Afro-descendente, filho de pai portorriquenho e mãe caribenha, Jean-Michel Basquiat largou a vida confortável de classe média alta, para viver nas ruas de Nova York, desafiar o racismo dos brancos norte-americanos e se tornar um dos mais importantes artistas plásticos do século XX

O grafite está em alta. De arte de rua, saltou para as galerias e, destas, chegou aos museus. Considerada por alguns como vanguardista, essa forma de manifestação é tão antiga quanto a idade da pedra. As pinturas rupestres feitas nas cavernas pelos homens primitivos nada mais são do que exemplos de grafites, que simbolizam o modo de vida da época.

Por utilizar o espaço urbano como suporte, o grafite é muitas vezes confundido com pichação, embora seja bem diferente desta. A pichação tem como base a escrita, dá destaque à letra, à palavra. Já o grafite busca referências nas artes plásticas. Trabalha com a forma, o volume, a perspectiva, a cor, entre outros recursos.

A prática de grafitar muros e paredes com inscrições de teor poético ou político ganhou impulso em maio de 1968, na cidade de Paris, a partir de onde explodiram no Ocidente os movimentos de contracultura. Inconformados com os rumos do capitalismo, jovens de vários cantos do planeta, munidos de tinta spray, foram às ruas expressar sua insatisfação.

De lá para cá, grafites de vários tipos e estilos eclodiram nas vias públicas como voz eloquente contra os privilégios das minorias elitistas, dominantes nos mais diversos setores da sociedade. Associados a diferentes movimentos e tribos urbanas, como o hip-hop, o grafite por muito tempo foi interpretado como transgressão, até se transformar em fenômeno compreendido e incorporado pelo mainstream.

Assim também ocorreu por aqui. Tanto é que, nas principais cidades brasileiras, o grafite faz parte da paisagem e já foi exposto em muitos museus. Nos grandes centros urbanos do país, convive-se com pinturas de artistas de renome internacional. OsGemeos, Nunca, Nina, Finok e Zefix são alguns dos mais famosos, com trabalhos em vários lugares do mundo. Mas se o grafite despontou em meio à cultura marginalizada e atingiu o status de arte, deve isso em grande parte à figura de Jean-Michel Basquiat.

Um dos pioneiros da chamada street art e, certamente, o mais célebre grafiteiro de todos os tempos, Basquiat tornou-se lenda ao passar feito meteoro pelo cenário artístico de Nova York e revolucionar o modo de ver a pintura nos Estados Unidos da América. Apadrinhado por Andy Warhol, pai da pop art, com quem compartilhou amizade e até mesmo a produção de vários trabalhos, Basquiat começou a pintar telas, e, de mero pichador, passou a ser considerado representante privilegiado de uma escola chamada neoexpressionista.

A partir de então, os trabalhos do artista receberam, por parte da crítica especializada, o rótulo de “primitivismo intelectualizado” e, em apenas três anos, de 1982 a 1985, conquistaram marchands, compradores e ganharam espaço em importantes galerias e museus dos Estados Unidos, Canadá, Holanda, Alemanha e Japão.

Tragédia, rebeldia e genialidade

Tanto a vida quanto a obra de Jean-Michel Basquiat foram marcadas por polêmicas, tragédias, atos de rebeldia e de genialidade. Ainda na infância, desenhava caricaturas e reproduzia desenhos animados dos programas de televisão. O passatempo favorito desse afro-descendente crescido no Brooklyn era freqüentar o MOMA – Museu de Arte Moderna, em Manhattan.

De origem caribenha, Jean-Michel nasceu em família de classe média alta. Era o mais velho dos três filhos de Gerard Jean-Baptiste Basquiat, ex-ministro do interior do Haiti que emigrou para os Estados Unidos, onde se tornou proprietário de grande escritório de contabilidade. A mãe, Mathilde Andrada, tinha origem portorriquenha.

Aos sete anos de idade, Basquiat sofreu um acidente que, por obra do acaso, o aproximou ainda mais da arte. Foi atropelado e submetido a uma operação no baço. Para distraí-lo durante o tempo em que ficou hospitalizado, a mãe deu a ele o clássico livro de anatomia Gray´s Anatomy. A obra não só o influenciou nas futuras pinturas que faria de corpos humanos, como na escolha do nome da banda que criaria em 1979: Gray´s, cujo repertório era baseado nos ritmos latinos de Porto Rico e do Caribe.

Apesar de ter nascido e crescido em Nova York, a cultura latina estava muito presente na formação de Basquiat, especialmente por ter vivido em Porto Rico entre os 15 e 17 anos de idade, após o divórcio dos pais. Em 1976, de volta à cidade natal, tentou, mas não conseguiu se adaptar aos estudos formais. Abandonou a escola, saiu de casa para morar com amigos, e passou a pintar camisetas, que vendia nas ruas.

