A troca verbal

Nas áreas de Letras, até o século 19, os estudiosos ocupavam-se preferencialmente em estudar a estrutura e a função expressiva das línguas. Pesquisava-se mais como o homem utilizava a linguagem para expressar sua própria individualidade, ou seja, para falar de si mesmo, para externar sua visão de mundo, suas opiniões e convicções.

Nos anos 50, Backhtin[1] passa a estudar questões relativas à troca verbal entre as pessoas, ou seja, a influência que o receptor da mensagem exerce sobre o modo como um determinado locutor se expressa. Segundo o autor[2] , o destinatário que recebe e compreende a significação de um discurso adota, simultaneamente, com relação a esse discurso uma atitude “responsiva ativa”. Em outras palavras, de uma forma ou de outra, esse destinatário dá uma resposta ao enunciado recebido.

Num processo de comunicação em que o receptor está presente, este interfere constantemente no processo de enunciação do locutor. Assim, quando estamos conversando com alguém, informal ou formalmente, esse alguém dificilmente porta-se como um ouvinte passivo, que está ali apenas para ouvir. Ele influencia de alguma forma o modo como falamos, concordando ou não com nossa opinião, demonstrando seu ponto de vista sobre o assunto tratado, acrescentando informações, fazendo objeções, executando uma instrução, ou seja, apresentando algum tipo de resposta ao nosso discurso, mesmo que essa resposta seja simplesmente uma confirmação de que compreendeu a mensagem.

O mesmo ocorre nos processos de comunicação em que a troca verbal se dá por escrito. O receptor de uma mensagem escrita quase nunca está diante do autor do texto, mas nem por isso este último deixa de imaginar e levar em consideração as repostas possíveis que, cedo ou tarde, seu interlocutor poderá dar a seu discurso. Quando escrevemos temos sempre uma intenção, um objetivo, com relação àquele que irá ler o nosso texto. Escrevemos para fazer alguém saber alguma coisa ou para fazer alguém fazer alguma coisa.

Aliás, é preciso atentar para o fato de que se falamos ou escrevemos também o fazemos em resposta à fala ou ao texto de outros. Isto porque nosso conhecimento de mundo não é construído de outro modo que não pela troca verbal. Tanto o conteúdo quanto a forma de nossos discursos são, portanto,  produtos do processo de interação social que se realiza por meio da comunicação. Só podemos falar sobre algo de que já ouvimos (ou presenciamos) antes, assim como só estamos aptos a escrever a partir de informações que já obtivemos anteriormente. E, para tanto, escolhemos o gênero de texto mais adequado a cada situação em que nos encontramos.

Ao fazermos uso da linguagem, mesmo sem o saber, levamos em consideração representações que temos a respeito do papel social que desempenhamos, do papel social desempenhado pelo nosso interlocutor, da instituição social à qual estamos inseridos. Isto quer dizer que adequamos nosso discurso a esses fatores que compõem o que se convencionou chamar de contexto de produção.

Em termos práticos, podemos simular aqui um contexto de produção, para que o conceito possa ser mais bem compreendido. Se alguém compra um determinado produto estragado ou com defeito e pretende ser ressarcido de eventuais prejuízos, deverá usar a linguagem para atingir seu objetivo, ou seja, obter a troca ou o conserto do produto ou, ainda, seu dinheiro de volta. Nesse caso, esse alguém, no papel social de consumidor, poderá escrever uma carta (gênero textual) para o fabricante do produto (papel social). Ao fazê-lo, o produtor do texto levará  em consideração a linguagem que normalmente circula nos meios empresariais (lugar social) e a imagem pré-concebida que faz da indústria para a qual escreve. Em sua mensagem irá transmitir a seu interlocutor uma imagem de si mesmo como alguém consciente a respeito de seus direitos como consumidor.

O mesmo ocorre em todas as outras situações de interação social. Ao interagirmos, sempre assumimos um determinado papel social, buscando construir uma determinada imagem para o outro, com um determinado objetivo, para um interlocutor que também desempenha um determinado papel social, e dentro de uma atividade social para a qual normalmente existem gêneros apropriados, com características próprias.


[1] BAKHTINE, Mikhaïl. Esthétique de la création verbale. Paris, Gallimard, 1984.

[2] Ibidem, p. 274.

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