse(s) interlocutor(es) estão desempenhando na situação social em que se processa a comunicação (por exemplo, se o interlocutor se encontra no papel de pai, de professor, de juiz. de médico, etc.).

É lógico que as representações que o produtor mantêm sobre o seu papel e sobre o papel do interlocutor estão estreitamente relacionadas. Ainda mais: estão relacionadas com um terceiro tipo de representação que diz respeito ao lugar social em que o texto circula ou vai circular. Do mesmo modo que as anteriores, essas representações vão em dois sentidos: de um lado, o produtor do texto tem representações sobre o lugar físico em que produz o texto, mas tem também representações sobre a instituição social, isto é, a “zona de atividade social” na qual circula o texto. Como exemplos dessas instituições, temos: econômicas e comerciais, políticas e governamentais, midiáticas, escolares, acadêmico-científicas, familiares, de saúde, de repressão, esportivas, de lazer, literárias, entre outras.

O quarto tipo de representação diz respeito ao momento da produção (a data em que se produz um determinado texto e o respectivo contexto histórico-social).

Finalmente, o quinto tipo de representação diz respeito ao(s) objetivo(s) que o produtor do texto busca alcançar com ele, isto é, ao(s) efeito(s) que quer produzir no(s) interlocutor(es), como, por exemplo, convencê-lo(s) de alguma coisa, aumentar seus conhecimentos, fazer com que faça(m) alguma coisa, etc.

Além disso, para produzir um texto, é necessário mobilizar determinados conteúdos temáticos que já temos na mente ou que, conforme a situação, devemos buscar, pesquisando sobre eles, de acordo com as necessidades de produção.

Além dessas representações sobre esses elementos do contexto de produção em que nos encontramos, temos também uma certa idéia de que tipo de texto que deve ser construído nesse contexto. Em outras palavras, conforme já vimos anteriormente, para cada contexto, quando o conhecemos, sabemos que devemos escolher um ou outro gênero que lhe seja mais apropriado e com o qual possamos atingir de forma mais eficaz os objetivos que perseguimos.

Todos esses fatores acabam por ter uma influência direta sobre o texto que efetivamente produzimos, em várias de suas características, como, por exemplo, em relação ao léxico escolhido, ao tamanho das orações, à forma de relacionarmos suas partes, à utilização ou não de pronomes pessoais de primeira ou segunda pessoa, ao plano global do texto, à utilização dos tempos verbais, à própria seleção dos conteúdos temáticos, à maior ou menor “correção gramatical”, etc. Em suma, não falamos ou escrevemos sobre qualquer coisa, de qualquer forma, a qualquer pessoa, em qualquer lugar.

Assim, quando temos de produzir textos escritos ou orais, precisamos ter claro, para nós mesmos, quais são as nossas representações sobre os elementos do contexto de produção e qual é o gênero mais adequado para que possamos agir com a linguagem nesse contexto. Muitas das dificuldades de desempenhar essa ação podem ser derivadas exatamente de representações não adequadas, não aceitas socialmente, e de um desconhecimento das características dos gêneros que devemos utilizar.

Se as representações do contexto e os conhecimentos sobre os gêneros orais, não formais, do cotidiano, vão-se construindo, à medida que, desde a infância, vamo-nos desenvolvendo e entrando em diferentes contextos sociais, o mesmo não é verdade em relação às representações e aos gêneros relacionados a situações mais formais. É na escola, por meio do ensino formal, que esses conhecimentos vão sendo desenvolvidos.

Concluindo, quando falamos / escrevemos, sobretudo em situações mais institucionalizadas, não falamos apenas como indivíduos isolados, sem nenhuma restrição social. Ao contrário, assumimos determinado papel social, buscando construir determinada imagem para o outro, com um determinado objetivo, para um destinatário que também desempenha um determinado papel social, e dentro de uma atividade social para a qual normalmente existem gêneros apropriados, com características próprias.