Foi nessa época que, junto com o artista gráfico Al Diaz, começou a espalhar grafites nas paredes, portas, nos muros e metrôs da cidade, todos assinados com a marca SAMO, abreviatura de “same old shit” (mesma velha merda). A essas alturas, Basquiat já havia assumido sua condição de excluído, em uma sociedade até então extremamente racista, e passado a viver nas ruas.

Embora não dominasse técnicas do desenho clássico, o grafiteiro criou um estilo figurativo próprio. Suas pinturas, presentes em lugares inusitados, logo causaram forte impacto, especialmente pela rudeza e nervosismo dos gestos. O efeito de estranhamento, vigoroso e ao mesmo tempo intrigante, que emerge dos traços do artista logo chamou a atenção da imprensa.  Sua carreira estava começando. Basquiat passou a aparecer em um programa de TV a cabo e foi convidado a participar do filme Downtown 81, que relata o modo como ele buscava a sobrevivência, inserido em um contexto cultural que misturava hip-hop, new wave e o próprio grafite.

A fama trouxe dinheiro, convívio com pessoas famosas e o namoro com uma até então desconhecida cantora de nome Madonna.  Foi quando conheceu Andy Warhol, que ofereceu a ele espaço e material de trabalho, além de ajudá-lo a divulgar sua arte. Com isso, a vida de artista marginal estava definitivamente encerrada. Nas últimas intervenções nas paredes da cidade, Basquiat decretou: “SAMO is dead” (Samo morreu). O ex-grafiteiro tinha virado celebridade.

Sentimento de exclusão

Segundo Miguel Westerberg, artista plástico português radicado em São Paulo, Jean-Michel Basquiat “foi o último dos grandes artistas plástico da América do norte”. Junto com Warhol,  ele deu “ forma a uma nova linha de pensamento dentro da arte, quebrando de uma vez por todas com todos os tabus impostos até então pelos júris de salão”.

A arte de Basquiat, feita de rabiscos, escritas enigmáticas, pinceladas rápidas e nervosas, retrata personagens esqueléticos, rostos apavorados ou mascarados, prédios, carros, cenas da vida urbana, ícones negros do boxe e da música, sempre em telas grandes e cores muito fortes. O homem negro, em meio a composições caóticas, é uma constante em seus trabalhos, talvez como forma de expressar o sentimento de exclusão, que, ao que tudo indica, carregava na alma.

Mesmo no auge da fama, Basquiat apresentava comportamento excêntrico e praticava excessos de vários tipos, em resposta ao que entendia como racismo exacerbado da sociedade norte-americana.  A partir da morte do amigo e protetor Andy Warhol, em 1987, tornou-se depressivo, fato que se refletiu em suas pinturas.  A crítica especializada deixou de ser unanime com relação à qualidade da obra do artista.

Solitário e melancólico, Basquiat começou a abusar do consumo de drogas. Em agosto de 1988, morreu por overdose de heroína, antes de completar 28 anos de idade. A partir de então, obras do acervo do artista estiveram presentes nas mais importantes mostras de arte do mundo.

No Brasil, Basquiat foi homenageado com uma sala especial na 23ª Bienal de São Paulo, em 1996, e com uma retrospectiva na Pinacoteca do Estado de São Paulo, em 1998. Para quem quiser conhecer mais sobre a vida do artista, encontra-se disponível em locadora e lojas especializadas o filme Basquiat, dirigido por Julian Schnabel, com Jeffrey Wright, como Basquiat, e David Bowie, como Andy Warhol.

Obra de Basquiat no Brasil: um caso para a Interpol e o FBI

Hannibal, uma das telas mais importantes de Jean-Michel Basquiat, esteve envolvida no processo de denúncia oferecida em 2005 pelo Ministério Público Federal contra o ex-controlador do Banco Santos, Edemar Cid Ferreira, por lavagem de dinheiro, formação de quadrilha e gestão fraudulenta.  A denúncia foi aceita pelo juiz Fausto de Sanctis da 6ª Vara Criminal Federal de São Paulo (o mesmo que decretou as prisões dos envolvidos na operação Satiagraha). Com a decisão do juiz, o banco teve falência decretada e os bens do banqueiro foram apreendidos e ficaram à disposição da Justiça, como garantia para o acerto de contas.

Conhecido como grande colecionador de arte, Edemar Cid Ferreira era presidente da Fundação Bienal de São Paulo em 1996, ano da 23ª mostra do evento, que homenageou Basquiat com a exposição de parte do acervo do artista em uma sala especial. Pouco tempo depois, o ex-banqueiro fundou a Brasil Connects, entidade organizadora de megaexposições, como “Os Guerreiros de Xi´an” (2003), retrospectiva de “Picasso” (2004) e “Fashion Passion” (2004), todas na Oca, no Parque do Ibirapuera.

