Arquivo do autor:sersi

Intertextualidade: Lenine e Jackson do Pandeiro

É comum termos a sensação de sermos a fonte original de nossas manifestações a respeito do mundo que nos cerca. Se sou conclamado a dar uma opinião, se resolvo criar um poema, um conto ou um romance; se decido compor uma música, criar um roteiro teatral ou cinematográfico, pintar um quadro… Enfim, se decido expressar-me de alguma maneira, em geral, quero ser completamente inovador.

Mas será isso possível? Infeliz ou felizmente, a resposta é não. Somos produto de todas as influências que recebemos desde o nascimento. As relações sociais que estabelecemos em casa, na escola, no trabalho, ou seja, na vida em todos seus aspectos, moldam-nos irremediavelmente. Além disso, somos produto dos livros, jornais e revistas que lemos, dos noticiários que ouvimos, dos filmes a que assistimos, das campanhas publicitárias a que somos expostos.

Toda forma de expressão humana é, de certa maneira, o rearranjo de temas já abordados por outrem, de alguma outra forma, em algum outro tempo, em algum outro lugar. Vamos assistir a um trecho do show Lenine In Cité, no qual ele canta Jack Soul Brasileiro.

Pois bem, costumo apresentar esse vídeo em minhas aulas. Noto que vários alunos já conhecem a música. Gostam dela. Cantam a letra de cor, junto com cantor. Mas quando pergunto a eles a quem se refere o título da canção, ninguém sabe explicar. Dou sorriso, e continuo perguntando: “Quem é o rei da levada, para quem Lenine canta?” “Quem fez o samba embolar?” “Quem fez a ema gemer na boa?” “Quem fez do sapo cantor de lagoa?” “Quem fez o coco sambar?” “Que coco é esse capaz de sambar?”.  Silêncio total.

Óbvio!  Eles não são obrigados a saber, já que não é comum entre nós a valorização da memória cultural. Os mais antigos talvez se lembrem e percebam qual foi fonte de inspiração de Lenine. Para estes, ocorre de maneira inequívoca o fenômeno de linguagem a que se dá o nome de intertextualidade. Bem, aos que até aqui não identificaram quem é o homenageado pelo compositor pernambucano, vamos logo desvendar esse mistério por meio do vídeo abaixo.

A referência a Jackson do Pandeiro aparece tanto no título – Jack Soul Brasileiro – quanto na temática da música de Lenine. Os dois músicos tratam da identidade cultural brasileira, mas de maneira acentuadamente distinta.

Chiclete com Banana (por acaso, você conhece uma banda com esse nome?), do compositor paraibano, é um manifesto de resistência ao imperialismo norte-americano.

Eu só boto bebop no meu samba / Quando Tio Sam tocar um tamborim / Quando ele pegar no pandeiro e no zabumba / Quando ele aprender / Que o samba não é rumba [...]

Já a letra de Lenine, ao contrário, é a constatação do neocolonialismo ianque irreversível

Já que subi nesse ringue / E o país do swing / É o país da contradição [...] Dessa alma brasileira / Despencando da ladeira / Na zueira da banguela.

A difereça de olhar sobre a cultura norte-americana só pode ser explicada pelo tempo. Marcada pela contemporaneidade, a obra de Lenine não teria como deixar de refletir a influência de ritmos estrangeiros. Jackson do Pandeiro, no entanto, por ter crescido em um Brasil predominantemente rural, em meio ao canto dos sapos na lagoa e ao gemido das emas, talvez ainda dispusesse da ousadia necessária para reafirmar suas genuínas fontes de inspiração.

 

A revolução do conhecimento

No livro Cultura da convergência (São Paulo, Aleph, 2009), Henry Jenkys analisa as transformações ocorridas nas atividades da sociedade a partir do avanço tecnológico. Logo na capa, é possível ler a seguinte epígrafe:

As mídias tradicionais são passivas. As mídias atuais, participativas e interativas. Elas coexistem. E estão em rota de colisão. Bem-vindo à revolução do conhecimento. Bem-vindo à cultura da convergência.

Agradecemos as boas-vindas, embora já participemos dessa cultura quase que obrigatoriamente, a despeito de termos sido ou não convidados pelo autor. A internet (internacional-networking)  surgiu nos anos 1960, ainda no período da Guerra Fria, como uma estratégia norte-americana de preservar as comunicações em caso de ataque dos inimigos aos meios tradicionais.