Elementos do contexto de produção (esquema)

  • Autor
  • Papel social do autor
  • Imagem que o autor passa de si mesmo
  • Destinatários possíveis do texto
  • Papel social dos destinatários
  • Locais onde o texto circula
  • Momento da publicação
  • Objetivo do autor do texto
  • Conteúdos temáticos
  • Gênero do texto

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Com iPad, jornal digital se tornará mídia de massa

ENTREVISTA KEN DOCTOR

Com iPad, jornal digital se tornará mídia de massa

GURU DA NOVA MÍDIA, O CONSULTOR AMERICANO KEN DOCTOR AFIRMA QUE OS LEITORES VÃO PREFERIR PAGAR PELO NOTICIÁRIO DIGITAL DE SEU INTERESSE APESAR DA OFERTA GRATUITA NA WEB

LUCIANA COELHO

EM BOSTON

Entre os muitos gurus com previsões sobre a nova mídia, o americano Ken Doctor se sobressai pelo otimismo pragmático de quem vê um futuro feliz para o jornalismo, mas não sem percalços.

Para ele, a seleção natural pela qual só os mais adaptados sobreviverão é inevitável nessa transição tecnológica.

E nada serve melhor a esse teste do que “The Daily”, o jornal exclusivo para iPad lançado na última quarta-feira pelo bilionário e pioneiro da mídia Rupert Murdoch.

O consultor vê o novo jornal como um marco na indústria da mídia voltada para as massas. A primeira revolução, diz, é o preço. O leitor paga, sim, mas em vez de uma assinatura o modelo será o do iTunes, com um aplicativo vendido a US$ 0,99 (R$ 1,66) semanais.

A outra é a interatividade -farta, mas sem pirotecnias, de forma a guardar propositadamente a imagem de uma revista ou um jornal.

A Folha ouviu Doctor no dia do lançamento do “Daily”. A fórmula, afirma, criará um veículo de massas que vai acelerar a migração do impresso para os tablets -embora ele ressalte que os primeiros não vão deixar de existir tão cedo.

Folha – O “Daily” apresentou uma primeira edição caprichada, à qual o sr. se referiu como uma revista eletrônica. Essa qualidade sobreviverá ao ritmo diário?

Ken Doctor – Essa é a grande pergunta. Fazer isso todo dia com 130 pessoas entre editorial e produção parece uma subestimação. Claro que esperamos que, conforme eles peguem a manha, a coisa se torne mais fácil, mas é um desafio enorme.

Agora, se o “Daily” for bem-sucedido, terá criado um novo patamar no mundo das notícias. E todos os jornais que estão planejando produtos para tablets terão um modelo a superar.

Algumas pessoas no Twitter reclamaram que o “Daily” ainda parece um grande arquivo PDF, e muita gente esperava mais elementos interativos. Houve uma contenção proposital para guardar a semelhança com um jornal?

O consumidor-padrão não passa o dia no Twitter. Creio que seja uma decisão consciente por uma apresentação mais familiar. Foi uma jogada esperta: querem a massa, não a turma da tecnologia.

É uma mistura de revista, jornal e TV, as pessoas sabem como lê-lo. E, como falta interatividade em geral, as pessoas ficam felizes quando conseguem um pouco.

Com o iPad a US$ 500, dá para ser um produto de massa?

Não vai custar US$ 500 por muito tempo. A projeção da [consultoria] eMarketer é que até o fim de 2012 se chegue, no mundo, a 80 milhões de tablets. Mesmo que isso esteja 50% exagerado, o preço já vai cair significativamente.

Logo teremos o iPad 2, com um preço parecido com o primeiro, talvez um pouco menos, mas aí vão surgir versões menos poderosas, e então veremos os preços caírem para US$ 299. É o preço de um smartphone.

Vai se tornar um produto de massa e vai acelerar a transição do impresso para o digital. O tablet é o primeiro produto de substituição, neles a leitura é mais prazerosa e as pessoas passam mais tempo [do que nos sites], como nos jornais impressos.

O grande desafio não será cobrar os leitores pelo noticiário digital, mas sim fazer a transição do modelo com os anunciantes.

