Aos meus “irmãos” baianos

Creio que hoje seja um bom dia pra iniciar a seção de crônicas deste site.  Aqui nesta varanda-galeria-de-arte, praia de Stella Maris, Salvador, casa de Hilda Maria Salomão, ceramista reconhecida, amiga-irmã de mais de trinta anos, o assunto só poderia ser mesmo bem pessoal. O que, aliás, não deixa de ser apropriado, já que se trata da inauguração do espaço. Espaço que desejo utilizar como suporte virtual de impressões acerca da contemporaneidade.
Depois de muito tempo sem escrever nada que não fosse acadêmico e/ou didático, de editar nada que não fosse jornalístico, o texto corre amarrado; hesitante entre o formal e o informal; titubeante, entre a pontuação normativa e a expressiva; temeroso de levantar voos estilísticos; envergonhado ante a linha tênue entre o poético e o piegas. Mas, como não passar por isso? Como não sentir a dor e o prazer desse travo amargo e ao mesmo tempo doce que nos acomete quando se inicia um novo ciclo? Novo ciclo de que este próprio site é prenúncio e precursor.
A preencher de significação o momento, estou de novo na Bahia, terra à qual me sinto espiritualmente ligado, como se por uma espécie de segunda naturalidade. Até hoje não estou bem certo se eu a escolhi ou se foi ela que me escolheu. O fato é que aqui estão irmãos de alma, para perto dos quais a vida me trouxe, me traz sempre. Sempre que se faz necessário pontuar de alguma forma o texto de que se compõe a narrativa de nossa existência: a minha, a deles.
Nesses mais de trinta de anos, o intrincado enredo do desenvolvimento individual enovela-se na fascinante trama das relações. Vitórias aplaudidas, alegrias compartilhadas, dificuldades desabafadas, tristezas consoladas, medos encorajados. Sofrimentos e felicidades embalados pela certeza  do afeto do outro; do afeto ao outro.
Eis-me aqui em mais um momento marcante. Novo amor estabelecido. Sinais sensitivos de determinados atos chegando a um termo. Certezas convictas de transformações interiores.  Pontos luminosos indiciais de novos projetos.
O Brasil não ganhou a Copa do Mundo, mas eu sou puro agradecimento.

2 ideias sobre “Aos meus “irmãos” baianos

  1. ilan fainzilber

    Tenho a sensação de que este texto unge o leitor a uma condição de maior proximidade com o escritor ao mencionar, de forma desprendida, algo sobre sua individualidade.
    Creio que uma das maiores virtudes do ser pensante é ter a capacidade de constatar e admitir o fim de um ciclo em sua vida e conceber, então, o início de um novo.
    Talvez sejam mesmo só a maturidade e a sabedoria capazes de trazer ao vivente a compreensão de que, mesmo quando solto das amarras do saudosismo compulsório (e até balizador), ainda fazem (e sempre farão) parte de sua porção “gente” todas as personagens que lhe foram atribuídas ao longo de sua existência.
    Sigo procurando….

  2. Sérsi Bardari Autor do post

    Ilan,

    De fato, eu escrevi esse texto deixando bem transparente a relação autor/narrador. Trata-se de uma crônica de agradecimento às pessoas maravilhosas que conheço em Salvador. Durante os anos em que lá vivi, ganhei uma irmã e um irmão, como se fosse o reflexo no espelho daquilo que tenho aqui em São Paulo.
    Obrigado pelo seu comentário.

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