Nas décadas de 1970 e 1980, a rede mundial de computadores passou a ser utilizada também para fins acadêmicos. É a partir de 1990 que a rede começa a se popularizar. Primeiro no Estados Unidos e, em seguida, no mundo. No Brasil, a primeira transmissão a longa distância, entre São Paulo e Rio Grande do Sul, ocorreu em 1995. Daí em diante, acelera-se o ritmo da evolução.

Em setembro de 1998, surge nos EUA uma empresa chamada Google Inc. Em 2006, aparece a primeira rede social, o Orkut, logo seguida pelo Facebook, o Twitter e outras. Havia sido dada a largada para o advento ao qual o matemático estadunidense Norbert Wiener, lá no final dos anos 1940, já chamava de sociedade da informação (Cibernética, 1948). Segundo Wiener, nessa nova sociedade que ainda ainda estaria por vir, a troca de informações deveria circular sem barreiras.

Pois bem, essa nova era chegou e está irreversivelmente estabelecida. Hoje, um único meio físico, como o aparelho celular, por exemplo, pode levar vários serviços às pessoas. E também o contrário, um único serviço pode ser oferecido por várias formas físicas diferentes: desde o ponto de venda tradicional até as mais sofisticadas formas de comércio eletrônico.

Para Jenkys (op. cit), nossa sociedade contemporânea está marcada por três características relevantes: convergência dos meios de comunicação, cultura participativa e inteligência coletiva. O que esses três conceitos significam em nossa vida prática? Melhor deixar o próprio autor explicar:

A convergência não ocorre por meio de aparelhos, por mais sofisticados que venham a ser. A convergência ocorre dentro dos cérebros de consumidores individuais e em suas interações sociais com outros. Cada um de nós constrói a própria mitologia pessoal, a partir de pedaços e fragmentos de informações extraídos do fluxo midiático e transformados em recursos através dos quais compreendemos nossa vida cotidiana (p.30).

Em outras palavras, o fluxo de conteúdos, ao circular por meio de múltiplas plataformas de mídia – convencionais e interativas -, promove a participação ativa dos indivíduos no processamento, na distribuição e interpretação das informações, o que inevitavelmente resulta em um saber construído coletivamente. Essa forma de se relacionar com o conhecimento é o que difere nossa época de todas as anteriores. A grande revolução da contemporaneidade é a democratização do saber.

A filósofa e psicóloga brasileira Viviane Mosé discute esse assunto com muita propriedade em entrevista à TV do Centro Universitário Una, de Minas Gerais (vídeo publicado no Youtube em 03 jan 2014). Deixemos a palavra com ela:

 

 

Materialidade linguística

A língua é matéria?

Quando digo a meus alunos que o idioma é matéria, não raro a maioria me olha incrédula.  A estranheza talvez se dê pelo fato de pensarmos na linguagem mais imediatamente em sua modalidade oral. Uma vez que a língua é composta de sons, e o som, por sua vez, é considerado energia, torna-se esquisito mesmo imaginar a língua como algo material.

Mas é comum entre os estudiosos de Letras o uso da expressão materialidade linguística para fazer referência às possibilidades expressivas que um determinado idioma oferece a quem por meio dele fala e escreve. Certamente, essa é uma maneira metafórica de dizer que aquele que se apropria da língua encontra nela infinitas opções para forjar um estilo e, dessa forma, fazer de seus textos uma experiência agradável aos ouvintes e leitores com quem pretende interagir.

Em outras palavras, a língua é como se fosse o mármore do escultor, as tintas do pintor, o barro do ceramista. Cada um desses tipos diferentes de artistas compartilham da mesma matéria-prima, mas com ela fazem obras diferentes. O filme aí em baixo mostra alguns mestres coreanos trabalhando a arte da cerâmica. Embora se utilizem do mesmo material, a argila, criam linguagens totalmente diferentes.

O mesmo ocorre entre os escritores, que têm no idioma a materia-prima para suas obras. E como é maleável a língua! Verdadeiramente plástica! Um grande escritor molda-a o quanto queira, na medida do seu talento. É o que faz Guimarães Rosa, em Grande Sertão Veredas. Inspirado no falar mineiro apresenta um português todo inventado.