Qual é a expectativa deles pelo “Daily” e os demais jornais em iPad?

Em 2010, os poucos que lançaram aplicativos no iPad acharam uma pequena mina de ouro, mas a renda veio sobretudo de anunciantes-patrocinadores [que subsidiaram os aplicativos ao leitor].

A questão é quão bom pode ser o anúncio no tablet, quantas formas de colocar o anunciante há, que tipos de técnicas serão usadas… Por ora, sabemos que os anunciantes gostaram da interatividade, como o consumidor.

O “Daily” vai conseguir cobrir custos com anúncios?

Para cobrir metade do custo anual, que segundo Murdoch é de US$ 25 milhões, eles precisariam ter de 450 mil a 500 mil assinantes -e o resto viria de publicidade.

É um numero alto, mas é viável. Só não acho que vai ser fácil. Eles devem conseguir logo 100 mil assinantes, e depois vão brigar para chegar a 200 mil. Aí temos de ver o que farão os outros jornais, como o “New York Times”.

Qual é a matemática por trás de US$ 0,99 por semana? O apelo?

Sim, o apelo. É um número do iTunes. Um número no qual você não precisa parar para pensar.

E o que o Murdoch mais quer é derrubar o “New York Times”. O preço do “Times” deve ficar em US$ 240 por um combo de acesso ao site, ao tablet e ao smartphone.

O leitor vai comparar. O “Times” ainda tem uma equipe superimportante. Mas o “Daily” é divertido de ler.

No lançamento do “Daily”, falou-se pouco em linha editorial e conteúdo noticioso. A plataforma se tornou mais importante que o conteúdo?

O “Daily” é o “USA Today” [jornal que nos anos 80 desenvolveu uma edição enxuta, maior apelo visual e ênfase também em entretenimento e esporte] de 2011. Acho que o “Daily” copiou a fórmula e a atualizou.

Claro que as pessoas querem as notícias do dia. Mas, como no “USA Today”, esporte e entretenimento são também muito importantes.

Já em termos políticos, acho que vai ser mais apolítico ou voltado para a comunidade [os veículos de Murdoch, como o "Wall Street Journal" e a FoxNews, são conservadores]. Isso vai lhes dar mais público.

E o sr. acredita que as pessoas vão querer pagar, com tantas notícias on-line de graça?

As pessoas não gostam de pagar por nada, mas a gente paga para ter coisas das quais precisamos.

Não é todo mundo que vai topar, mas acho que usaram o preço de forma eficiente. E, como só tem no tablet, você não vai comparar com sites de notícias. Vai comparar com aplicativos. É essa a psicologia por trás do preço.

O fato de o “Daily” existir apenas em tablet, longe de sistemas de busca -embora esteja nas redes sociais- não o prejudica?

Sim, mas é uma troca. Ao se lançar como exclusivo para tablet, conseguiu enorme visibilidade. Era o aplicativo da semana na loja on-line da Apple. Se continuar visível assim durante a venda do iPad 2, vai lucrar muito.

Se os tablets são o caminho a seguir no jornalismo, o sr. vê uma transição completa?

Não no caso das empresas “mainstream”, que podem ter um produto alternativo para o tablet, mas ainda estão ganhando dinheiro com o impresso e querem manter essa fonte de renda. Afinal, o jornal impresso, depois de algumas perdas e cortes, voltou a ser lucrativo.

Folha de S. Paulo, Mercado, segunda-feira, o7 de fevereiro de 2011.

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O papel do jornalista investigativo versus ética profissional

Bolsista: Géssica Brandino Gonçalves (Curso: Jornalismo).
Orientador: Prof. Dr. Sérsi Bardari.
Área do Conhecimento: Ciências Humanas.