O acervo de arte de Cid Ferreira confiscado pela Justiça foi avaliado em R$ 200 milhões. Mas, segundo o jornalista Walter Nunes, da revista Época (28/02/2009), a coleção era muito mais rica. O ex-banqueiro é suspeito de ter driblado o bloqueio de seus bens e de ter vendido a colecionadores cerca de 30 de suas obras mais caras, entre as quais estava Hannibal, de Jean-Michel Basquiat.

Segundo informações de Denise Ballou, assessora do FBI (Federal Bureau of Investigation) a tela, avaliada em U$ 8 milhões, teria sido apreendida junto com outras obras de arte por fiscais federais americanos na cidade de Waterbury, Estado de Connecticut.

A informação de que a tela fazia parte dos bens do ex-banqueiro incluídos no “alerta vermelho” da Interpol foi transmitida em dezembro de 2007 pelo diretor da Polícia Federal, Luis Fernando Corrêa. À época, por meio de assessoria de imprensa, Cid Ferreira alegou nunca ter sido proprietário da valiosa obra.

Por que grafite?

A palavra grafite ou grafito vem do termo italiano graffiti, plural de graffito, utilizada desde o Império Romano para designar inscrições, verbais ou não-verbais, realizadas em suporte previamente não destinado para essa finalidade.

Tribos urbanas

Expressão utilizada para fazer referência a grupos de pessoas, geralmente jovens, com hábitos, valores culturais, preferência por estilos musicais e/ou ideologias políticas semelhantes. Algumas tribos contrapõem-se à ordem social vigente, enquanto outras se caracterizam por serem regidas apenas por interesses comuns.

Hip-hop

Movimento cultural iniciado nos bairros pobres de Nova York como decorrência da introdução do RAP nos Estados Unidos. O RAP, forma abreviada da expressão rhythm and poetry (ritmo e poesia), surgiu na Jamaica na década de 1960 e foi levado para os EUA no começo dos anos 1970. De lá, espalhou-se pelo mundo. Quatro elementos fazem parte da cultura hip-hop. São eles: os DJs, ligados diretamente ao rap; os MCs, que mandam mensagens pelo microfone; os B.Boys, que dançam no compasso do rap, e os graffers, que escrevem e pintam em muros e paredes das vias públicas.

Mainstream

A tradução literal para o português do termo inglês mainstream é corrente principal. De uso frequente no Brasil, a palavra é empregada para fazer menção ao pensamento e gosto comuns da maioria da população, especialmente no que se refere a produtos e serviços colocados no mercado pela chamada indústria cultural.

Andy Warhol

Artista plástico norte-americano, nascido na cidade de Pittsburgh, Pensilvânia, tornou-se famoso a partir dos anos 1960, ao utilizar motivos e conceitos da publicidade na produção de suas obras. As serigrafias de Warhol ficaram conhecidas por apresentar reproduções em série de latas das sopas Campbell, de garrafas de Coca-Cola e de rosto de pessoas conhecidas como Marilyn Monroe, Elvis Presley, Elizabeth Taylor, Che Guevara, entre outros ícones.

Pop art

Movimento artístico surgido nos anos de 1960, na Inglaterra, cujos principais expoentes recusavam a separação arte/vida, característica da chamada arte moderna. Os principais artístas e críticos entusiastas da pop art defendiam a utilização de elementos da indústria cultural e da cultura de massa como fonte de inspiração, motivação e/ou matéria prima para a construção de obra de arte.

Expressionismo

Escola de arte que marcou época entre o final do século e XIX e começo do século XX, cuja característica principal reside na interpretação subjetiva que cada artista faz da realidade. Tem semelhanças como o Realismo, mas, diferentemente desse, não idealiza a realidade, mas a apreende a partir do ponto de vista do sujeito. Nos anos de 1980, em várias partes do mundo, as artes plásticas expressam a releitura desse movimento, daí o nome neoexpressionimo.

New wave

Termo usado para descrever uma grande variedade de desenvolvimentos musicais, mais comumente associado ao movimento da música popular dos EUA, Reino Unido, Canadá e Austrália no final dos anos 1970 e início dos anos 1980, que se iniciou com a cena Punk Rock de New York. O estilo é misturado com outros gêneros, sendo o Synthpop um dos princípais, além de contar com o Pop, Punk Rock, Funk, Disco Music, Mod, Reggae, Ska e Glam Rock.

Texto originalmente publicado na revista eletrônica Zás, edição 01, out./nov.2009, pp.30-39:
http://issuu.com/revistazas/docs/revistazasedicaoum_outubro2009_baixa