De primeiro, eu fazia e mexia, e pensar não pensava. Não possuía os prazos. Vivi puxando difícil de difícil, peixe vivo no moquém: quem mói no asp’ro não fantasêia. Mas, agora, feita a folga que me vem, e sem pequenos dessossegos, estou de range rede. E me inventei nesse gosto de especular ideia. O diabo existe e não existe. Dou o dito. Abrenúncio. Essas melancolias. O senho vê: existe cachoeira; e pois? Mas cachoeira é barranco de chão, e água caindo por ele, retombando; o senho consome essa água, ou desfaz o barranco, sobra cahoeira alguma? Viver é negócio muito perigoso [...] (Nova Fronteira, 2001, p. 26).

Em outra variante do português, a que nos chega de Moçambique, o mais que talentoso Mia Couto brinda-nos com deliciosas construções. Entre tantas outras encontradas no conjunto de sua obra, as seguintes foram retiradas de Último voo do flamingo (Cia das Letras, 2005).

Nu e cru, eis o fato: apareceu um pênis decepado em plena Estrada Nacional, à entrada da vila de Tizangara. Era um sexo avulso e avultado. Os habitantes relampejaram em face do achado (p.15).

Quando o silêncio clareia é que se escutam os escuros presságios (p.16).

O lugar não era distante e eu viajara mais lembranças que quilômetros. Desta vez, eu vinha quase sem mim, parecia um desqualquerficado (p.48).

Fiquei mudo e miúdo, à espera. Se temos voz é para vazar sentimento. Contudo, sentimento demasiado nos rouba a voz (pp. 111-2).

O tamarindo mais sua sombra: aquilo era feito para abraçar saudades. Minha infância fazia ninho nessa árvore (p.159).

Consciente das belezas sonoras que a linguagem verbal permite construir, Caetano Veloso faz expressiva ode à Língua Portuguesa. Na canção Língua, não só brinca com a sonoridade do idioma como também realça a generosidade do português brasileiro, que se deixa permear por vários vocábulos de outras culturas. A letra da música está logo abaixo do vídeo.

Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões
Gosto de ser e de estar
E quero me dedicar a criar confusões de prosódia
E uma profusão de paródias
Que encurtem dores
E furtem cores como camaleões
Gosto do Pessoa na pessoa
Da rosa no Rosa
E sei que a poesia está para a prosa
Assim como o amor está para a amizade
E quem há de negar que esta lhe é superior?
E deixe os Portugais morrerem à míngua
“Minha pátria é minha língua”
Fala Mangueira! Fala!

Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode esta língua?

Vamos atentar para a sintaxe dos paulistas
E o falso inglês relax dos surfistas
Sejamos imperialistas! Cadê? Sejamos imperialistas!
Vamos na velô da dicção choo-choo de Carmem Miranda
E que o Chico Buarque de Holanda nos resgate
E – xeque-mate – explique-nos Luanda
Ouçamos com atenção os deles e os delas da TV Globo
Sejamos o lobo do lobo do homem
Lobo do lobo do lobo do homem
Adoro nomes
Nomes em ã
De coisas como rã e ímã
Ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã ímã
Nomes de nomes
Como Scarlet Moon de Chevalier, Glauco Mattoso e Arrigo Barnabé
e Maria da Fé

Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode esta língua?

Se você tem uma idéia incrível é melhor fazer uma canção
Está provado que só é possível filosofar em alemão
Blitz quer dizer corisco
Hollywood quer dizer Azevedo
E o Recôncavo, e o Recôncavo, e o Recôncavo meu medo
A língua é minha pátria
E eu não tenho pátria, tenho mátria
E quero frátria
Poesia concreta, prosa caótica
Ótica futura
Samba-rap, chic-left com banana
– Será que ela está no Pão de Açúcar?
– Tá craude brô
– Você e tu
– Lhe amo
– Qué queu te faço, nego?
– Bote ligeiro!
– Arigatô, arigatô

Nós canto-falamos como quem inveja negros
Que sofrem horrores no Gueto do Harlem
Livros, discos, vídeos à mancheia
E deixa que digam, que pensem, que falem