RESUMO

[INTRODUÇÃO] O olhar crítico sobre a realidade e a denúncia de irregularidades na garantia dos direitos da população só são possíveis mediante provas concretas, obtidas por meio do trabalho de investigação. A proposta desta pesquisa é abordar o papel desempenhado pelo jornalista como investigador na sociedade, seus métodos e limites, a partir do estudo de dois casos específicos: a morte do jornalista Tim Lopes e a reportagem do jornal Folha de S. Paulo “Dantas é alvo de outra investigação da PF”, da jornalista Andréa Michael, que antecipou dados da operação Satiagraha, abordando dilemas éticos com os quais o profissional se depara. [METODOLOGIA] Esta pesquisa caracteriza-se como estudo de caso. O estudo foi realizado por meio da atuação dos jornalistas Tim Lopes e Andréa Michael na cobertura dos fatos mencionados. [RESULTADOS/DISCUSSÃO] A maioria dos crimes contra jornalistas permanece sem solução. Tim Lopes era experiente, mas subestimou o risco que corria. A morte de Tim gerou o debate sobre métodos e medidas de segurança utilizadas pelo jornalista investigativo. Já nas altas esferas de poder, o repórter pode ser corrompido pela fonte, além de estar sob risco de interferência da empresa jornalística para a qual atua. A matéria “Dantas é alvo de outra investigação da PF”, embora exclusiva, foi publicada sem chamada na 1° página. A reportagem foi publicada após a venda da Brasil Telecom e prejudicou apenas a Polícia Federal. [CONCLUSÕES] O jornalismo investigativo, quando realizado dentro de bases éticas, contribui tanto para a sociedade como para a empresa, dando-lhes credibilidade, mas é preciso ressaltar que “a denúncia de um ato criminoso não justifica a prática criminosa” e que uma matéria não pode valer uma vida.

Veja relatório completo no link abaixo.
BAIXAR / IMPRIMIR: GONÇALVES, Géssica Brandino – O papel do jornalista investigativo versus ética profissional

A saída de Marina Silva do Ministério do Meio Ambiente: o que a imprensa investigou

Bolsista: Fernando Bocalari (Curso: Jornalismo).
Área de conhecimento: Ciências Humanas.
Orientador: Prof. Dr Sérsi Bardari.

RESUMO

[INTRODUÇÃO] O jornalismo investigativo demanda tempo e apuração minuciosa dos fatos. Com a diminuição dos jornalistas nas redações informatizadas e a velocidade das informações, cada vez se apura menos os fatos e também as fontes. Isso resulta diversas vezes em informações inverídicas, parciais e que, não raras vezes, servem apenas para divulgar interesses e opiniões de determinados grupos. [METODOLOGIA] Foram analisados os fatos sobre o pedido de demissão de Marina Silva publicados nas revistas Época, Isto É e Veja. Para isso, foram desenvolvidos alguns critérios de análise: efeito de objetividade do texto, origem das fontes, apuração das declarações, coerência das informações, contexto histórico, político e social. [RESULTADO/DISCUSSÃO] Cada revista priorizou lados diferentes do fatos, o que se pode notar já pelo título e também no decorrer do texto. A revista Época, com o título “De Ipanema para a floresta”, prioriza a posse do novo ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, que mora em Ipanema, no Rio de Janeiro. Desse modo, a revista ignora a conturbada saída de Marina. No título da Isto É – “Marina fica sem Ambiente” –, a revista prioriza a saída de Marina, além de construir um sentido ambíguo, por meio da utilização da palavra “ambiente”. Um dos significados sugeridos é meramente informativo, relacionado com a própria saída de Marina Silva do Ministério do Meio Ambiente. O segundo aproxima-se da ideia de animosidade do governo para com a ex-ministra. A revista Veja, com o título “O desafio da economia verde”, demonstra posicionamento desfavorável à Marina Silva e também a Carlos Minc. [CONCLUSÃO] A revista Isto É parece ser incoerente em suas conclusões. Apresenta diversas ideias favoráveis à Marina, e finaliza a reportagem com uma declaração de seis linhas cujo sentido se contrapõe ao que foi dito anteriormente. A revista Veja critica arduamente o governo, mas as ideias apresentadas ao longo da matéria e a conclusão da reportagem apresentam muitas afirmações sem justificativas plausíveis. Finalmente, a revista Época é a mais lógica e imparcial. Porém, deu foco muito maior à entrada do novo ministro do que à saída da ministra anterior. [AGRADECIMENTOS] Agradeço ao meu orientador, Sérsi Bardari, à Universidade de Mogi das Cruzes e a todos os profissionais de comunicação consultados para a realização desta pesquisa.

Veja relatório completo no link abaixo.
BAIXAR / IMPRIMIR: BOCALARI, Fernando – A saída de Marina Silva do Ministério do Meio Ambiente – o que a imprensa investigou

O mito da cosmogonia em Narradores de Javé

Bolsista curso de Jornalismo: Artur Gabriel Ferreira Guimarães.
Área de conhecimento: Ciências Humanas.
Orientador: Prof. Dr. Sérsi Bardari.

RESUMO

[INTRODUÇÃO] O filme Narradores de Javé, dirigido por Eliane Caffé, conta a história de um povoado que corre o risco ser inundado para que, no local, seja construída uma barragem. Os moradores se reúnem para discutir sobre a ameaça iminente e concordam que a única salvação seria a elaboração de um relatório científico, que elevasse o vilarejo à condição de patrimônio histórico. Segundo eles, Javé tinha algum valor devido à história de sua origem. Antônio Biá, único adulto alfabetizado do local, é incumbido da tarefa de ouvir as narrativas e produzir um “relatório científico”. Em meio aos diferentes depoimentos sobre a origem do local, desenrola-se a trama do filme, na qual não faltam referências aos mitos de “criação” regionais, nacionais e universais. [METODOLOGIA] Levantamos a descrição de alguns símbolos e referências bíblicas mobilizadas pelo enredo do filme, como por exemplos sino, São Jorge, água, Moisés, terra prometida, além de referências a mitos indígenas e universais. Para relatar o modo como o filme representa a história oral e como constrói sua significação, analisamos o conjunto dos elementos simbólicos encontrados na obra, com o auxílio de bibliografia apropriada. [RESUTADOS/DISCUSSÃO] O enredo destaca o prazer do povo em contar causos e mostra que a memória subjetiva seleciona o que deve ser lembrado e esquecido, ou seja, a história é construída por interesses pessoais. No filme, as personagens masculinas apontam Indalécio como o herói que guiou seu povo à terra prometida, já as personagens do sexo feminino dão igual importância à Maria Dina. [CONCLUSÃO] Um dos aspectos a ser ressaltado no filme é que o único capacitado a escrever possui bem mais talento do que caráter, o que pode gerar discussão no sentido de que, mesmo em documentos oficiais, o fato de um indivíduo estar por traz do registro deveria tornar igual o ceticismo em relação à oralidade e à escrita. Tanto a história oral quanto a baseada na escrita estão sujeitas à subjetividade e aos interesses típicos da natureza humana.

Veja relatório completo no link abaixo:
BAIXAR / IMPRIMIR: GUIMARÃES, Artur Gabriel Ferreira – O mito da cosmogonia em Narradores de Javé

Felicidade nas telas

CONTARDO CALLIGARIS

A necessidade de mostrar ao mundo um semblante feliz é uma das grandes fontes de infelicidade

UMA AMIGA inventou um jeito de curtir sua fossa. Depois de um dia de trabalho, de volta em casa, ela se enfia na cama, abre seu laptop e entra no Facebook.
Ela não procura amigos e conhecidos para aliviar o clima solitário e deprê do fim do dia. Essa talvez tenha sido a intenção nas primeiras vezes, mas, hoje, experiência feita, ela entra no Facebook, à noite, como disse, para curtir sua fossa. De que forma?
Acontece que, visitando as páginas de amigos e conhecidos, ela descobre que todos estão muito bem: namorando (finalmente), prestes a se casar, renovando o apartamento que sempre desejaram remodelar, comprando a casa de praia que tanto queriam, conseguindo a bolsa para passar dois anos no exterior, sendo promovidos no emprego ou encontrando um novo “job” fantasticamente interessante. E todos vivem essas bem-aventuranças circundados de amigos maravilhosos, afetuosos, alegres, festeiros e sempre presentes, como aparece nas fotografias postadas.
Minha amiga, em suma, sente-se excluída da felicidade geral da nação facebookiana: só ela não foi promovida, não encontrou um namorado fabuloso, não mudou de casa, não ganhou nesta rodada da loto. É mesmo um bom jeito de aprofundar e curtir a fossa: a sensação de um privilégio negativo, pelo qual nós seríamos os únicos a sofrer, enquanto o resto do mundo se diverte.
Numa dessas noites de fossa e curtição, minha amiga, ao voltar para sua própria página no Facebook, deu-se conta de que a página não era diferente das outras. Ou seja, quem a visitasse acharia que minha amiga estava numa época de grandes realizações e contentamentos. Ela comentou: “As fotos das minhas férias, por exemplo, esbanjam alegria; elas não passaram por nenhum photoshop, acontece que são três ou quatro fotos “felizes” entre as mais de 500 que eu tirei”.
Logo nestes dias, acabei de ler “Perché Siamo Infelici” (porque somos infelizes, Einaudi 2010, organizado por P. Crepet). São seis textos de psiquiatras e psicanalistas (e um de um geneticista), tentando nos explicar “por que somos infelizes” e, em muitos casos, por que não deveríamos nos queixar disso.
Por exemplo, a infelicidade é uma das motivações essenciais; sem ela nos empurrando, provavelmente, ficaríamos parados no tempo, no espaço e na vida. Ou ainda, a infelicidade é indissociável da razão e da memória, pois a razão nos repete que a significação de nossa existência só pode ser ilusória e a memória não para de fazer comparações desvantajosas entre o que alcançamos e o que desejávamos inicialmente.
Não faltam no livro trivialidades moralistas sobre o caráter insaciável de nosso desejo ou evocações saudosistas do sossego de algum passado rural. Em matéria de infelicidade, é sempre fácil (e um pouco tolo) culpar a sociedade de consumo e sua propaganda, que viveriam às custas de nossa insatisfação.
Anotei na margem: mas quem disse que a infelicidade é a mesma coisa que a insatisfação? E se a infelicidade fosse, ao contrário, o efeito de uma saciedade muito grande, capaz de estancar nosso desejo? Que tal se a infelicidade não tivesse nada a ver com a ansiedade das buscas frustradas, mas fosse uma espécie de preguiça do desejo, mais parecida com o tédio de viver do que com a falta de gratificação? Em suma, você é infeliz porque ainda não conseguiu tudo o que você queria, ou porque parou de querer, e isso torna a vida muito chata?
Seja como for, lendo o livro e me lembrando da fossa de minha amiga no Facebook, ocorreu-me que talvez uma das fontes da infelicidade seja a necessidade de parecermos felizes. Por que precisaríamos mostrar ao mundo uma cara (ou uma careta) de felicidade?
1) A felicidade dá status, como a riqueza. Por isso, os sinais aparentes de felicidade podem ser mais relevantes do que a íntima sensação de bem-estar;
2) além disso, somos cronicamente dependentes do olhar dos outros. Consequência: para ter certeza de que sou feliz, preciso constatar que os outros enxergam minha felicidade. Nada grave, mas isso leva a algo mais chato: a prova de minha felicidade é a inveja dos outros.
O resultado dessa necessidade de parecermos felizes é que a felicidade é este paradoxo: uma grande impostura da qual receamos não fazer parte e que, por isso mesmo, não conseguimos denunciar.

Folha de S, Paulo, Ilustrada, quinta-feira, 23 de setembro de 2010, p. E14

SALVAR/IMPRIMIR: Felicidade nas telas – Contardo Calligaris

“Tela lança choques sensuais assim como injeções de heroína”

ENTREVISTA CHRISTOPH TÜRCKE

Para pensador alemão, autor de “Sociedade excitada” e “Filosofia do sonho” , usuários high tech são vítimas de “distração concentrada”

MARCOS FLAMÍNIO PERES
DE SÃO PAULO

A sociedade do espetáculo do pós-Guerra se transformou hoje na sociedade da sensação, mergulhada num excitamento contínuo de efeito similar ao das drogas. Essa alarmante tese high tech é defendida pelo filósofo alemão Christoph Türcke, que estará em São Paulo na semana que vem para lançar os livros “Sociedade Excitada” e “Filosofia do Sonho”.
Se o marxista francês Guy Debord atacou o consumismo em sua obra pioneira de 1967 (“A Sociedade do Espetáculo”), Türcke defende que o aprofundamento da revolução tecnológica, no final do século 20, provoca um frenesi viciante de “choques” imagéticos e visuais. “Trata-se de injeções sensuais”, afirma na entrevista abaixo à Folha.
Assim como as drogas evoluíram em potência -do ópio para a morfina e heroína, das bebidas fermentadas para as destiladas-, a “metralhadora audiovisual” contemporânea provocou um aumento de dependência por parte de seus “usuários”. “Isso é o que chamo de distração concentrada.” Herdeiro da Escola de Frankfurt, que fundia marxismo e psicanálise, Türcke conclui que a sociedade da sensação se materializa no fetiche. Pois, diz, “fetiches são sintomas de abstinência, substitutos de algo de que se foi dolorosamente privado”.

Folha – O conceito de “sociedade da sensação” não é intelectualista demais?
Christoph Türcke
– Pelo contrário. Parte de um ponto de vista sensualista, para não dizer fisiológico. Avalia como a máquina audiovisual, que emite seus choques imagéticos 24 horas por dia, se impõe ao sensório humano. Tais choques, que se vive com cada nova focagem de câmara, têm o efeito de injeções sensuais.

Como assim, injeções sensuais?
Qualquer corte imagético, qualquer nova focagem, tem o caráter de um projétil, como diz Walter Benjamin [1892-1940]. Penetra no espectador abruptamente, desencadeando uma dose de adrenalina.

Como o vício define a sociedade da sensação?
Vício como fenômeno particular -como dependência física de certas substâncias (drogas)- está modificando um fenômeno geral, pois a máquina audiovisual também vicia. Quem presta atenção à tela se dedica a ela, vive uma dependência crescente dela, vincula suas expectativas, sua economia emocional e intelectual a ela. Assim como o drogado aplica injeções de heroína, uma sociedade que depende da tela se expõe a bilhões de choques imagéticos. O choque singular é mínimo, quase imperceptível e não faz mal. Bilhões, no entanto, destroem justamente a atenção que elas atraem magneticamente.

Então, em um mundo conectado como o atual, as pessoas estão virtualmente viciadas?
O vício é real. Surge em organismos físicos, não num agregado de pixel. O mundo virtual tem sua própria realidade, uma realidade prepotente, mas por outro lado fraquíssima, muito fugaz, não consistindo senão numa constelação de impulsos eletrônicos. Ao desligar a eletricidade a virtualidade inteira desaparece.

Citando Trótski, o sr. propõe uma relação íntima entre igreja, cinema e álcool. Qual a razão disso?
Trótski não percebeu o alcance da sua própria observação. O vício tem um subtexto teológico. Cada nova injeção atua como promessa. O viciado quer cada vez mais, é insaciável, pois quer viver “o inédito”, que o vem salvar. Igreja, cinema, botequim: todos os três nutrem expectativas de salvação, cada um deles à sua maneira. O ateu Trótski tentava tirar a classe operária da aguardente ao reuni-la no cinema. Era a sua igreja.

O sr. diz que, com a invenção do destilado, destruiu-se a cultura do beber e também que a vitória da morfina e da heroína sobre o ópio mudou o padrão do “frenesi”, devido à multiplicação do efeito tóxico. Quais as implicações disso para a sociedade contemporânea?
Quanto mais forte, mais rápido o efeito. As drogas desenvolvem-se segundo as necessidades gerais de aceleração.

Então novas drogas, tanto químicas quanto “tecnológicas”, deverão necessariamente se desenvolver?
Se forem lucrativas, sim.

Parafraseando o “Manifesto Comunista”, de Marx e Engels, o sr. afirma que as pessoas não suportam “o peso da sobriedade”. Essa é uma característica da sociedade da sensação?
É. Marx e Engels não eram ascéticos, mas apostaram no domínio da razão sóbria, isenta de qualquer ópio físico ou metafísico. Eram, em outras palavras, racionalistas ilusionistas, subestimaram o homem enquanto ser pulsional que nunca vai se livrar de todas as expectativas de salvação. Não adianta recalcar tais expectativas, trata-se de lidar com elas de modo racional e reflexivo. Mas o sensacionalismo de hoje não dá espaço a tal reflexão. A metralha audiovisual torna o desvio o caminho principal.

Então a “metralhadora audiovisual” liquida a perspectiva de alguma salvação?
Não necessariamente. Não vivemos num mundo predeterminado. O livre arbítrio não está liquidado. As forças dominadoras sempre provocam forças de resistência, tanto em termos educacionais quanto sociais. A história continua em aberto.

O sr. é um crítico da “dupla estratégia” do Greenpeace, de criticar e condescender? Qual a implicação disso para o movimento ambientalista?
Constato, não critico a “dupla estratégia”. Observo, porém, que ela sempre indica fraqueza social. São minorias que têm necessidade de usá-la. Organizações não governamentais como o Greenpeace agem sob as mesmas coações comerciais que as grandes empresas. Elas têm que colaborar com forças sociais que, ao mesmo tempo, estão combatendo. Não escapam da ambiguidade. Entretanto, isso de nada serve se não arriscar o ambíguo.

A vida é sonho?
Seria bonito. Mas não é assim. A vida é um conjunto de vários estados. Um deles é o sonho. Representa o subsolo da nossa vida, É a massa de fermentação de todos os nossos desejos, planos, projetos. Ninguém aguenta a vida sem sonho. Sem sonho não há esperança, não há humanidade.


FILOSOFIA DO SONHO

AUTOR Christoph Türcke
TRADUÇÃO Paulo Rudi Schneider
EDITORA Unijuí
QUANTO R$ 48 (328 págs.)
AVALIAÇÃO bom

SOCIEDADE EXCITADA

AUTOR Christoph Türcke
TRADUÇÃO Vários tradutores
EDITORA Unicamp
QUANTO R$ 88 (328 págs.)
AVALIAÇÃO bom
LANÇAMENTO 9/9, às 19h, no Instituto Goethe (rua Lisboa, 974, tel. 0/xx/11/3296-7000), com tradução simultânea

Folha de S, Paulo, Ilustrada, quinta-feira, 4 de setembro de 2010.

SALVAR / IMPRIMIR: Entrevista Christoph Türcke

Teoria da comunicação

Toda comunicação tem por objetivo a transmissão de uma mensagem, e se constitui por um certo número de elementos. Por meio desses slides, apresentam-se os principais conceitos da Teoria da Comunicação.

VANOYE, Francis.  Usos da linguagem: problemas e técnicas na produção oral e escrita.  9.ed., São Paulo, Martins Fontes, 1993.

Ver slides: Teoria da Comunicação

A infoera

“Estamos talvez diante do maior desafio enfrentado pela sociedade humana: a Infoera, que traz em seu bojo uma plêiade de promessas, que poderão resultar numa idade de ouro para todas as artes e ciências e uma infinidade de ameaças que poderão resultar numa divisão da humanidade em rígidas castas sociais, e numa nova Idade das Trevas que poderá perdurar por muitos e muitos séculos.”

ZUFFO, João Antonio.  A infoera: o imenso desafio do futuro.  São Paulo, Saber, 1997.

Ver slides: A Infoera